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Nós lá fora

José Augusto Pinto

São Petersburgo, Rússia - Pode a História avançar sem grandes homens, grandes tanto no bem como mal?

No seu habitual discurso de Natal, louvou Sua Majestade Britânica o papel fundamental das pessoas anónimas, que com os seus actos de bondade exercem um efeito cumulativo enorme em prol da sociedade.

A moda do Homem anónimo não é nova.

O Comunismo quis construir um mundo desenhado em torno do Homem comum – infelizmente confundiu igualdade com uniformidade, e logo desenvolveu toda uma hierarquia um pouco menos igual (Brezhnev possuía uma colecção de automóveis muito pouco proletária) para controlar essa igualdade.

Afinal, como se diz no Oriente, é o prego que sobressai que leva com o martelo.

Falo do Oriente não por casualidade.

Há uns tempos tive o privilégio de visitar uma exposição temporária no Hermitage chamada “Perfeição nos Detalhes”.

Trata-se de uma colecção particular de arte japonesa do período Meiji (1867 a 1912, aproximadamente), propriedade de um grande industrial russo de origem judaica.

Não se trata de alguns objets d’art soltos, fruto de um capricho de homem rico; é uma colecção fabulosa de dezenas de objectos decorativos, escultura e pintura, seleccionados com enorme critério estético e técnico. O reconhecido mérito industrial e académico do proprietário reflectem-se no rigor da colecção que possui e que partilha com um público certamente reconhecido.

Outros exemplos há de magnatas russos a investir em arte; talvez Viktor Vekselberg seja o mais conhecido (ainda que nascido na Ucrânia), também ele de origem judaica pelo lado paterno.

Dos vários investimentos milionários em arte russa que fez, a recuperação dos ovos Fabergé e respectiva exposição no museu do mesmo nome em São Petersburgo é dos mais conhecidos. Mesmo não estando isento de polémicas relativas a algumas prácticas de negócios, o serviço que prestou à Rússia é de enorme valor.

O exemplo de investimento em arte nasce do pai desta já minha cidade, Pedro o Grande.

Uma das suas prioridades era a abertura à Europa, à sua educação e técnica.

Nesse sentido mandou construir a Kunstkammer, cabinete de curiosidades (entre elas fetos deformados), pretendendo mostrar que estes não eram resultado de feitiçaria mas antes da natureza.

Tudo aquilo de magnífico que Pedro fez teve um preço humano altíssimo.
A beleza de São Petersburgo está alicerçada em milhares de trabalhadores que, arrancados aos campos, vieram construir uma cidade num pântano num regime não muito diferente de trabalhos forçados.

O acto demiúrgico de Pedro trouxe luz e sombras, brilho e miséria. Pode algum homem ser grande sem fazer mal?

Teria sido melhor que Pedro, em vez de mandar erguer São Petersburgo, tivesse construído casas para os pobres de Moscovo e deixado o território de São Petersburgo entregue, como desde o início dos tempos, à bruma e à lama?

Seria melhor que Vekselberg tivesse mandado construir escolas e hospitais em vez de adquirir os ovos Fabergé?

Pode a História avançar sem grandes homens, grandes tanto no bem como mal?

Podemos ou queremos ser apenas uma enorme colónia de formigas, exactamente iguais, todas anonimamente construindo o bem comum sem que nenhuma sobressaia?

Não tenho resposta para esta questão, e possivelmente nunca terei.

A única coisa que sei é que à saída desta belíssima exposição estava um trolleybus parado em plena avenida Nevsky. Juntei-me ao grupo de homens que o empurraram para fora do tráfego, cumprindo assim o meu papel de formiga trabalhadora e anónima ciosa do bem comum.

Talvez o meu insignificante gesto seja digno dos louvores da fidelíssima e cristianíssima Isabel, mas na realidade preferia ter um dos famosos Fabergé em casa, sempre poupava mais as costas.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 120

Aqui nas notícias: A queda no dia 25 deste mês do avião militar Tu-154 com 92 pessoas a bordo em Sochi que vitimou tripulação e passageiros. Transportava entre outros jornalistas e membros do famoso conjunto coral militar "Alexandrov".

Sabia que: Os russos não festejam tradicionalmente o Natal.

Números surpreendentes: a colecção do Hermitage, que na sua maioria não está exposta, compreende cerca de 3 milhões de artigo ( a colecção de numismática contribui fortemente para este número) .

José Augusto Pinto

José Augusto Pinto

SÃO PETERSBURGO, RÚSSIA José Pinto, 41 anos, casado, 2 filhos, a residir em São Petersburgo desde 2013 com a família. Publicitário de profissão, já viveu no Cazaquistão, Alemanha e Reino Unido. Apaixonado por marcas e um crente indefetível na liberdade individual, economia de mercado e liberalismo, procura nos seus diferentes destinos ver as coisas como elas são, sem complexos de civilizador ou expatriado, procurando em tudo uma centelha de verdade e ironia. Sofre de alopécia.