Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Ouro árabe de sabor português

Nós lá fora

Bruno Neto

  • 333

FREETOWN, SERRA LEOA - Aqui tenho acesso a muitos produtos árabes entre eles o azeite – compro cinco litros de azeite extra virgem da Tunísia por cerca de 45 euros

Este é o Eduardo, 90 anos de vida e quase os mesmos de trabalho, mais atrás, ainda que não se veja, está a Beatriz – sua esposa com 89 e quase outros tantos anos de jornas em muito parecidas da mesma vida.

Ambos são da margem norte do Tejo, o Eduardo é do Braçal em terras de Rio-de-Moinhos e a Beatriz do Souto. Há muitos anos atrás decidiram tentar melhorar a sua vida e migraram. Depois de uma longa e forte viagem de carroça a bois carregada com os móveis, malas do cartão possível e alguns sonhos do impossível no seu horizonte, atravessaram o rio Tejo num sem número de idas e voltas até que uma outra carroça os levasse desde a Barca até à Rua do Caldeirão onde pelas próprias mãos, construíram, tijolo-a-tijolo e com a ajuda de amigos e familiares, a casa que até hoje é a sua casa.

Acredito que esta seja parte da genética que me fez sair da minha terra e passar o rio para o outro lado que tantos lados tem. E acredito que mesmo não estando hoje com eles e com os meus pais para nos prepararmos para a apanhar a azeitona, eles compreenderão que a minha missão justifica um pouco essa ausência, ainda que para mim, o facto de estar longe e de não poder estar nesta tão bonita e importante actividade me deixe um sabor de azeitona não retalhada na boca.

Em sentimento oposto, mas com sabor igual, quando estou em Portugal nestas alturas tenho dores fortes no meu peito pela quantidade de campos de oliveiras onde não são colhidas as azeitonas. E digo alto para mim em voz baixa: quando um dia mandar nisto tudo, não haverá azeitona que fique por colher. Farei campanhas de sensibilização aos donos das terras e senão quiserem ou puderem apanhar as azeitonas, serão formados grupos comunitários de apanha da azeitona e todo o sumo dessa apanha será para benefício da comunidade.

Segundos depois do desse PREC existencial, vem à razão que a quantidade de azeitona que fica por apanhar é parte da economia que fica por dinamizar, parte da nossa cultura e identidade cultural que se perde e naturalmente a qualidade de vida baixa ao termos de depender de azeites de outros países e com qualidade que não se conhece nem reconhece.

A minha dependência de azeite é clara. Sempre que viajo para um país onde não haja produção de azeite, levo sempre comigo em cada viagem um garrafão de 3 litros e depois lá me desenrasco com azeites que (pela distância e peso) ficam super caros nos supermercados locais. Na América Central as pessoas não gostavam de azeite porque não estavam habituadas ao sabor intenso do azeite em comparação aos óleos de milho que eram a base de tudo – cozinhar, temperar, etc. Quando vivi na República Democrática do Congo o azeite era raro e normalmente só chegava azeite refinado italiano ou espanhol de péssima qualidade. Felizmente em Angola tinha algum azeite português de boa qualidade. Aqui na Serra Leoa tenho acesso a muitos produtos árabes entre eles o azeite (compro 5 litros de azeite extra virgem da Tunísia por cerca de 45 euros). No meio de tantos produtos árabes, devido à presença massiva de libaneses e sírios neste país, aparecem sempre algumas fabulosas memórias dos meus quase 2 anos no mundo árabe, mais especificamente no Médio Oriente. E foi lá que entendi e compreendi grande parte da minha cultura portuguesa.

Antes de lá chegar, na mais estereotipada ignorância, pensava que o Médio Oriente se resumia a pouco mais que deserto, camelos por todo o lado, campos de petróleo e mulheres e homens com roupas esquisitas e diferentes das minhas. Não podia estar mais enganado, e mesmo que ainda que tenha visitado o deserto e visto meia dúzia de camelos, toda a base cultural era em toda semelhante à minha. Através da Associação Juvenil Cistus de Tramagal, fui para a Jordânia para fazer voluntariado na Associação Mount Nebo de Madaba – linda cidade a 35 kilómetros a sul de Amã, mas para viver e passar a maior parte do meu tempo na capital daquele país. Antes de chegar, perguntaram-me se eu queria viver num pequeno apartamento no centro da cidade ou se preferia antes viver com uma família tradicional Jordana de origem beduína. Não perdi muito tempo em grandes pensamentos, para mim era claro que queria aprender o máximo sobre aquela estranha cultura, então disse de imediato que gostaria de viver com a família.

