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Nós lá fora

José Augusto Pinto

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SÃO PETERSBURGO, RÚSSIA Em grande parte do ambiente de negócios russo, especialmente aquele controlado por pessoas que viveram os anos 90, encontra-se muito este tipo de raciocínio – medo de ser enganado, recusa a partilhar o sucesso, desconfiança de tudo e de todos.

Porque será que temos sempre a impressão que os artistas são boas pessoas?

Afinal, quem traz tanta beleza para o mundo deve ser igualmente belo por dentro, correto?

Dito doutra maneira, parece difícil que alguém possa possuir inspiração para as boas criações e não para as boas acções.

E no entanto a realidade é bem diferente. Sabe-se que Michelangelo era extremamente conflituoso e invejoso, Beethoven era intratável e Picasso tinha hábitos pessoais extremamente peculiares.

E claro, a Rússia não é excepção. É sabido que Tolstoy era de difícil trato e que cultivou um conflito amargo e público com o canonizado João de Kronshtadt, monge de intocável reputação.

Ouvi há dias uma história interessante que confirma outra que já tinha ouvido, e ambas envolvem arte, particularmente música.

Há uma rádio em São Petersburgo, que também é ouvida online em Moscovo, que é a minha fiel companheira de todos os dias ao volante, e que só raramente cede o lugar a outra estação qualquer. Apresenta uma mistura saudável de jazz, swing, blues e outros géneros aproximados.

Do ponto de vista de audiências, esta estação reúne talvez os consumidores mais sofisticados de São Petersburgo e de Moscovo, o que a torna extremamente apetecível para os anunciantes. Segundo as leis do marketing, a programação desta estação estaria repleta de publicidade; todavia não é o caso.

Aliás, a estação vende muito pouca publicidade. Mas porque será?

A verdade é sempre mais estranha que a ficção, e este caso não desilude.

O proprietário da estação de rádio é uma senhora de posses, e a rádio funciona em duas humildes salas algures com um staff mínimo de três almas.

Mais publicidade traria mais rendimentos, o que permitiria melhores condições de funcionamento, só que...

Só que a referida senhora teve um desaguisado uma vez com um comercial da estação, responsável pela angariação de anunciantes (e que se responsabilizou entretanto de moto próprio pela retenção de uma pequena comissão dessas vendas, algo a que não estava autorizado), e desde então ela recusa-se a contratar seja quem for para a mesma função.

Ou seja, a ideia que alguém possa trazer benefícios à estação e eventualmente ficar com uma pequena comissão é-lhe insuportável. Prefere não ganhar mais dinheiro a ter que partilhar uma ínfima parte do sucesso. Isto vindo de uma pessoa com excelente gosto musical e que presta um grande serviço à arte.

Esta história confirma uma outra de um amigo meu, que empresta um pouco de cor enquanto natural dos Camarões à brancura gelada de São Petersburgo. Como gerente de um bar, disse-me uma vez que o proprietário se recusa a permitir que terceiros organizem eventos no seu bar a troco de uma comissão sobre as entradas.

Prefere este indivíduo não ganhar mais do que permitir que alguém ganhe também.

Em grande parte do ambiente de negócios russo, especialmente aquele controlado por pessoas que viveram os anos 90 encontra-se muito este tipo de raciocínio – medo de ser enganado, recusa a partilhar o sucesso, desconfiança de tudo e de todos.

Talvez venha daí a profunda religiosidade ainda encontrada na Rússia, cristalizada no famoso ditado local “Tudo o que Deus faz é pelo melhor”.

Aparentemente só mesmo Nele é que se pode confiar, até porque os seus representantes terrenos não esperam Dele o suficiente para o seu sustento e dedicam-se em paralelo à exploração de centros de escritórios e comercialização de tabaco.

Nunca fiando...

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 35

Nas notícias por aqui: Um coronel da Procuradoria da Rússia foi preso na sequência da descoberta de dinheiro que tinha escondido em casa da irmã. A quantia? 120 milhões de dólares (repito: em dinheiro vivo). O peso do dinheiro era superior a uma tonelada, o que fez quebrar o eixo da carrinha no qual o dinheiro foi confiscado. Tinha também 300 milhões de dólares numa conta na Suíça.

Sabia que por cá…a palavra para denotar o estado de casada da mulher é "zamuzhem", o que significa literalmente "atrás do homem". A expressão denota o simbolismo do homem enquanto protector.

Um número surpreendente: a cidade de São Petersburgo conta com um total de 342 pontes sobre o rio Neva e os seus canais.

José Augusto Pinto

José Augusto Pinto

SÃO PETERSBURGO, RÚSSIA José Pinto, 41 anos, casado, 2 filhos, a residir em São Petersburgo desde 2013 com a família. Publicitário de profissão, já viveu no Cazaquistão, Alemanha e Reino Unido. Apaixonado por marcas e um crente indefetível na liberdade individual, economia de mercado e liberalismo, procura nos seus diferentes destinos ver as coisas como elas são, sem complexos de civilizador ou expatriado, procurando em tudo uma centelha de verdade e ironia. Sofre de alopécia.