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Gomi bear: o lixo de sete cabeças

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NAGOYA, JAPÃO Há uma "cultura de reciclagem" na sociedade japonesa. Desde pequenos aprendem que o lixo é da responsabilidade de cada cidadão que se encarrega de o separar em inúmeras categorias e de o despejar nos locais certos à hora certa

Quando aterrarem no Japão preparem-se para andar quilómetros com o lixo nos bolsos à procura do contentor mais próximo. É que aqui não se encontram caixotes nas ruas nem nos espaços comerciais.

O Japão é um dos países que mais recicla lixo no mundo e é por isso um exemplo. Com 128 milhões de habitantes, no ano de 2007 o país reciclava 80% do lixo produzido. A partir dessa data iniciou-se uma campanha em todo o país intitulada gomi zero (lixo zero) com o objectivo de reduzir ainda mais o lixo doméstico e industrial.

Há uma "cultura de reciclagem" na sociedade japonesa. Desde pequenos aprendem que o lixo é da responsabilidade de cada cidadão que se encarrega de o separar em inúmeras categorias e de o despejar nos locais certos à hora certa.

A única maneira de aprender a separá-lo é seguindo um manual de regras que nos é entregue pela câmara municipal e que difere consoante a morada. O plástico, por exemplo, exige maior minúcia pois tem que ser dividido nas seguintes categorias: embalagens de detergentes; garrafas; tampas; caixas; bolsas; copos e outros recipientes; talheres e pratos (o PET é à parte).

Tudo tem de ser lavado e depois colocado em sacos transparentes (com símbolos de cor vermelha, verde e azul), comprados no supermercado, para serem recolhidos uma vez por semana.

Na maioria das cidades o lixo deve ser levado aos locais determinados para a recolha que variam consoante a zona de residência e tipo de habitação. No caso dos apartamentos a entrega e recolha são feitas no condomínio numa zona comum mas nas moradias deixam-se os sacos na frente da casa à beira da estrada.

Sim, é quase preciso tirar um curso!

A experiência mais cómica que tive foi quando, ainda pouco familiarizada com a divisão do lixo, fui deixar os sacos para recolherem. Levava um com latas, outro com garrafas, outro com lixo orgânico. O cesto onde se despejam as latas já estava vazio e, ainda a pensar no que é que fazia, aproxima-se uma senhora velhinha e começa a falar, a falar e a falar comigo como se eu percebesse tudo. Eu assentia com a cabeça e sorria ao mesmo tempo que lhe dizia wakarimasen (em português grosso: "não entendo nada"!). Ao dizer isto a senhora repetia tudo muito devagar e às tantas, tal não devia ser a minha cara perdida, agarra-me em dois sacos, despeja-os e deixa-me com o saco das latas, fazendo sinal com as mãos em cruz que é como quem diz "leva mas é isso para casa e volta p'rá semana". E acatadamente lá fui.

O mais curioso disto tudo é que os japoneses não se privam de gastar embalagens, embrulhos ou sacos. Se for a uma padaria e trouxer três variedades de pão eles colocam cada pão num saco e depois dão-nos um saco para os sacos. Quase todas as embalagens de bolachas contêm saquetas individuais e nas caixas de pagamento do supermercado as senhoras, que parecem saídas de um doutoramento em arrumação de compras, individualizam cada embalagem de frescos ou detergentes. Nesta área das compras há pormenores deliciosos como o facto dos carrinhos de compras serem pequeninos e comportarem um ou dois cestos à medida. Os sacos que trazemos de casa para transportar as compras encaixam nesses cestos e, na maioria das vezes, é na caixa de pagamento que é montado o “puzzle” da arrumação. À saída de cada caixa temos também à nossa disposição uma mesa de apoio com sacos de plástico, cordel e caixotes para acomodarmos as compras ao nosso jeito ou para nos livrarmos de embalagens que não queremos levar para casa.

Na verdade, muito se recicla porque muito se desperdiça.

Após dois anos desta consciência ambiental e cívica, posso garantir-vos que a minha pegada ecológica reduziu substancialmente e está no caminho de uma maior qualidade de vida. O lema dos três mosqueteiros "um por todos e todos por um" também aqui se encaixa como uma luva.

VISTO DE FORA

Nas notícias por aqui... De 17 a 22 de setembro decorre em Nara, antiga capital do Japão, a bienal de cinema “Nara International Film Festival” http://nara-iff.jp/en/

Sabia que por cá… quem gere o orçamento da casa é a mulher. Ao fim de cada mês o marido entrega o seu ordenado à mulher, que o gere e depois lhe dá a semanada que bem entende (geralmente dão um valor baixo)

Um número surpreendente: 60.000 é o número de cidadãos japoneses acima dos 100 anos. Do número total de centenários mais de 53.000 são mulheres.

Catarina Oliveira da Costa

Catarina Oliveira da Costa

NAGOYA, JAPÃO Tem 34 anos e vive em Nagoya, no Japão, desde 2014. É designer gráfica e ilustradora freelancer. Começou a trabalhar numa agência de comunicação como designer e mais tarde entrou no mundo editorial, onde trabalhou como designer em várias publicações infantis e femininas. A Cosmopolitan e a Activa são as duas últimas equipas do coração. Casada, é mãe de uma menina com um ano. É apaixonada por desporto, moda, decoração e culinária.