Uma linda família de marido e mulher e 4 crianças com quem tive a oportunidade de aprender as minhas primeiras palavras em árabe. Tudo se tornou muito interessante à medida que iam passando os dias, e a cada dia mais em casa me sentia. O principal valor daquela sociedade era a família, a educação e a honra de nunca colocar em causa o nome da família. Para vos dar um pequeno exemplo, uma vez saí com o pai da família e coordenador do meu voluntariado – Sakher Alfayez para irmos a uma reunião com um membro do Governo, alguém de uma posição muito elevada. Quando chegámos essa pessoa fez uma enorme cerimónia ao meu amigo, um cuidado e uma subserviência um pouco estranha para alguém daquele estatuto. No fim da reunião e já fora do escritório perguntei o porquê daquela estranha atitude. O meu amigo explicou-me que o tetra avô daquele homem tinha discutido por causa de terras com o seu tetra avô e deu-lhe um tiro e deixou-o a morrer no meio do deserto. Por sorte escapou da morte certa, mas em vez de haver uma vingança e uma provável condenação à morte, houve uma reunião tribal (visto serem ambos beduínos), e a família do homem que disparou cobardemente sobre o tetra avô do meu amigo Sakher, jurou subserviência até ao fim da história em vez de uma retaliação de pena de morte. Na minha cultura não é muito diferente, não os detalhes, mas sim os contornos. A minha educação foi baseada da seriedade, na humildade e na justiça, se eu ou alguém da minha família cometermos um crime hediondo, naturalmente tudo o que os meus pais, avós e gerações anteriores lutaram, será naturalmente perdido e para além da vergonha, quase deixa em vão o sentido da vida de todas essas gerações. Tenho a certeza que o sentimento em vós será o mesmo, não?

Nesta família jantava-se no chão em cima de lindos tapetes. Não havia pratos individuais. Havia a repartição contínua do pão feita pelo pai e todo um conjunto de pequenos pratos que compunham de forma muito salutar todo aquele ambiente da partilha. Humus (um puré de grão-de-bico, tahini que é pasta de sementes de sésamo), cenoura fresca partida longitudinalmente, ovos mexidos, pickles caseiros, beringela cozida no lume com especiarias divinais, azeitonas verdes e pretas com diferentes tipos de tempero e 2 coisas que até hoje me acompanham e são parceiros de pequeno-almoço todos os santos dias – zaa’tar (mistura de ervas à base de tomilho, manjerona e sementes de sésamo) e o ouro líquido de origem árabe – o azeite. Uma coisa que é fundamental naquela família, naquela sociedade e em todo o Médio Ooriente é o azeite. A paixão e o respeito por aquele óleo essencial era religioso. E por estranho que pareça, toda a minha paixão e iniciação às provas e diferenciações dos tipos de azeites e azeitonas foi no Médio Oriente. Na Síria e no Líbano a produção era de uma qualidade fabulosa, na Jordânia era uma maravilha, mas na Palestina (Territórios Ocupados da Palestina) este líquido vital era algo de muito diferente e especial, muito parecido com o da minha região de Além Tejo.

Uns anos mais tarde voltei ao Médio Oriente e decidi fazer uma visita à Palestina, queria muito visitar uma famosa aldeia, que tem dos melhores azeites que alguma vez degustei – Faqua. Queria também visitar cidades bíblicas como Jerusalém, Hebron, ou mesmo ir a Belém visitar a Igreja da Natividade que marca o local onde Jesus nasceu. Na fronteira, que é controlada por Israel, passei 7 horas de opressão e interrogatórios com um nível de agressividade que mesmo sendo que eu me considere uma pessoa boa, até me sentia culpado por coisas que nem sabia bem o que eram. No final, não gostaram que tivesse vivido no Médio Oriente, que soubesse árabe ou que parte dos meus amigos ou que a ex-mulher fossem de lá, por isso não me deram o visto para poder entrar em Israel e essa era a única forma legal de poder ir a Jerusalém. (De explicar que os portugueses não precisam de visto à chegada a Israel tal como o contrário, mas a mim decidiram, uma vez mais, quebrar as regras internacionais, e recusar o meu visto). Gostaria de referir também que durante a viagem à Palestina consegui entrar em Jerusalém mesmo sem o visto. Um dia partilharei como foi entrar e estar ilegal num lugar de tanta apertada segurança.

Depois dos procedimentos legais da fronteira entre a Jordânia e Territórios Ocupados, e de toda a confusão, lá entrei então na Palestina e continuei na senda de procurar as vilas que tinha ouvido falar e de onde vinha o tão precioso azeite que tanto eu tinha gostado.

