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Não há mau tempo, só mau equipamento

Nós lá fora

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA Ninguém está melhor preparado para qualquer eventualidade (seja ela qual for) do que a alemã e o alemão que se encontra pelo caminho

Deixem-me começar isto com mais uma daquelas generalizações de taxa fixa: Os alemães adoram equipamento.

Para cada actividade, para cada momento, e para cada clima e condição meteorológica, existe um equipamento certo. Se estás a sofrer é porque não puseste suficiente energia na escolha e preparação do equipamento.

Seja caminhar na montanha, brincar nas ondas do mar, andar de bicicleta, ou praticar qualquer outro desporto, para cada evento o seu apetrechamento. Peguemos nas bicicletas por exemplo, se um holandês trata a sua bicicleta como quem trata um par de jeans, o alemão trata a sua como se fosse um relógio suíço. Perfeitamente oleada e ajustada. Todos os anos, antes do Inverno há que levá-las à inspecção. Há que ver se são seguras, e têm todos os reflectores, pára-lamas, luzes, campainhas e demais apêndices que as regras ditam. E é bom não esquecer o capacete! As bicicletas dos alemães são máquinas de alta performance, com os mais elevados standards de segurança. Na nossa cidade há pelo menos dois fabricantes de bicicletas de alta qualidade, a Riese & Müller e a Cucuma. Uma boa e robusta bicicleta para uso quotidiano custa para cima de 800€, mas vale cada tostão.

Na minha juventude, andei muito pelos trilhos das montanhas, e dessa minha humilde experiência, posso assegurar que ninguém está melhor preparado para qualquer eventualidade (seja ela qual for) do que a alemã e o alemão que vais encontrar pelo caminho. Partiu-se alguma coisa? Ele tem a ferramenta para concertar. Está com dor de cabeça? Ela tem o comprimido. Esqueceu o papel? Ele tem um rolo a mais. Quer saber a altitude? Veja no relógio dela. Enfim. E já que estamos na montanha, é bom relembrar, que uma das marcas mais icónicas de equipamento de outdoor, a Jack Wolfskin, nasceu, em 1981, aqui mesmo ao lado, em Frankfurt. Os alemães adoram um casaco Jack Wolfskin, mesmo quando não estão na montanha (sim, e eu também…).

Não é também à toa que o maior fabricante de equipamento de desporto da Europa, e o segundo maior do mundo, com receitas em excesso de 15 biliões, fundada em 1948 (pouco depois da guerra) por Adi Dassler, produzindo equipamento para actividades tão variadas como o futebol, corrida, golfe, ténis, basquetebol, skateboarding ou lacrosse, e que patrocina o Lionel Messi e o Nani (entre outros) - a Adidas - seja alemã. E já agora vale a pena mencionar a rival – Puma - fundada no mesmo ano pelo irmão e arqui-rival Rudi Dassler, na mesma localidade com o belo nome de Herzogenaurach, nos arredores de Nuremberga. Segundo o Wikipedia, os habitantes deste sítio eram conhecidos pela alcunha de “pescoços-dobrados”, porque sempre dobravam o pescoço para ver qual das duas marcas de sapatos usavam os forasteiros recém-chegados.

Não querendo tornar esta crónica num panfleto publicitário a marcas de equipamento alemãs, deixem-me mencionar as crianças. A Alemanha é um daqueles países com estações do ano à séria, isto é, com quatro estações bem diferenciadas e características (por enquanto). As crianças têm um sapato próprio para cada estação; As crianças quando vão à praia levam o fato de neopreno, o protector solar, o chapéu e guarda sol, uma troca de roupa e os brinquedos, tudo dentro do bollerwagen (um carrinho de puxar próprio para ir à praia). As crianças, quando chove, saem à rua com os oleados e as botas de borracha; E se faz muito frio, meias-calças, um casacão de Inverno com camada de lã sintética, gorro e cachecol de lã, e luvas isotérmicas; Quando neva saem à rua com fato e botas de neve. É claro que é um pesadelo fazer com que não percam metade destas coisas na escola, mas para essas ocorrências há pois os sobressalentes.

E se formos um passo mais adiante, e espreitarmos nas oficinas de garagem dos pais destas crianças alemãs, veremos que esta obsessão não se fica pelo equipamento desportivo e de lazer mas estende-se às ferramentas. É um prazer ver que para cada parafuso há a sua chave, e todas ordenadas por tamanhos. No outro dia fui visitar um centro de integração de satélites, e estavam quatro satélites enormes a serem montados naquele momento, havia muita coisa para deixar a boca aberta, mas o comentário entusiasmado do meu colega alemão: “Olha aquele quadro com as ferramentas todas alinhadinhas, quem me dera conseguir tê-las sempre assim na minha oficina…”. Um alemão tem sempre a ferramenta certa para o trabalho certo: “Não!! O que tu precisas é uma chave Torx de 0,128 polegadas e tens que ter cuidado para não exceder 7,7 Nm!”; Aliás, ficam doentes se te vêm tentar rodar o parafuso com uma faca.

Para alguém como eu, que também adora um equipamentozinho certo, é claro que aqui é o paraíso. A escolha é interminável, e os peritos percebem à brava da coisa. Se vais comprar um sapato para jogging, fazem-te correr em cima de um tapete rolante com uma câmara que filma a forma como os teus pés batem no chão para perceber qual o melhor sapato para dar suporte aos teus tornozelos. É incrível. Assim que não há desculpas para bolhas nos pés, rabo molhado ou músculo estirado. Para tudo, na Alemanha, há um equipamento certo, e em caso de dúvida, pergunta ao alemão mais próximo.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: Estou cá a passar as férias de Outono (as escolas fecham 2 semanas em Outubro)

Nas notícias por aqui: No dia em que comecei a escrever esta crónica, o Real Madrid aumentou o salário de Toni Kroos (jogador alemão patrocinado pela Adidas) para quase o dobro. Deve ter um equipamento fabuloso.

Sabia que por cá… O prato nacional é a Currywurst, uma grande salchicha frita afogada em ketchup com pó de curry por cima. A última Currywurst antes de se chegar à América pode ser consumida num quiosque no Cabo de Sagres! Existe um museu da Currywurst em Berlim.

Um número surpreendente: com um total de 42 medalhas nos jogos olímpicos do Rio, a Alemanha foi a quinta classificada. Nitidamente tinham o equipamento certo!!

Bruno Sousa

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA Bruno é pai de três pirralhos, engenheiro aeroespacial chefe de operações de uma constelação de quatro satélites científicos (Cluster) da Agência Espacial Europeia ( as opiniões nas crónicas são só dele, e não da Agência) e nos tempos livres é autor e encenador com peças exibidas em Darmstadt, Den Haag, Antuérpia, Londres e Hamburgo.