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Paris, essa cidade tão portuguesa

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PARIS, FRANÇA - Diz-se, em jeito de brincadeira, que Paris é segunda maior cidade portuguesa. Não deve andar longe. Eu é que estava longe de imaginar o que encontrei

O mito urbano dessa Paris dos portugueses é real mas era inimaginável para quem, como eu, faz parte de uma geração urbana, nascida já no Portugal europeu, que não lidou de perto com emigração e que não tinha primos avec’s. É que os tais avec’s são muitos, mesmo mesmo muitos. E estão cá há muitos, muitos anos.

Os números mais recentes referem que vive em França mais de meio milhão de portugueses e que, se pensarmos na comunidade contando com os descendentes de segunda e terceira geração, o número sobe para quase 1 milhão e meio. É a maior comunidade estrangeira a viver em França. E a complexidade histórica e social da sua integração na sociedade francesa é tão particular e imensa que é impossível não admirá-la.

Foi graças a uma (adivinhem) porteira portuguesa que consegui encontrar o primeiro quarto onde fiquei (e não vou desenvolver sobre como é procurar-casa-para-alugar-em-Paris-quando-se-é-estrangeiro-e-não-milionário). Porteira essa que regularmente me intercetava no hall de entrada do prédio às dez da noite e me oferecia um enorme tupperware de sopa “para teres qualquer coisinha para comer em casa, quando chegas tarde do trabalho”.

Quatro anos depois as coisas mudaram, já não vivo nesse prédio e o meu círculo de amizades é o reflexo da cidade cosmopolita que Paris é. Não, não me dou só portugueses. Mas em França podia. E constatar isso foi para mim impressionante. Do supermercado ao restaurante, do banco à seguradora, ao cabeleireiro, ao ginásio, passando pela procura de casa, pela procura de emprego ou mesmo nas idas ao médico, podia tratar de tudo e fazer tudo em português.

Isto explica-se pelo sucesso de uma integração profunda. A comunidade portuguesa em França não é uma “comunidade” no seu sentido minoritário. São, como se diz por aqui, “os portugueses de França” e fazem parte da sociedade francesa a todos os níveis. Claro que continuam a ocupar alguns postos de trabalho não-qualificado e ainda há imensas porteiras e pedreiros portugueses como nos anos 60-70-80, mas há igualmente contabilistas, advogados, bancários, gestores, professores, atores, autarcas, deputados ou médicos que são portugueses, ou filhos de portugueses ou casados com portugueses e lusófonos por afinidade. E não são meia-dúzia. São muitos.

A eles lhes devo um agradecimento. Porque graças a eles, e para os que chegam agora como eu, é “fácil” ser português em Paris. “Fácil” por termos o caminho já trilhado pelos que chegaram antes.

Fácil por ser tão ridículo como involuntário sorrir quando vemos o logótipo da Delta na esquina de um café, ou por sabermos onde ir comer frango assado com piri-piri e batata-palha. Ou termos a possibilidade de ir ao cabeleireiro sem ter de passar pelo embaraço de tentar encontrar a palavra certa para “escadeado”, ou ir ao médico e podermos gaguejar perante a explicação de sintomas numa língua que não é a nossa sem sermos julgados por isso, podendo ainda usar uma palavrinha portuguesa pelo meio para nos fazermos entender.

E isso ajuda. Porque, por muito corajosos que sejamos por termos decidido deixar aquilo que sempre conhecemos como “casa”, há dias mais duros que outros, desafios mais complexos que outros e momentos em que o cansaço interno de ter de constantemente provar ao nosso cérebro que estamos a caminho de ser bilingues, é um alívio poder dizer um “bom dia!”, um “por favor” ou um “obrigada”, respirar fundo e baixar a guarda por uns momentos.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: Mais de 180.

Nas notícias por aqui: François Fillon, o candidato da direita democrática (Les Républicans, antigo primeiro-ministro de Sarkozy) recusa-se a desistir das eleições presidenciais mesmo tendo sido constituído arguido por, durante anos, ter contratado a mulher e os filhos como seus Assistentes Parlamentares, sem que estes tenham (ainda a ser averiguado) efetivamente trabalhado nestas funções ainda que recebessem um (chorudo) salário por isso.

Sabia que por cá: Em fevereiro comemora-se o dia da Chandeleur que é uma data em que os franceses se dedicam a… comer crepes! Levam-se crepes para partilhar com os colegas no trabalho, fazem em casa para a família ou vão a uma Crêperie com amigos. Mesmo nos supermercados vendem crepes já preparados ou fazem promoções nos ingredientes para quem quiser fazer em casa. É uma festividade historicamente católica, embora hoje em dia já ninguém se lembre disso.

Um número surpreendente: O metro de Paris tem 303 estações e a rede é considerada como a mais densa no mundo já que nenhum local da cidade fica a mais de 500 metros de uma estação.

Catarina Alberto dos Santos

Catarina Alberto dos Santos

PARIS, FRANÇA - 1 de Outubro de 2012. Em França diz-se que todos sabemos de cor a data em que deixámos o país. Ainda é assim, ou isso era antigamente? Jornalista de formação, e de carácter como costuma dizer, entregou a carteira em 2015 para passar para o outro lado e fazer assessoria. Mas nunca parou de escrever. Na terra do vinho e do queijo, onde não falar a língua é fechar a porta da integração, encontrou uma forma de viver a Portugalidade que desconhecia e que a fascinou pela complexidade. Lisboeta assumidamente saudosista, só não canta o Fado porque não sabe.