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Estou velha para isto

Nós lá fora

Filipa Araújo

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MACAU Para a comunidade chinesa eu, no início dos meus 29, estava velha. Velha para casar, velha para ter um novo emprego, velha para emigrar, velha para não pensar em comprar uma casa e ter um filho

Comemorou-se, entre o passado dia 15 a 17, o Festival da Lua, também conhecido por Festival do Meio-Outono. Esta data é comemorada no 15º dia do oitavo mês do calendário ocidental, e, por essa razão, não existe uma data fixa.

Tal como o nome indica é um festival de adoração à lua. “Conta a história” – começa por me explicar uma amiga local – “que os antigos chineses perceberam que o movimento da lua estava directamente relacionado com as mudanças das estações do ano e da própria produção agrícola. Por isso mesmo, era preciso agradecer à lua a ajuda nas suas colheitas”. Diz-se que a tradição começou assim. Neste dia as pessoas agradeciam e prestavam os seus agradecimentos à lua, que, por esta altura, se mostra bem redonda e brilhante no céu.

Lanternas, passeios nocturnos e bolo lunar reinam nesta época, o clima é festivo e familiar. Alguns de nós, portugueses, não deixam passar a data em branco e, com sorte, juntamo-nos a amigos chineses.

Sim, “com sorte”. Dos quase três anos de Macau há um conselho – trazido na bagagem – que se tem destacado por corresponder à realidade. Nem sempre é tarefa fácil conseguirmos entrar nas raízes das famílias chinesas. Não pretendo chocar ninguém quando digo que conheço poucos portugueses que tenham entrado em casas de famílias chinesas e vice-versa. São culturas diferentes e isso é evidente no dia-a-dia.

Recordo uma reunião de trabalho antes de entrar no avião. Uma das pessoas presentes – que morou em Macau durante largos anos – alertou-me para esta barreira. “Esforça-te por te entrosares com a comunidade local. Não será fácil, mas tens de tentar, só assim sentirás Macau na sua essência”. Ouvi, gravei e trouxe comigo. Dois anos e alguns meses depois sinto que demorou mais do que poderia demorar num país europeu, mas não estou no mau caminho. Parece-me que sem esta convivência a passagem por um local culturalmente tão diferente não será vivida a 100%, nem a 30%.

As diferenças tornam esta experiência ainda mais alucinante e, por isso, inesquecível.

Um dia estou em casa de uma amiga local que me convidara para jantar com a sua família. A meio do jantar, tão prontamente preparado pela mãe, mas com a ajuda do pai, a tia da minha amiga pergunta: que idade tens? A minha amiga não se esforçou por disfarçar. Ela sabia de onde vinha aquela pergunta e, mais do que isso, sabia qual seria a reação da tia mal ouvisse a minha idade.

- 29. – respondo.

Os olhares fizeram-se notar. A mãe riu-se, o pai ficou sério e a tia engasgada. Vinte e nove.

- Estás velha – ouço como forma de disparo.

É um facto. Para a comunidade chinesa eu, no início dos meus 29, estava velha. Velha para casar, velha para ter um novo emprego, velha para emigrar, velha para não pensar em comprar uma casa e ter um filho.

- Tens o teu marido em Portugal? – insistiu aquela tia que só me parecia malvada.

Fui salva pela minha amiga – casada aos 23 anos – que deu por fim ao questionário.

- Ela é portuguesa. Eles casam mais tarde, não pensam como nós – atirou para o centro da mesa.

Confesso que o arroz perdeu o sabor e o chá arrefeceu.

Na hora da despedida, acompanhada pela minha amiga até à paragem do autocarro, sou aconchegada pela sua explicação.

“Não ligues, nós casamos cedo, preocupamo-nos com o casamento e os filhos. Quanto mais cedo melhor. Para nós 29 já é tarde. Mas nem todos os chineses pensam assim. Eu não penso. Tu não és velha”, apaziguava.

Isto poderia ser um drama caso não fosse tão divertido. Guardar na bagagem choques culturais como este – simples ou mais intensos - fazem-nos nunca mais esquecer a terra que nos recebeu. Um dia, durante um jantar em família, olharei em redor e sorrirei para o meu marido.

- Porque sorris?

- Ficaste com a velha.

(Nessa noite, ao chegar a casa recebi uma mensagem da minha amiga: “Apanhaste o autocarro certo? A minha tia pediu para dizer que tem um primo para ti.”)

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: Trinta e um (31)

Nas notícias por aqui: A semana passada Portugal e Macau estiveram mais unidos. Chui Sai On, Chefe do Executivo, visitou o nosso país encontrando-se com Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Numa passagem curta e muito rápida os nossos líderes debruçaram-se sobre o ensino da Língua Portuguesa na RAEM. Chui Sai On garante o empenho de Macau no ensino e aposta da língua de Camões, uma das duas línguas oficiais do território.

Sabia que por cá… os cartões de visita/business cards são entregues num movimento de vénia e com as duas mãos a segurar o cartão. Em forma de educação, quem recebe deve fazer o mesmo.

Um número surpreendente: Aproxima-se a Semana Dourada, altura de feriados e folgas em que as famílias aproveitam para viajar e visitar familiares. Durante o ano passado, em apenas seis dias, Macau recebeu mais de um milhão de turistas.

Filipa Araújo

Filipa Araújo

MACAU, MACAU Apaixonada por letras, pessoas e lugares, não se lembra de querer ser outra coisa senão jornalista. Antes sequer de partir já tem a mochila às costas. Esteve em jornalismo de agência e em assessoria em Portugal, mas não hesitou quando a convidaram para voar até a Macau. Ir é o seu verbo favorito. Escrever, uma paixão. Gosta de rir e observar tudo à sua volta. Diz que o amor é o que a faz viver. Não disfarça quando algo não lhe agrada e levanta o sobrolho quando dá opiniões. Adora sushi, mas era incapaz de deixar de comer carne.