Tive Ramallah como base e depois fui viajando por todos aqueles territórios. Fiquei chocado com o que vi numa pequena aldeia ao lado de um colonato vi crianças palestinianas a serem perseguidas pelo exército israelita e a atiçarem-lhes os pastores alemães, vi três mulheres – uma delas uma senhora com a mesma idade da minha avó a serem esmurradas pela polícia, vi no centro histórico de Hebron – uma das cidades mais antigas do mundo, colonos a deitarem do alto das suas casas fezes e urina sobre as pessoas que passavam na rua e vi estradas para judeus e estradas para árabes, vi um muro a separar os territórios secos para onde foram empurrados os palestinianos e vi o lado Israelita com fontes de água e acesso a todos os recursos. Na Palestina vi o apartheid, na Palestina entendi todas as palavras de Desmond Tutu, revi uma das últimas declarações em vida de Nelson Mandela – "Nós sabemos muito bem que a nossa liberdade estará sempre incompleta sem a liberdade dos palestinianos."

Fiz o que pude e não pude para chegar à vila do Azeite – Faqua –, mas os demasiados checkpoints israelitas e o facto de sempre me negarem a possibilidade de continuar caminho, fez-me seguir caminho por outras partes, até que cheguei a uma vila – do meu amigo Nassim. Esta vila uns dias atrás tinha estado cercada pelo exército israelita para que desta forma pudessem apropriar-se de mais terras para novos colonatos ilegais serem erguidos. Ele e muitas famílias perderam a maior parte das terras que tinham e a primeira coisa que as forças de ocupação israelita fizeram e sempre fazem quando ocupam os campos, é deitar a baixo as oliveiras – muitas delas centenárias, todas elas parte do sustento das famílias palestinianas que com pouco ou quase nada deixam de poder sobreviver e morrem ou partem.

Foi aqui que vi uma imagem que até hoje me marcou como poucas. Vi algumas mulheres, homens e crianças num campo que tinha acabado de ter totalmente pisado e massacrado pelos buldozers israelitas a apanhar a azeitona no chão. Eles estavam na aleija. Provavelmente muitos de vós não sabe o que é ir à aleija, fica portanto o desafio de perguntarem aos mais velhos, ou aos mais pobres que actividade era esta, que os meus pais e avós muito fizeram no tempo da ditadura.

O Eduardo e a Beatriz saíram com muito esforço e muito sofrimento da sua terra para poderem procurar melhores condições de trabalho e de vida noutra terra, mas porque quiseram e porque lhes foi permitido passar as estradas e o rio. Neste momento, tentem imaginar o que sofrem e o que sentem pessoas que como na Palestina, na Síria, na Líbia, no Iraque (e podia continuar com muitas outras realidades e países) que todos os dias sofrem pela ocupação das suas terras, sofrem pela morte dos seus entes queridos, sofrem por perder as suas casas, por perder a sua dignidade, por temerem pela sua vida e sendo a sua única saída a fuga e tentarem escapar para qualquer local em que haja um povo que as ajude e lhes dê a mão nestes tempos de crise humanitária tão grande.

Eles têm mais que estradas e rios para atravessar, eles têm muros mais altos que muros, mares mais bravos que os mares bravos. Eles têm de atravessar a vergonha de estender a mão e esperar que alguém os agarre antes de se afogarem.

Eu tenho o meu braço estendido, e você?

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 17

Nas notícias por aqui: A inflação no país está a aumentar a velocidade vertiginosa. Em Março estava colocada nos 8.7, o Ministro das Finanças confirmou esta semana que a inflação estava nos 10.4% e as previsões é que até ao final do ano possa atingir os 15 pontos percentuais. O que se tornará insustentável para muitas famílias.

Sabia que por cá... Estamos no fim da estação das chuvas, as temperaturas estão a aumentar, começa a haver promoção de artigos de praia, mas ao mesmo tempo está a começar a febre dos produtos de natal. Então frequentemente se vê ao lado de latas de neve artificial e Pais Natal, bikinis e protectores solares?!

Um número surpreendente: A média de filhos por família em Portugal é de cerca de 1,3 e na Serra Leoa a média é de 6 filhos. A percentagem de jovens até 14 anos é quase de 50% do total da população na Serra Leoa e em Portugal é apenas de cerca de 16%. Ambos os países têm grandes desafios em sentidos opostos.

Bruno Neto

Bruno Neto

FREETOWN, SERRA LEOA Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um coleccionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em quatro continentes, tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade.