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São Martinho, nem verão, nem vinho

Nós lá fora

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA - O São Martinho, por aqui, é celebrado com uma procissão de crianças, à noite, com lanternas acesas. Parece que desdenho e faço troça, mas a verdade é que depois de mais de 7 anos, começo mesmo a apreciar

São Martinho rima com vinho, o primeiro que se experimenta depois das vindimas, acompanhado de castanhas assadas, uns figos secos, e umas nozes, à volta de uma fogueira. São Martinho cheira a Verão tardio que interrompe as chuvas de Outubro, assim como ordenou o Senhor, após ser salvo pelo manto do Santo. Mas não aqui.

Aqui, na Alemanha ocidental e fortemente católica, o São Martinho é um caso sério. Aproximando-se esse dia peculiar, começam a chegar notas a casa, dos educadores e professores dos vários filhos (são 3 no meu caso), para os pais se prepararem, para largarem o trabalho e virem ajudar as crianças com o “laternen basteln” – bom, acho incrível que a língua portuguesa não tenha uma tradução directa para o verbo “basteln” – desde já, aqui fica o encarecido pedido às autoridades competentes para arranjarem uma! Não admira que os alemães estejam tão avançados tecnologicamente, tal é a quantidade de “basteln” que fazem desde crianças! Proponho adicionar a palavra “bastelar” ao nosso dicionário e pôr as crianças a bastelar rapidamente, em nome de um futuro mais próspero! Bastelar é aquilo que se faz quando se pega em papel, cola, tintas, arames e paus e que, no caso deste dia, resulta numa lanterna (“laternen”) com uma vela lá dentro. Em português o mais próximo seria talvez fazer Artesanato, mas em alemão o termo é mais vasto incluindo todas as actividades relacionadas com trabalhos manuais para produzir algo. Pode-se bastelar uma lanterna, ou um brinquedo, ou uma moldura, uma sandes, ou uma batedeira ou um rádio… qualquer coisa.

Bem, de volta ao Santo e às lanternas. O São Martinho, por aqui, é celebrado com uma procissão de crianças, à noite, com lanternas acesas. No nosso caso com 3 procissões (mais ou menos espalhadas em torno do 11 de Novembro), sim porque as diferentes instituições que as nossas crianças frequentam são incapazes de se coordenar e fazer uma única procissão. Por isso lá temos que nos desmultiplicar para levá-los cada um à sua, ou a várias. A procissão parte do sítio combinado, à hora combinada, nem um minuto antes, nem um minuto depois. Na versão da lenda de São Martinho em Portugal, o Senhor foi bastante generoso e fez parar a chuva, dando origem ao Verão de São Martinho. Aqui não. Aqui foi um nevão que foi parado, mas isso não pareceu afectar nem o frio, nem a chuva que insiste em cair sempre nestes dias. Por isso lá vamos nós arrastando os pés frios e lamacentos pelo parque da cidade de lanterna na mão. A cada dez minutos lá se pára para cantar mais uma cantiga (entretanto sei as letras de cor) acompanhados pela estridente cacofonia de uma banda de instrumentos de sopro (com alguma sorte, e nas procissões mais pobres, é uma guitarra), que abafa por completo as vozinhas tímidas e subjugadas das criancinhas que bradam:

“Sankt’Martin! Sankt’Martin! Sankt’Martin cavalgava por entre neve e vento. O seu cavalo levava-o rapidamente! São Martinho cavalgava com ligeira coragem, o seu manto cobria-o bem quentinho. Na neve estava um pobrezinho, sem roupa só com trapos: Oh ajuda-me na minha necessidade, senão a geada amarga será a minha morte”

Ou na versão herege dos meus filhos:

“Salami! Salami! Salami cavalgava por entre batata frita e salada. O seu cavalo era uma máquina automática de Coca-Cola! Oh ajuda-me na minha necessidade, senão esfrego-te num pão com manteiga…”

Chegados à paragem final, encena-se a lenda, com dois ou três pais ou professores corajosos transformados em atores de trazer por casa e a coisa vai mais ou menos assim:

NARRADOR: Martinho era um soldado Romano que depois de matar tanta gente resolveu que queria ser bom, e por isso deixar de ser soldado, e por isso foi falar com o Rei.

MARTINHO: Rei!

REI: O que é?

MARTINHO: Não quero mais ser soldado, estou farto de matar malta, queria ser bonzinho.

REI: Tens a certeza?

MARTINHO: Sim, absoluta.

REI: Bem, então vai lá!

MARTINHO: OK!

NARRADOR: Martinho foi à sua vida, e pelo caminho encontrou um pobre que estava cheio de fome e frio porque nevava que se fartava. Martinho sentiu pena do pobre e desceu do seu fabuloso cavalo (nas procissões mais ricas o cavalo é de verdade).

MARTINHO: Oh pobrezinho, toma, leva aqui um pãozinho e o meu man… er… espera… metade do meu manto! (usa a espada ‘bastelada’ com cartão para cortar o manto)

POBRE: Obrigado Martinho, és mesmo muito bom!

NARRADOR: O pobrezinho afinal era Jesus que logo resolveu parar a neve que caía. As pessoas ficaram tão contentes que quiseram que Martinho fosse o seu bispo. Mas Martinho também não queria ser bispo e por isso foi-se esconder num curral de gansos (Martinho segura um ganso ‘bastelado’ com balões brancos e papel). Mas isso não foi boa ideia, porque os gansos fizeram tanto barulho que as pessoas logo o encontraram e fizeram-no bispo logo ali! (Martinho põe o chapéu de bico do bispo, também ‘bastelado’ por alguém com cartolina – este verbo é mesmo útil, já usei 3 vezes, e pode ser usado também assim: “Bastela aí qualquer coisa para se comer”)

Fim. Palmas. “Já se pode ir para casa?”. “Não, falta o brezel!”

As criancinhas põem-se na fila e cada uma recebe um brezel grátis (um pãozinho em forma de cornucópia) e um copo de cacau quente (só para as crianças) e vão aquecer-se à volta da fogueira enquanto se toca mais uma cantiga. Pronto, agora já se pode ir para casa descongelar.

Parece que desdenho e faço troça da festa de São Martinho, mas a verdade é que depois de mais de 7 anos a ir a tantas destas procissões, começo mesmo a apreciar. Para a minha esposa, que é alemã, é algo muito relacionado com a sua infância e que lhe traz sempre boas memórias. E os meus filhos gostam tanto de andar de lanterna à noite no parque que vão também às procissões dos irmãos. E pelo meio encontras outros pais que não vês no dia a dia, e percebes que é um evento que une a todos, independente da origem social. Vejo muitos pais de origem muçulmana ou hindu, orgulhosos de acompanhar os filhos na procissão e de os ver cantar com os outros, logo é um evento que também transcende barreiras religiosas e culturais. Só tenho pena de Deus não ter resolvido dar também aos alemães as castanhas assadas, a água-pé e um Verão de São Martinho. Mas, em relação ao Verão, estou convencido que lá chegaremos em breve com o aquecimento global.

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Bruno Sousa

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA Bruno é pai de três pirralhos, engenheiro aeroespacial chefe de operações de uma constelação de quatro satélites científicos (Cluster) da Agência Espacial Europeia ( as opiniões nas crónicas são só dele, e não da Agência) e nos tempos livres é autor e encenador com peças exibidas em Darmstadt, Den Haag, Antuérpia, Londres e Hamburgo.