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Já cantava a Suzy Paula

Nós lá fora

Miguel Moreira Rato

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LONDRES, REINO UNIDO - Quem vive fora tem que estar preparado para abrir as portas de casa. Tenho cá para mim que poucos meses de expatriação equivalem a um mestrado em Gestão Hoteleira na melhor universidade do mundo.

O Areias. O gato Calinas. A polca da bicharada. E por ai em diante. São estes alguns dos títulos da minha infância. Tocavam a duas rotações, conforme queria ouvir a Suzy Paula com voz normal ou em tom de monstro das bolachas. Desde que cheguei a Londres , dou comigo a trautear frequentemente uma das músicas mais conhecidas dessa grande artista que, diz a Wikipédia, “escandalizou muitos com as suas minissaias”. E reza assim: Visitas, visitas, há muitas visitas, que enchem os sonhos os meus e os teus....e por aí em diante. Quando se vive fora, há muitas visitas. Não enchem os sonhos mas claramente enchem-nos a casa.

Feitas as contas, só no primeiro ano de expatriação, dormiram mais de 60 pessoas na nossa residencial de charme no sudoeste de Londres. Mais de 60, entre família, amigos do peito, amigos do cotovelo, primos direitos, primos tortos, afilhados, filhos de amigos e alguns mais conhecidos do que amigos. Ele houve de tudo. A nossa casa foi campo de férias, casa de fim de semana, alojamento rápido para quem faz escala em Londres e hostel.

Este constante entra e sai fez com que, passado um ano, sejamos os melhores guias para o “essencial” Londrino. Poucos foram os sábados de manhã que não apanhámos o metro para Notting Hill. Quando hoje em dia chegamos ao mercado de Portobello (nunca mais lá voltámos, verdade seja dita), parece que sabemos quantos passos nos separam daquela loja dos casacos de pele, da banca dos soldadinhos de chumbo, ou da gadelhuda que vende as Leicas. O mesmo com Camden Town, desta vez aos domingos. A loja que tem as t-shirts que brilham no escuro é paragem obrigatória para os mais jovens. Já as senhoras preferem a loja que tem a montra cheia de máquinas de costura. Eles, por sua vez, vão directos ao Senhor Vasco que tem morada fixa mesmo encostada ao rio a poucos metros de onde elas comentam o preço exurbitante das túnicas e dos sapatos. Apesar de terem saído de Lisboa na véspera, os nossos hóspedes já suplicam por uma bica “verdadeira” e um nata, que nunca é melhor do que os de lá da terra.

Esses fins de semana incluem sempre um brunch no restaurante do bairro, que apesar de ter nome francês oferece um óptimo “full English” . E também um percurso pedestre, com guia – incluído na diária – entre Westminster e Covent Garden, passando pelo London Eye, o Big Ben, Whitehall, Trafalgar Square e dando um cheirinho do Soho antes de cortar ali à direita a seguir a Saint Martin´s Lane. Covent Garden é sempre paragem obrigatória, para ver vá-se lá saber o quê e comentar que a cantora de ópera tem uma voz extraordinária.

O pior acontece quando os nossos hóspedes, que fazemos questão de acompanhar para que sintam o que de melhor Londres tem para oferecer, dispensam uma ida à Saatchi Gallery ou à Serpentine em Hyde Park e nos perguntam se queremos ir ao irrespirável, tenebroso, claustrofóbico olho do furacão. Aí, há um cruzamento de olhares. Umas bochechas a ficarem quentes e roxas. Umas mãos a apertarem uma contra a outra até estalarem os ossos do mindinho. Um pé que começa a bater de maneira pouco ritmada. Respirar fundo, meia bola e força e lá vamos nós para Piccadilly e Regent Street. Tentamos arrumar as ânsias consumistas dos amigos antes de chegarmos a Oxford Circus – até porque há duas GAPs no caminho. Se não conseguimos, e damos por nós a entrar na Oxforst Street, o feitio começa a piorar e as conversas animadas dão lugar a silêncios constrangedores. Talvez seja hora de voltar ao sossego do lar, até porque a diária inclui jantar e ainda há muito para conversar.

Bom, bom, é que os jantares incluem sempre palmiers do Careca ou da Cristal, línguas de gato de chocolate da Arcádia ou broas do Gregório de Sintra. Quem nos visita traz sempre as coisas que mais gostamos. E não são só chocolates ou cápsulas de café. Quem nos visita traz histórias da nossa terra. Episódios sem relevância que geram boas gargalhadas. Conversas desinteressadas que nos fazem ter saudades de cheiros, vozes, barulhos. Novidades de quem por lá anda que nos fazem ver que o tempo, às vezes, não passa assim tão depressa, pelo menos para quem lá ficou.

Volto ao gira discos e à Suzy Paula, a quem de vez em quando chamo Tonicha (desculpem-me as duas). Enquanto vou cantarolando o “Visitas”, vou visualizando todos aqueles que passaram por nossa casa no último ano. São eles que ocupam as nossas conversas depois de saírem para o aeroporto e são eles que, sem darem por isso, fortalecem a ligação ao nosso país e a certeza de que um dia vamos voltar e ser, também nós, visitas noutra cidade qualquer.

São endiabradas
E muito animadas
Depois vão-se embora sem dizer adeus.

As nossas não são como as da Suzy Paula. Dizem adeus. Até breve. Deixam saudades, e muitos lençóis para lavar.

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Miguel Moreira Rato

Miguel Moreira Rato

LONDRES, REINO UNIDO Define-se como uma pessoa inquieta. No bom sentido. Já foi jornalista e assessor de imprensa, mas foi no empreendedorismo que encontrou o seu talento. Lançou duas empresas de comunicação e relações públicas e aos 40 – toca a todos – decidiu dar mais uma grande reviravolta e aceitou o desafio de liderar a comunicação de uma das mais promissoras ONGs internacionais. São 40 os países que estão a seu cargo, e Londres é agora a sua base. Desde que se mudou, há quase dois anos, já viajou pelos quatro cantos do planeta – literalmente – mas o que mais lhe lava a alma é voltar para casa e aproveitar os poucos raios de sol para conhecer o país para onde se mudou com a mulher e os três filhos – os seus verdadeiros companheiros de viagem.