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Dupla nacionalidade, bilinguismo e identidade

Nós lá fora

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE - A maior riqueza que vou deixar ao meu filho são os dois passaportes que ele tem

Costumo brincar que a maior riqueza que vou deixar ao meu filho, muito maior do que todas as contas poupança que possa vir a abrir, são os dois passaportes que ele tem... um pelo país onde nasceu, o Chile, e o outro pelo facto de os pais serem portugueses.

Ora, com grande riqueza vem grande responsabilidade. Para aqueles dois livrinhos se materializarem em algo de real valor no futuro e o termo dupla nacionalidade não ser um conceito vazio, uma recordação das aventuras dos pais pelo mundo, temos que assumir o desafio de lhe transmitir as duas culturas. Creio que não se fala o suficiente disto quando se fala hoje de emigração em Portugal. Das crianças que “nós lá fora” estamos a ter pelo mundo. Portugal tem uma nova geração de luso-descendentes. Eu sou do tempo em que luso-descendente era uma palavra com uma carga meio pesada, pelas conversas dos adultos concluía que eram uns miúdos que andavam em ranchos folclóricos, iam de férias a Portugal e que não falavam bem português. Qual é a situação hoje? O meu filho não irá a um rancho folclórico, mas tem um mapa de Portugal formato sala de aula na parede do quarto, um galo de Barcelos de peluche, uma camisola do Benfica com a abreviatura chilena do seu nome português e todos os livros da Planeta Tangerina a que consigo deitar as mãos. Posso-vos dizer também que, apesar do puto só ter dois anos, já ouvi um: “é mesmo emigrante, tem sotaque espanhol”. Ninguém disse que isto do bilinguismo ia ser fácil ou que o resto da comunidade aqui e lá em Portugal fosse compreender sempre bem as nossas circunstâncias. Há muita disciplina e muita determinação envolvidas... pode até ter sotaque, mas muda o chip de bolacha para galleta e de leche para leitinho consoante a pessoa com quem está a falar. Já a ovelha deixou de ser oveja, agora chama-se Susy Sheep e segundo me diz é amiga de uma tal Pepa...

Bilinguismo deste lado do mundo entende-se muito como a dupla do espanhol-inglês. Perdi a conta às vezes que me perguntaram: “E em que língua é que vocês lhe falam? Seguido da minha resposta: “Em português, o espanhol aprende na creche.”, seguido da cara decepcionada do meu interlocutor como se lhe tivesse acabado de contar que o Pai Natal não existe. A melhor conversa foi mesmo com uma colega do trabalho, numa daquelas conversas de casa de banho em que depois da sacrossanta pergunta e da minha resposta decepcionante, ela me diz com a melhor das intenções: “Ó Inês, tu falas super bem inglês. Porque é que não lhe falas tu em inglês e assim o teu gordito já fica com a vida feita?!”. Quem avisa amigo é, mas esta forma de bilinguismo utilitarista é, para mim, um novo monolinguismo. Lá chegaremos ao inglês e, espero que, também ao alemão. Há muitas teorias sobre o bilinguismo e o multilinguismo, a mim parece-me particularmente interessante a hipótese avançada por Sapir-Whorf de que as línguas afectam a nossa visão do mundo e, em consequência, a nossa forma de pensar e de intuir as diferentes nuances culturais. O que é isso de pensar de forma diferente? Dou um exemplo; na creche pediram certo dia que mandássemos uma cartolina com uma apresentação sobre um animal da quinta. O que pensaria um português? Vamos fazer uma colagem com uma vaca ou uma ovelha...bom, deste lado do mundo houve uma família que enviou uma cartolina com lamas. Sim, lamas, os primos dos camelos. Por aqui, são animais do cotidiano, não aqueles animais exóticos dos livros de aventuras do Tin Tin. Os lamas também podem ser animais da quinta, porque nos dão lã e carne. De igual forma, e passando para um tema mais espinhoso, os índios não são só personagens distantes dos filmes de índios e cowboys. Lautaro, o cacique mapuche da resistência à conquista espanhola é um herói nacional no Chile, mas os mapuches são também pessoas de carne e osso, que nalgumas comunidades ainda estão a lutar pelo reconhecimento de direitos. Nalguns casos de forma violenta.

Isto faz-me pensar na forma como se constrói a identidade. Ou mais complicado, como vou eu ensinar a identidade? O que é ser português? E... O que é ser português sem viver em Portugal? É ter o senhor que vende bacalhau em Santiago no speed dial? Aproveitar as embalagens dos gelados para guardar a sopa? Será certamente a nossa língua e a nossa história, mas sem cair no maneirismo dos grandes feitos do nosso glorioso passado, tipo livro da 4ª classe do Estado Novo. Viver dos dois lados do “charco” ensina-nos que a história não é unilateral. Suponho que, para mim, ser português é uma mistura de Pessoa:” A minha pátria é a língua portuguesa” e de Torga: “Soube a definição na minha infância (...) Hoje, sei apenas gostar de uma nesga de terra, debruada de mar” e é também receber “cuecas pró Natal”, como no sketch dos Portuguese Kids, que fazem um excelente trabalho humorístico sobre a problemática da nossa identidade quando se vive entre dois mundos. Não sei o que o meu filho vai pensar de tudo isto quando crescer. Por agora, vai com sandálias inglesas trazidas de Portugal para a creche. Tem sapatos diferentes do resto dos colegas... Será que também vai ter #PortugueseProblems?!

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 148 dias.

Nas notícias por aqui: Presidente da empresa mineira estatal Codelco sofreu ferimentos ao receber um pacote bomba pelo correio. Discutem-se modificações à Lei Antiterrorista.

Sabia que por cá… o ano lectivo começa em Março e termina no início de Dezembro

Um número surpreendente: De acordo com o censo de 2002, 4,6% da população chilena declarou ser indígena, pertencendo a um dos oito povos originários reconhecidos pela legislação chilena em vigor à época: Yámana, Rapanui, Quechua, Mapuche, Colla, Aymara, Atacameño e Alacalufe.

Inês Batalha Mendes

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE Vive fora de Portugal desde 2004. É licenciada em Direito, mas trabalha como analista de risco, uma combinação improvável que é o terror dos head-hunters mais arrumadinhos. Avessa a definições e curiosa por natureza, vai acumulando várias vidas como um gato. Já chamou casa a Madrid, São Paulo e a Santiago do Chile onde reside actualmente. Sente-se turista em Lisboa e estrangeira lá fora. Da vida do outro lado do mundo aprendeu que as castanhas comem-se em Maio e as cerejas em Novembro... e que se deve sempre ter um garrafão de 5L em casa por causa dos terremotos.