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Manual do Emigrante para o Outono de 2016

Nós lá fora

Vasco Pinhol

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AALESUND, NORUEGA Lembrei-me de escrever aqui um pequeno Manual do Emigrante, para sua identificação e catalogação, nesta Europa do século XXI

Os passarinhos pipilam, os cães passeiam de cabeça baixa e língua de fora e as árvores estão confusas, sem saber se verdejar, se amarelar. Ainda se ouvem mosquitos ao final do dia – há minutos um levantou voo tão cheio que acho que o ouvi arrotar. Deviam estar 12 graus e estão 21 – é o aquecimento global, versão Outono 2016, na Noruega.

Com o Outono os dias encurtam e manter um estado basal de vigília requer mais café. O cabelo cresce menos, mas a tendência para a introspecção aumenta.

As memórias do Verão – esse estado de ininterrupto turismo mental – ainda têm cheiro. No Verão é-se turista por estado d’alma, o que pode não ser muito cool mas é relaxante e compensador de forma simples e linear. Este Verão exerci o meu turismo de automóvel pela Europa fora, e acabei por arrumar o carro no melhor destino turístico do planeta: à porta da minha casa em Portugal. Que bom que é o nosso país. Tão bom, que não consigo evitar a perplexidade com que oiço os queixumes socio-existenciais dos meus concidadãos.

A garagem deste emigrante

A garagem deste emigrante

De volta à realidade nórdica e recauchutado de turista para emigrante, lembrei-me de escrever aqui um pequeno Manual do Emigrante, para sua identificação e catalogação, nesta Europa do século XXI:

- O emigrante é uma fonte de pequenas e constantes irritações sociais.

- O emigrante está a ocupar um emprego que os nativos não querem mas acham que precisam.

- O emigrante não consegue abrir a boca sem pôr um pé lá dentro.

- O emigrante não faz ideia de nada e vive de uma forma estranhamente desprovida de referências.

- O emigrante come comidas estranhas e cheira a alho ou a especiarias que não crescem endemicamente no país de adopção.

- O emigrante tem sempre um ar um bocadinho perdido e nunca dá para perceber se está perdido mesmo, ou se é mesmo assim.

- O emigrante festeja datas estranhas, por vezes de formas alarmantes.

- O emigrante tem hábitos de condução estranhamente diferentes dos do país de adopção.

- O emigrante irrita-se com coisas estranhas.

- O emigrante costuma andar vestido de uma forma alegremente dissociada da realidade meteorológica do país de adopção.

- O emigrante, quando está muito aborrecido com alguma coisa, diz palavras ininteligíveis.

- O emigrante, quando está muito contente com alguma coisa, diz palavras ininteligíveis.

- O emigrante enche o carrinho do supermercado com coisas estranhas. Quando as coisas não são estranhas, as suas proporções quantitativas, são.

- O emigrante apresenta semblantes sérios em momentos incongruentes e sorri em momentos ainda mais estranhos.

- Os filhos do emigrante são mais espertos e mais giros que os dos nativos.

- O emigrante tem um nariz diferente do dos nativos.

- O emigrante sabe nadar em mares agitados.

- O emigrante reinventa a gramática de forma fonética.

- O emigrante aparece por vezes com coisas muito giras, que os nativos gostariam imenso de ter mas não sabem como.

- Os familiares do emigrante – que por vezes o visitam no Natal ou Fim de Ano – são ainda mais estranhos que o emigrante, e sorriem de forma profusa e incongruente.

- A casa do emigrante tem músicas estranhas.

- O emigrante esquece-se por vezes de onde está.

- A garagem do emigrante está sempre mais arrumada, ou mais desarrumada, que a dos nativos.

- O emigrante às vezes vai para a rua a horas a que toda a gente está em casa, mas volta.

- O emigrante raramente trata do jardim.

Em suma, o emigrante é uma pessoa como nós, mas à qual foram retiradas quase todas as possibilidades de ser como nós. O emigrante nunca percebe a língua do país de adopção como devia. Vive sem que lhe seja concedida a graça de perceber aquilo que é o sal e o açúcar de todas as línguas: acompanhar o que passa nas entrelinhas do que falamos ou nos interstícios do que escrevemos. É uma pessoa perpetuamente votada ao ostracismo da incompreensão, que não pesca as idiossincrasias da cultura em que vive, e que perde - dia a dia, mês a mês, ano a ano – o contacto dinâmico com as idiossincrasias da sua cultura original. Isto é um bocadinho triste, mas o emigrante não é um triste, é um forte. É feliz apesar disto tudo e, por vezes, por causa disto tudo. Quando vir um emigrante, trate-o bem. Porque se é verdade que todos temos um tio na aldeia, também o será que todos temos um emigrante no nosso ADN.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal – 61 dias

Nas notícias por aqui: As autoridades norueguesas planeiam autorizar a caça de 47 dos 68 lobos que vivem no país. A reacção tanto nacional como internacional é de repulsa e é ponto assente que a medida, a avançar, irá afectar a imagem da Noruega a nível internacional

Sabia que por cá… A ascendência viking norueguesa tende para uma cultura em que tudo é ponderado na vertente “consumo humano”:

Um número surpreendente : Número de armas de fogo per capita, na Noruega, é 31.3. (nos EUA é 88,1 e no Yemen é 54,3)

Vasco Pinhol

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA Vasco Pinhol nasceu em 1962 e começou a fotografar em 1970. É um insatisfeito e, embora alvo de cuidada educação, tem vindo a diluí-la – ou destilá-la, conforme a perspetiva – nas suas viagens. Nalguns sítios que visitou, foi ficando. É momentaneamente este o caso, na Noruega. Sendo que tem sempre o mar à janela do que está a pensar, viver com o mar realmente à janela alterou de forma indelével os seus maneirismos. Já foi português, e gostava de voltar a ser. Tem o trato de um pescador, embora as mãos mais cuidadas. Tem os olhos queimados pelo sol. Tem dois filhos. É feliz de uma forma calma.