Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Jaldi Karo, Dada!

Nós lá fora

Mariana Delgado

  • 333

CALCUTÁ, ÍNDIA As viagens ao centro são fundamentais para gerir a vida na Índia. É um lugar onde o tempo voa e onde as memórias ficam para sempre

A primeira expressão que aprendi em hindi foi Jaldi Karo.

Jaldi Karo significa “vamos, rápido” e vem normalmente seguida pela palavra dada, que significa “irmão” ou “pessoa a quem devemos respeito”.

Ainda hoje esta é a expressão que mais uso quando vou de táxi de uma ponta à outra da cidade, sempre com horários apertados e a tentar chegar a horas, furando o mais rapidamente possível pelo meio do trânsito caótico de tuk-tuks, motas, carros, táxis, autocarros, camiões, auto-rickshaws, carros de transportes variados que podem ter desde frutas e vegetais até roupa e sapatos para venda, e pessoas a pé, que vão vivendo o dia-a-dia no meio desta imensa confusão.

No meu segundo mês na Índia decidi mudar de casa para mais longe do centro da cidade. A zona, chamada New Town, é a parte mais nova de Calcutá e é muito diferente do centro de Camac Street, onde fiquei nas primeiras semanas.

Esta zona é moderna, recente e (quase) respirável, porque, mesmo assim, ainda estamos na Índia. Chama-se New Town por ainda estar em crescimento, ficando perto de uma das fronteiras da cidade que continua em expansão. Aqui, localizam-se não só os maiores condomínios de habitação e as grandes empresas de tecnologia, como também várias universidades, recentes hospitais, shoppings e hotéis. É a zona próxima ao aeroporto, pelo que recebe muitos visitantes de negócios, que vêm de outras partes da Índia para reuniões e acabam por marcar hotel aqui. Tem árvores, jardins, passeios, contentores do lixo (alguns!) e é uma zona mais familiar, apesar de durante o dia,atrair muita gente que vem trabalhar nas grandes empresas.

Calcutá conseguiu o que nunca vi em nenhuma outra cidade: juntar no mesmo local as empresas e os bairros familiares, o que acaba por resultar num aglomerado de todas as pessoas que querem fugir do centro caótico, confuso, brulhento e poluído, mas, na minha opinião, mais envolvente e interessante.

Aqui tambem há street food, também há autocarros apinhados de gente, também há tuk-tuks e filas de trânsito e os carros também apitam continuamente. Mas a qualidade de vida acaba por ser diferente. Quando mudei de empresa, também a localização do escritório se tornou mais acessível, vivendo deste lado da cidade.

No entanto, o centro de Calcutá é o centro de Calcutá e é lá que tudo acontece!

Vou de táxi ou de mota pelo menos duas a três vezes por semana até ao coração da cidade. Para jantar, encontrar amigos, reuniões, cinema, compras, tudo se movimenta e existe nesta zona, com uma vida muito mais incrível, quando comparada com o pacato condomínio onde agora moro.

A viagem de táxi desde a minha casa até ao centro demora cerca de 40 minutos, incluído o tempo perdido no trânsito, e custa cerca de 250 rupias, que são aproximadamente três euros (menos do que o taxímetro mínimo em Portugal).

Nem todos os que moram deste lado gostam da viagem. Os condutores de táxis nunca escolhem o mesmo caminho, e podem passar pelos sítios mais estranhos até chegarem onde queremos, como por exemplo, ou por baixo de uma obra em construção (já me aconteceu!). Claro que dizemos sempre que sim, porque temos pressa. E também porque são 40 minutos de carro para ir a locais que também existem a dez minutos, na área de New Town.

Para mim, as viagens ao centro são fundamentais para gerir a vida na Índia. Gosto do movimento, das pessoas a atravessarem as estradas em aglomerados enormes, os carros a apitar e as luzes azuis dos viadutos que cobrem praticamente toda a cidade e que são uma excelente maneira de fugir do trânsito caótico.

O centro de Calcutá consegue proporcionar uma rotina interessante, longe de ser aborrecida. É um lugar onde o tempo voa e onde as memórias ficam para sempre. Quase misterioso, com as luzes amareladas a surgir entre as árvores nas grandes avenidas cheias de tudo e mais alguma coisa, onde a qualquer esquina pode espreitar um templo, quando menos esperamos.

Toda a cultura acontece ali, onde muitos não dormem durante a noite mas descansam à tarde, pela hora do calor, alguns encostados ao alcatrão quente. Nos cafés, restaurantes e lojas, há sempre filas e pessoas a entrar e a sair. Nos passeios, há o hábito de beber o chai quente, mesmo durante o mais rigoroso e escaldante dia de verão.

Os cheiros, tão intensos, mudam de dois em dois segundos do melhor para o pior, do picante para o perfume, da comida para os escapes automóveis. E há sempre uma mistura de cores: os amarelos das luzes e dos táxis, o preto e castanho das estradas, os azuis dos viadutos, os verdes das árvores que rompem em todas as ruas e o vermelho do comércio e da publicidade, chamando toda a gente a entrar, mesmo que já não haja espaço para mais ninguém.

Calcutá também não dorme, como tantas outras metrópoles. Com os mercados a funcionarem 24 horas, os restaurantes de rua, os taxistas que dormem dentro dos carros, com as pernas penduradas para o lado de fora da janela, as ruas tortas e com altos e baixos, algumas delas partidas, que me obrigam a ir por outros caminhos que por vezes não conheço, the city of joy chega a parecer perigosa, mas recebe-te de uma maneira confortável e familiar.

E agora perguntam, o que me faz dizer “Jaldi Karo” ao Dada que conduz o táxi? É que há sempre uma grande pressa de chegar ao centro, onde nos fica sempre a sensação de que não estamos a perder nada, mas sim a ganhar tudo, só por estar ali!

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 101 dias

Nas notícias por aqui: Extremistas atacaram uma brigada do exército localizada na região de Kashmir (norte da India) matando, pelo menos, 17 soldados e ferindo 18. As notícias confirmam a morte dos quatro atacantes suicida que irromperam pela base militar.

Sabia que por cá… A Índia e o único país onde o BIG MAC é feito de forma diferente, sendo servido com frango em vez de carne de vaca, porque a maioria da população não come carne bovina. A vaca é considerado o animal sagrado no hinduísmo.

Um número surpreendente: um copo de chai indiano custa 10 rupias o que equivale a 13 cêntimos.

Mariana Delgado

Mariana Delgado

CALCUTÁ, ÍNDIA Chamo-me Mariana Delgado, nasci e cresci em Riachos e lá vivi até aos 18 anos. Tenho 25 e estou a viver em Calcutá, uma cidade do estado de Bengala Ocidental, na Índia. Estudei Ciências da Comunicação em Lisboa e estou neste momento a completar o mestrado em Gestão e Administração de Negócios, numa universidade Indiana. Neste momento trabalho como gestora de comunicação. Já morei e trabalhei em Portugal, Itália, Inglaterra e Bélgica, mas foi a Índia que mais me atraiu e devido a isso por cá fiquei. Adoro viajar e explorar o mundo!