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Já acabaste de comer?

Nós lá fora

Mariana Palavra

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YANGON, MYANMAR - A chuva lá fora é ideal para rever as aulas de birmanês, uma língua com a ordem gramatical virada do avesso

Setembro, recta final da época das chuvas, na praia mais próxima de Yangon, Ngwe Saung. Uma proximidade de 250 quilómetros que, traduzidos num veículo de quatro rodas, resultam em quase seis horas de distância.

Por esta altura do ano, os hotéis plantados no areal de 20 kms estão às moscas, os preços descem para metade e, com sorte, também a quantidade de chuva, que ainda assim pode atingir os 400 mm (traduzido por miúdos, em 30 dias, 20 são de chuva e céu cinzento). Condições adversas ideais para me obrigar a rever infindáveis aulas de birmanês (ou língua de Myanmar, termo oficial e politicamente correcto num país de permanente sensibilidade) que no últimos dois meses ameaçaram cair no esquecimento. Sem suspeitarem, as meninas a trabalhar no meu hotel-às-moscas foram determinantes para os exercícios de audição e conversação.

Lembrete: ordem gramatical virada do avesso. Exemplo: Eu birmanês estudar para, praia para vim.

Mas vamos por partes:

Lição n° 1: Língua da família sino-tibetana, o birmanês, falado pela maioria bamar, não deixa margem para dúvidas de género. O pronome pessoal ‘eu’ ganha forma diferente dependendo do sexo do falante (‘jɘ ma’ para o sexo feminino e ‘je nɔ’ para o masculino). O género vai também influenciar como as mulheres (e homens) dizem de maneira diferente irmão mais novo (curiosamente isto não afecta o resto dos irmãos- a mais nova, a mais velha e o mais velho. Irmã e irmão do meio partilham a mesma palavra- caso raro).

1.1 ‘Min gɘ la ba’ (prosperidade) é provavelmente a palavra mais comum para cumprimentar os estrangeiros nas ruas. Mas na vida real, os cumprimentos, à semelhança de alguns vizinhos asiáticos, ganham outras formas (ilusoriamente) mais profundas. “Já acabaste de comer?” (‘Sa pi bi la’), “Onde vais?” ou “Onde foste?” são os cumprimentos mais comuns. Não, não é suposto responder à letra. Um simples “já acabei de comer” (‘Sa pi bi’) ou “ainda não comi”, pressupõe que “está tudo bem”, “vai-se andando”, “nunca pior”. E mesmo que não esteja bem, ‘Sa pi bi’ continua a servir porque afinal ninguém lhe perguntou nada.

Pelo contrário, para dizer adeus, não há muita conversa. ‘Twa bi’, literalmente “Estou a ir” ou “Fui”, serve o propósito, como que interrompendo abruptamente o convívio social.

Lição n° 2. Adicionar um ‘pa’ (ou ‘ba’) no final das frases permite elevar o nível do discurso. “Obrigada ba” (‘Jei zu tin ba de’), “hsɔ ri ba” (directamente do inglês sorry), e daí por diante. Por via das dúvidas, coloque-se sempre um ‘ba/pa’ na recta final do discurso virado do avesso, na esperança de dar um tom mais educado à conversação.

2.1 Aqui não são todos drs. Há formas de tratamento e títulos para variados gostos. Por exemplo, há um “tu” para amigos muito próximos e irmãos, e um outro “tu” para amigos assim-assim e colegas, e ainda outro “tu” para empregados de mesa, taxistas, ou comerciantes. A idade também tem uma palavra a dizer (várias, aliás): “Tio” e “Tia” são usados com pessoas muito mais velhas. Até aqui é canja. A coisa complica-se quando há uma margem duvidosa de diferença de idades, já que é preciso especificar irmã/o mais velha/o ou mais nova/o. Junte-se a este rol “Sr” ou “Sra” mais velho/a ou “Sro/a” mais novo/a. Um exercício constante de adivinhação de idades com elevado risco de ferir susceptibilidades. “Mestre” é a forma de tratamento não só para professores, mas também engenheiros, doutores, chefes, gestores, e até funcionários públicos. Ou seja, dá para todos, sobretudo enquanto fórmula de engraxamento (que raramente falha).

Há ainda uma cartilha com pronomes e formas de tratamento especiais para utilizar com as diferentes hierarquias budistas (noviços, monges, monjas, etc). Insisto em faltar a essas aulas. Sorry ba.

Lição n° 5 Números e exercício prático/conversação.

Menina do hotel-às-moscas (MHaM): Que idade tens?

Jɘ ma (Eu): 38.

MHaM: Tens casa prisão? (literalmente “és casada?”)

Jɘ ma: Não, não vivo numa casa prisão (sim, sou solteira).

MHaM: [expressão de espanto]

Jɘ ma: “sim eu sei, idade é grande (‘a-teq ji de’), que é o mesmo que dizer de forma indolor “sou velha”.

Lição n° 88 O sistema de escrita inclui 33 consoantes, 14 vogais, três tons e mais uns poucos caracteres finais. À (minha) primeira e desinformada vista, a escrita parece-se com 8s e 80s: 8 deitado, meio 8, 8 a fazer o pino, 8 trincado, 8 esborratado, etc, etc, etc. São muitas rodinhas muito redondinhas. Apesar do susto inicial, após algum estudo, ler birmanês não é um bicho de 8 cabeças.

Menina do hotel-às-moscas, no final do fim-de-semana à beira-chuva: “Já acabaste de comer?”

Resolvi testar o nível de humor da menina: “olha por acaso não, estou cá com uma azia, deve ter sido daquela ‘sɘ-mu-sa’ (chamuça, também típica no Myanmar) que comi ao almoço”

A piadinha não surtiu nenhum efeito. Compreendi que era a hora de retirada: “Fui pa!”

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: Desde o último dia de Agosto.

Nas notícias por aqui: O governo acusa grupos terroristas de serem responsáveis pelos ataques em três cidades maioritariamente muçulmanas no estado de Rakhine que já provocaram mais de 40 mortos.

Sabia que por cá… diz-se ‘beber cigarros’. O verbo utilizado para expirar e aspirar fumo dificilmente se esquece e desconfio até que pode ter feitos dissuasores no consumo.

Um número surpreendente: Myanmar, falada por mais de 30 milhões da população, é a língua principal do país que reconhece um total de 118 línguas. Apesar da diversidade, o birmanês é a única língua da administração central, dos meios de comunicação social nacionais e do ensino oficial.

Mariana Palavra

Mariana Palavra

YANGON, MYANMAR Nasceu em 1978 junto ao mar, em Ovar. Cedo sonhou ser estrangeira. Migrou primeiro para Coimbra para estudar jornalismo. Depois de uma passagem tímida pela RTP, SIC e Correio da Manhã, aterrou em Macau em 2002 para ser jornalista na televisão local. Do Oriente para as Caraíbas em 2009. Um ano na rádio da ONU no Haiti (e um terramoto) depois, trocou o jornalismo pela UNICEF. Desde então já passou pelo Nepal (e por mais um terremoto) e vive agora em Myanmar.