Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Organizar as coisas assim é uma mariquice

Nós lá fora

Vasco Pinhol

  • 333

AALESUND, NORUEGA Os nórdicos têm uma crença absoluta e irredutível nos sistemas, que acham ser condição sine qua non para viver em sociedade. O sistema organiza e reparte, e permite que todos possam planear as suas vidas ao mesmo registo

Ninguém se cura verdadeiramente da infância. Nesta altura do ano a minha actividade-de-rua favorita é partir com os pés a fina camada de gelo – que quando se quebra faz um barulho irresistível – que envidraça as poças de água. Os dias estão a encolher e em breve a noite tornará os dias tão pequeninos que quase não se dará por eles.

Quando aqui cheguei, vinha cheio de ideias geniais de pontes e travessias culturais e profissionais entre o mundo nórdico e o mundo português. Por trabalhos e esforços, e ao longo de quase uma década a saltitar entre o nosso país e a Noruega, tinha identificado uma série de gente de valor em Portugal e uma série de défices de capacidade na Noruega. Tudo me parecia por isso fluidamente ajustado para ligar esta fantástica oferta a esta alarmante procura.

O tempo, esse malandro, veio desdizer-me e desboroar estas ideias – e simultaneamente pôr a nú um problema que nós, portugueses, teremos de mais cedo ou mais tarde resolver a bem se não a mal. Eu explico, com exemplos.

A empresa A, na Noruega, precisa de fazer um trabalho que eu sei que a empresa B em Portugal faz muito bem, muito rápido e, para preços noruegueses, muito barato. Eu falo com a empresa A e inicio as festividades – há um orçamento (que tem de ser tipicamente muito bem explicado, porque aos noruegueses custa-lhes sempre a crer que se possa fazer tanto por tão pouco) e um prazo de conclusão (em português “deadline”), que são a primeira fase de aprovação. Nesta fase, os noruegueses antecipam que haja uma figura no processo chamada Líder de Projecto (em português “project leader”), que será o responsável pela gestão quotidiana do mesmo. Logo aí a coisa começa a patinar: “Mas o que é que eles querem? Uma pessoa com quem falar? Mas falar de quê?”. Depois há a questão do acompanhamento temporal do projecto (em português “timeline”). As conversas típicas que tenho são, na empresa norueguesa: “Vasco, que programa é que eles usam para acompanhar o projecto diariamente e podermos saber exactamente o que foi feito, por quem e quando?” (há que explicar aqui que estamos a falar de projectos de meses, que implicarão múltiplos intervenientes); na empresa B, em Portugal: “Mas do que é que eles estão a falar? Um programa em que se marca o que se fez todos os dias? Mas o deadline é daqui a três meses!”.

Como conheço as duas realidades, sei que estão as duas certas – ou que não há maneira de as diferenciar como certas ou erradas, mas apenas como portuguesas e norueguesas. Os nórdicos têm uma crença absoluta e irredutível nos sistemas, que acham ser condição sine qua non para viver em sociedade. O sistema organiza e reparte, e permite que todos possam planear as suas vidas ao mesmo registo. Ninguém antecipa que se faça mais que o que é devido, mas também ninguém imagina que se faça menos do que é devido sem que haja consequências. O sistema permite ainda, quando alguma coisa corre mal, saber exactamente quem falhou e activar o conceito de responsabilização. É muito estranho, mas é assim.

Por outro lado, os portugueses sabem que organizar as coisas assim é uma mariquice e que os verdadeiros profissionais trabalham sem rede. Sabem que quando se perde muito tempo com pormenores perde-se de vista a qualidade do trabalho e o resultado final é uma merda. Sabem que há um nível de dedicação e esforço que uma pessoa só consegue ter quando se apercebe que o deadline é dali a três dias. Quando essa dedicação e esforço se aliam à criatividade – que só aparece quando a adrenalina que decorre do pânico nos põe os cabelos em pé – o resultado final será sempre muito melhor que o obtido pelos sistemas organizadinhos.

Estão ambos certos, só que em lugares diferentes. No presente regime, é muito mais fácil fazer os portugueses acreditar que os noruegueses são eficazes com as suas minhoquices, do que fazer os noruegueses acreditar que os portugueses são eficazes com as suas directas e encomendas de chinês entregues no escritório fora d’horas.

Se queremos exportar o nosso esforço, dedicação e criatividade, vamos ter de arranjar uma solução para isto.

VASCO PINHOL

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 70 dias

Nas notícias por aqui: A principal notícia do dia, o primeiro-ministro (na altura Stoltenberg) e o rei tiveram uma reunião de estado para discutir o namoro do príncipe e da princesa, porque esta tinha um filho de outro casamento e tinha andado em festas...

Sabia que por cá… quando se chega às 4 da tarde toda a gente vai para casa, e quando chega a sexta-feira as pessoas “fecham o estaminé” e só voltam na segunda de manhã? E que no Domingo está tudo fechado?

Um número surpreendente : A segunda maior cidade da Noruega (Bergen) tem só 250 mil habitantes, mas a nona maior cidade (Ålesund, onde moro) tem apenas 50 mil habitantes.

Vasco Pinhol

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA Vasco Pinhol nasceu em 1962 e começou a fotografar em 1970. É um insatisfeito e, embora alvo de cuidada educação, tem vindo a diluí-la – ou destilá-la, conforme a perspetiva – nas suas viagens. Nalguns sítios que visitou, foi ficando. É momentaneamente este o caso, na Noruega. Sendo que tem sempre o mar à janela do que está a pensar, viver com o mar realmente à janela alterou de forma indelével os seus maneirismos. Já foi português, e gostava de voltar a ser. Tem o trato de um pescador, embora as mãos mais cuidadas. Tem os olhos queimados pelo sol. Tem dois filhos. É feliz de uma forma calma.