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O preço do cobre

Nós lá fora

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE - Viver na América Latina é um pouco como viver num mundo ao contrário

À medida que os incêndios que assolaram a região centro do Chile ao longo do último mês começavam a estar finalmente sob controlo e os contingentes internacionais de bombeiros, incluindo o português, iam regressando a casa, começou a gestar-se na região norte do país um outro tipo de incêndio...

Há cerca de duas semanas o Sindicato n°1 da mineira Escondida anunciou que iria convocar uma greve, devido a desentendimentos com a empresa na negociação do reajuste salarial (7% solicitado pelos trabalhadores contra 0 avançado pela empresa) e do valor do bónus anual a pagar aos trabalhadores da mina (25 milhões de pesos chilenos contra 8 milhões de pesos chilenos). Para referência, o bónus mais alto pago na história da mina foi de 23 milhões de pesos chilenos em 2013, em pleno boom do preço do cobre.

Muitas vezes falo de que viver na América Latina é um pouco como viver num mundo ao contrário, além de estarmos supostamente de pernas para o ar quando olhamos para um globo terrestre e de ter as estações do ano trocadas, essa sensação de mundo ao contrário por vezes manifesta-se em coisas mais sérias como as leis da oferta e da procura ou nos nossos preconceitos de como funcionam o mundo e os mercados vistos na perspectiva do hemisfério norte.

O mero anúncio de uma greve por parte do sindicato da mina Escondida, há duas semanas, fez com que o preço do futuro de cobre subisse 1,87%. Sim, estou a falar do preço do cobre a nível mundial, ou seja, desta vez é a oferta em vez da procura que está a causar a subida dos preços e a fazer as manchetes dos jornais.

O Citigroup e o Barclays estimam que pela primeira vez em seis anos possa haver problemas de oferta. Depois de um período de descida do preço do cobre durante 2014-2015, o que resultou na suspensão de inúmeros projectos mineiros e de boa parte da imprensa económica ter anunciado o fim do boom dos commodities e com ele o fim do boom económico dos países emergentes, a verdade é que o preço do cobre subiu mais de 25% no último ano 2016, uma vez recuperada a procura e de os investidores anteciparem um maior gasto em infraestrutura. Tradução: a China, responsável por quase 60% do consumo mundial de cobre, recuperou os níveis de consumo e o recém eleito presidente Donald Trump comprometeu-se a investir US$1 bilhão em infraestrutura e a baixar os impostos.

Quem é a mina Escondida? A Escondida, propriedade do grupo mineiro anglo-australianao BHP Billiton Ltd., é a maior mina de cobre do mundo, responsável por cerca de 5% da produção mundial de cobre (ou, um milhão de toneladas métricas de cobre por ano, se conseguirem imaginar o que isso é...). O Sindicato n°1 da mina Escondida representa cerca de 2500 trabalhadores. A greve, entretanto, materializou-se.

A última vez que este sindicato levou por diante uma greve foi em 2006. Essa greve durou então 26 dias e paralisou cerca de 60% da produção da mina. Desta vez, os dirigentes sindicais já anunciaram estarem preparados para uma greve de dois meses.

O timing para esta greve é ideal, pois coincide com a paragem dos envios de cobre na mina da empresa Freeport McMoRan Inc. na Indonésia, enquanto essa empresa negoceia com o governo os termos sob os quais opera naquele país. Este cenário de escassez de envios contribuiu para que o cobre alcançasse o preço mais elevado desde Maio de 2015.

Uma greve alargada na Escondida traz também o risco de contágio ou de pelo menos vir a afectar as negociações salariais nas outras minas chilenas. E terá certamente impacto no resto da comunidade, onde 70% do PIB local na região de Antofagasta depende da atividade mineira. Empreiteiros, fornecedores, comércio retalhista. A época em que se pagam os bónus anuais aos trabalhadores mineiros corresponde a uma importante campanha de vendas para os sector retail e automóvel. É quando as pessoas na região trocam de automóvel, compram aquela televisão nova ou fazem as obras em casa. É uma espécie de campanha de Natal para o sector do comércio.

Com o decurso da greve, e já entrámos na segunda semana, começou também a troca de acusações: má-fé nas reinvindicações dos trabalhadores ou interesse por parte da empresa em adiar as negociações? Com a subida no preço do cobre fruto da paralização da produção na mina, a BHP Billiton viu as suas acções terem uma valorização US$6 mil milhões. Quem ganha com esta greve?

Parece estar claro quem perde. Perde o Chile, como bem referia Joaquín Garcia-Huidobro este Domingo passado num artigo de opinião intitulado “A mina mais pobre do mundo” publicado no jornal de maior circulação no país o El Mercurio. Num país em que o cobre chega a representar 15% do PIB nos anos bons e em que a atividade mineira contribui mais de 50% para o cabaz das exportações nacionais, esta greve interessa a todos os chilenos, não apenas às partes diretamente involucradas no conflito. No entanto, enquanto o sindicato tem vindo a adoptar uma postura de transparência, digna das melhores práticas de responsabilidade social corporativa, informando na sua página web de todos os comunicados, identificando quem são os seus dirigentes e até os seus dados de contato diretos, já a empresa parece ter optado por um certo hermetismo. Na sua página web, é como se a greve não existisse, apenas dados gerais sobre a atividade da mina, irrelevantes para este conflito, e notícias bonitas sobre a atividade da fundação que leva o mesmo nome da mina. Uma forma de comunicar e de demonstrar força um tanto antiquadas e que segundo o autor muito têm contribuído para o desprestígio do mundo empresarial nas mais recentes crises. Como se as empresas se esquecessem de que vivemos em democracia. BOUMMM! E é aqui que me recordo a mim mesma de que vivo num mundo ao contrário. Recordo-me das notícias que me chegam de Portugal e da Europa sobre concertação social e comparo-as com estas notícias no Chile e com esta forma de pensar, vinda, diga-se, de um jornal conservador.

Afinal quem é que está parado no tempo? Tenho a impressão de que na Europa nos habituámos à ideia de que os sindicatos perderam a noção do mundo em que vivemos, de que cada vez que se convoca uma greve é um tiro no pé que vai afastar o investimento do nosso país neste mundo globalizado. Em Portugal soube que houve uma polémica que envolvia a concertação social e uma “feira de gado”. Um pouco por toda a Europa escreve-se sobre a “uberização da economia” e sobre o Papão da inteligência artificial que vai eliminar ainda mais postos de trabalho do que a globalização. Não defendo para nada o nível de conflitualidade social e laboral que existe no Chile, no entanto este tipo de notícias recorda-me que existem outras perspectivas e formas de pensar sobre a mesma realidade. Se calhar na minha velha Europa continuamos a ver (eu incluída) o mundo de uma forma meio antiquada e olhamos para as nossas opções e futuro cada vez mais a medo. Como se por vezes, como dizia o tal artigo, nos começássemos a esquecer de que vivemos em democracia... ainda.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 178 dias.

Nas notícias por aqui: além da greve na Escondida, começou o Festival Internacional de Viña del Mar.

Sabia que por cá…. Fevereiro é o Agosto dos Chilenos, é o mês das férias de verão.

Um número surpreendente: A mim surpreende-me é a falta de números disponíveis em Portugal sobre os mais variados temas. Quando comecei a escrever este artigo tentei procurar dados sobre afiliação sindical em Portugal, qual o maior sindicato individualmente considerado, sem contar com as centrais, enfim, ter uma ideia da nossa dimensão para comparar com o Chile, onde os números por vezes são tão surpreendentes que até afectam o resto do mundo... No entanto não encontrei grande coisa, encontrei inclusivamente abstracts de estudos na área das ciências sociais em que nas considerações introdutórias se queixavam disso mesmo: da falta de números.

Inês Batalha Mendes

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE Vive fora de Portugal desde 2004. É licenciada em Direito, mas trabalha como analista de risco, uma combinação improvável que é o terror dos head-hunters mais arrumadinhos. Avessa a definições e curiosa por natureza, vai acumulando várias vidas como um gato. Já chamou casa a Madrid, São Paulo e a Santiago do Chile onde reside actualmente. Sente-se turista em Lisboa e estrangeira lá fora. Da vida do outro lado do mundo aprendeu que as castanhas comem-se em Maio e as cerejas em Novembro... e que se deve sempre ter um garrafão de 5L em casa por causa dos terremotos.