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A caixa das prendas

Nós lá fora

Bruno Sousa

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DARMSTADT, ALEMANHA A caixa está cheia de brinquedos (entre os 5 e 20€), escolhidos pelo aniversariante e vetada pelos pais à espera de serem adquiridos pelos convidados. Funciona como uma lista de casamento para crianças

Confesso que não sei se é fenómeno local ou paranóia nacional, choque cultural ou conflito geracional (quatro rimas numa frase, nada mal), mas volta e meia os meus filhos chegam a casa com um convite que diz mais ou menos assim:

“Querido N.

Gostava muito que viesses à minha festa de anos no dia tal, das tantas às tantas, por favor diz até uma semana antes se vens.

A tua P.

P.S. Há uma caixa com o meu nome no Faix”

Faix é, cá na cidade, a loja de brinquedos principal (ups, mais uma rima). A caixa, essa está cheia de brinquedos (assim entre os 5 e 20€), escolhidos pelo aniversariante e vetada pelos pais à espera de serem adquiridos pelos convidados. Funciona como uma lista de casamento para crianças. Não me parece normal.

Os alemães, a meu ver, não gostam de surpresas em geral (esta foi a última rima, prometo). Podem até achar engraçado e divertido, mas não gostam. São particularmente adversos a riscos, o que pode ser até bastante positivo (mas seria tópico para outra crónica). Mas, talvez, isto da caixa não seja algo estritamente alemão. Se calhar é apenas mais um sinal dos tempos. Mas a mim, ainda me faz muita confusão esta história de escolher em avanço o que os filhos vão receber no aniversário. Soa a excesso de zelo. Qual a piada da festa de anos quando se eliminam as surpresas?

É claro que quando eu era miúdo, muitas vezes, também queria receber uma prenda específica nos anos, mas essas eram as coisas que os pais ou avós davam. A piada da festa de anos era a expectativa de vir a receber coisas que nem sequer tinha imaginado que queria, e que afinal eram muito fixes (ainda se diz assim?). Coisas que os meus amigos queriam ter para eles mesmo, e por isso fizeram os pais comprar para mim. Coisas que os meus amigos tinham prazer que eu tivesse… Mas aqui, a piada parece estar em ter a certeza que se recebe só aquilo que o menino quer e gosta: It’s my party and I cry if I want to…

Aliás, na última festa, a que o meu filho do meio foi convidado, foi ainda mais esquisito… O Post-Scriptum dizia:

“P.S. A minha mãe já tem uma caixa de prendas para mim, se estiveres interessado liga-lhe para escolher algo…”

A mãe comprou mesmo os brinquedos todos em avanço e disse aos convidados que quem quisesse era só dar-lhe o dinheiro e levantar a prenda lá em casa para dar à filha no dia da festa… E lá fui eu, uns dias antes, dar-lhe 10€ por um álbum do Frozen, que a menina só queria coisas do Frozen. É que nós, perante uma coisa destas, não estávamos mesmo para nos chatear.

Parece-me, nesta era dos pais-helicóptero, que há uma exagerada preocupação, de um lado, em evitar aborrecimentos ao próprio filho no dia dos seus anos, e do outro lado de evitar ofender o menino convidado pelo facto de o aniversariante não gostar da prenda surpresa. Há por trás, normalmente, um cuidado em eliminar situações potencialmente desconfortáveis perante os outros. Os alemães detestam situações desconfortáveis (são, por exemplo, incapazes de se queixar pessoalmente do barulho no teu apartamento e preferem deixar um bilhete anónimo no dia seguinte pendurado na tua porta – nota para próprio: tópico para outra crónica). Eu gosto de levar os meus a escolherem eles próprios as prendas para os amigos, mas às vezes vejo-os encolher os ombros quando pergunto se o aniversariante gostou…

Tenho falado com alguns pais adeptos da caixa e para eles a principal vantagem é precisamente evitar dores de cabeça aos pais dos meninos convidados. É que para muitos desses pais a caixa é um grande descanso. Nada causa mais stress do que ser convidado para uma festa e não ter a mínima ideia do que oferecer ao menino ou à menina. Ou pior, comprar algo e descobrir que o aniversariante já tem… o desperdício… ou a perda de tempo em trocas…

A minha mulher (que é alemã) e eu recusamo-nos sempre fazer a caixa para os nossos filhos, e somos logo inundados de mensagens e telefonemas de pais histéricos (se alguns deles estiverem por acaso a ler isto, não me refiro a vocês, é claro!) que não sabem o que lhes dar. E o pior que lhes podes fazer é dizer ‘oferece o que achares bem, qualquer coisa’, ficam doidos e possivelmente ofendidos (mas como é que eu hei de saber o que é que o teu filho quer?); ou se dizes ‘não é preciso nada, eles já têm tanta coisa’ então estás a quebrar o (e já vou na segunda expressão em latim numa única crónica) Quid-Pro-Quo: é convidado – logo dá prenda; Ou se dizes algo do género “Ele gosta de dinossauros…” então lá vem uma avalanche de dinossauros… Não há fórmula certa…

E como os nossos dois filhos mais velhos têm aniversário logo a seguir ao Natal, esta é uma época de forte pressão mental, em que basta ouvir mais uma vez “O que é que ele quer?” para me tornar irracional e emocional… e é nessas alturas que uma caixinha já não me parecia nada mal… (menti, ainda forcei aqui mais umas quantas rimas)

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal (e aqui mais uma involuntária): 32

Nas notícias por aqui: Na primeira página do Suddeutsche Zeitung está uma foto dos protestos em Charlotte depois da policia ter morto um homem em frente às camaras.

Sabia que por cá: Ainda faz cá um calor bestial… o que não é normal… (mais duas)

Um número surpreendente: 6 – o número de elementos da tabela periódica descobertos na cidade onde moro, Darmstadt: bohrium, meitnerium, hassium, darmstadtium, roentgenium e copernicum

Bruno Sousa

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA Bruno é pai de três pirralhos, engenheiro aeroespacial chefe de operações de uma constelação de quatro satélites científicos (Cluster) da Agência Espacial Europeia ( as opiniões nas crónicas são só dele, e não da Agência) e nos tempos livres é autor e encenador com peças exibidas em Darmstadt, Den Haag, Antuérpia, Londres e Hamburgo.