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Ui, que susto!

Nós lá fora

Mariana Palavra

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YANGON, MYANMAR Enquanto o mundo aplaudia o novo Myanmar, os conflitos com os grupos que não assinaram o acordo subiam de tom e de nível, num escalar de violência que já não se via desde 2011, altura em que a guerra reacendeu depois de anos de tréguas frágeis

Ui, que susto! Os raios de luz de um camião atravessaram a minha passagem pelas brasas, já debilitada pelos ossos incomodados no banco de trás do carro em segunda mão. Tenho ideia que estava a sonhar com a minha primeira visita ao Myanmar, em 2006. Faz precisamente 10 anos, mais coisa menos coisa.

Nem acordada, a memória, meu ponto fraco, me ajuda a recordar todos aqueles 15 dias, talvez menos, que passei com a [Catarina] Canelas. Tenho flashes de estarmos encharcadas à janela do comboio depois de balões de água atirados das margens das linhas terem atingido em cheio os alvos; lembro-me do pôr-do-sol e do calor no corpo no topo de uns templos e de metermos conversas malandras com uns jovens monges; lembro-me de um lago e de uma velhinha puxar a minha t-shirt (ou seria a da Canelas?) para baixo, para tapar a pele do ventre que espreitava (ou foram antes uns calções relativamente curtos para a cultura local?). Recordo-me de querer muito mas ser aconselhada a não passar pela casa da Prémio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, na altura em prisão domiciliária. Lembro-me de comer no tapete da casa de uma família do lago a quem prometemos enviar as fotos (chegámos a enviar, Catarina?); guardei ainda na memória um jovem viúvo que nos passeou na sua velha charrete algures num sítio poeirento, que confidenciou histórias clandestinas da oposição e que só comeu um décimo da refeição que com ele partilhámos para não habituar o estômago a tal fartura, evitando assim dar-lhe mimos que não podia sustentar.

É curioso, não me lembro de passar por aquela ponte onde tirei a foto que agora ampliei 100 vezes e que cobre parte da parede lá de casa, com quatro meninos que, por esta altura, já devem ser monges budistas. Mas a foto não me deixa mentir. Também não sei se na altura, impaciente por papar léguas, soube que este foi, era (e continua a ser) um país que vive em conflito. Com quase 70 anos, os media, nós todos, repetimos que é o conflito civil mais longo do mundo. Interrogo-me se alguém foi verificar se o slogan corresponde à verdade. Fica a sugestão para quem tiver vagar. Em benefício próprio, mais vale dizer que muito provavelmente eu sabia que visitava um país com guerra, mas a memória, cada vez mais preguiçosa, apagou.

Nesta noite chuvosa, estou a percorrer os 270 Kms que separam Yangon de Hpa-An, capital do estado de Kayin (ou Karen), no sudeste de Myanmar. Isto é coisa para demorar pelo menos seis horas. Tento a todo o custo manter os olhos abertos para complementar a tarefa do condutor Mohamed que circula pelo lado direito da estrada com um volante colocado no lado direito (sim, é um sistema complicado), como acontece com 90% dos carros de Myanmar, fazendo das ultrapassagens um exercício de tentativa e erro.

Uma viagem nocturna no mesmo fim-de-semana que dois dos grupos étnicos armados do estado de Kayin e de Mon (ambos no sudeste) tiveram uma insólita escaramuça. A ordem está baralhada, uma vez que o conflito em Myanmar, ou conflitos, opõe as Forças Armadas do país a 15 diferentes grupos étnicos, cada um deles com zonas de controlo e interesses diferentes (embora passe muito por maior autonomia e/ou controlo de recursos naturais e outras razões mais obscuras). Já não é a primeira vez que o Tatmadaw, apelido das forças militares, assiste sereno a disputas entre os seus inimigos, os diferentes grupos étnicos que por vezes se musculam nas fronteiras dos respectivos territórios. Uma das últimas vezes que isto tinha acontecido foi na recta final de 2015, na mesma ocasião em que um acordo de paz foi assinado (mais um, o 36° desde 1989) com oito dos 15 grupos étnicos armados.

Enquanto os olhos do mundo estavam entretidos com as primeiras eleições livres e democráticas em Myanmar desde 1990, e viam o partido da prémio Nobel da Paz a conquistar as intenções de voto; enquanto o mundo aplaudia o novo Myanmar, os conflitos com os grupos que não assinaram o acordo subiam de tom e de nível, num escalar de violência que já não se via desde 2011, altura em que a guerra reacendeu depois de anos de tréguas frágeis.

Estes últimos meses foram fazendo mais vítimas silenciosas. Mai (nome incompleto) é uma delas. Recentemente passou também a fazer parte das cerca de 100 000 pessoas a viver desde 2011 em campos de deslocados no norte do país, onde estão agora concentrados a maioria dos esforços (estragos) de guerra. A adolescente de 16 anos foi arrastada à força da aldeia natal pela guerra que se alastrou no último ano. Fugiu com a mãe, irmã, prima e com as roupas que tinha no corpo. Um mês depois, pôde regressar por escassas horas a casa e recuperar à pressa o que ainda restava de uma curta vida. Os seus animais esperavam-na no mesmo local de sempre, mas os soldados ditaram as regras e arrancaram-lhe dos braços o cão de estimação. Mai voltou ao campo de deslocados com lágrimas, um gato e uma boneca, prenda do pai desaparecido nos últimos meses.

Há precisamente duas semanas, Aung San Suu Kyi convocou a Conferência de Panglong do Século XXI, numa referência à conferência de 1947 dirigida pelo seu pai, Aung San, e que marcou a independência da até aí colónia britânica. Vários grupos étnicos participaram nesta reedição, inclusive grupos que não assinaram o acordo de paz de Outubro passado. A ocasião teve direito à visita do Secretario geral das Nações Unidas, e a alguns mal-entendidos, com um dos grupos étnicos, precisamente o maior, a abandonar as conversações e regressar mais cedo ao palco de guerra, na zona norte, junto à fronteira com a China. A continuação de Panglong está marcada para daqui a seis meses.

Ui, que susto! As buzinadelas desesperadas de um camião velocista, tentando bater o recorde de ultrapassagem mal calculada, despertam-me à força do sono embalado pela viagem nocturna para o sudeste do país. Os faróis esbugalhados bem na frente do nosso Toyota de carcaça fraca quase que levaram de vez a fraca memória destas e doutras viagens. Já não me lembro, mas diria que estava a sonhar com as histórias dos conflitos de Myanmar que afectam, directa ou indirectamente, quase nove milhões de pessoas, num país de 51 milhões. REPITO, NOVE MILHÕES (um nove seguido de seis zeros) de PESSOAS.

*A pequena Mai vai ficar por agora sem rosto e sem nome completo, para não colocar em perigo a identidade do pai, guerrilheiro de um grupo étnico. Filha de rebelde e neta de comandante do exército, Mai não quer saber das razões da guerra, nem se atreve a pensar se o pai estará morto ou vivo. Por agora, quer estudar para ser enfermeira, um gosto ganho à força quando viu a melhor amiga ser atingida por uma bala na sala de aula. O campo tirou-lhe privacidade mas deu-lhe algo que nunca teve: aulas de piano. Enquanto vai dedilhando as teclas, sonha acordada em voltar para casa, e torce pela paz e pela reconciliação nacional.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 15 dias

Nas notícias por aqui: As Forças Armadas reconhecem que continuam a utilizar minas terrestres, “nos limites do razoável”; os grupos armados de Kayin e Mon chegaram a um acordo para pôr um fim às escaramuças; mais 3000 pessoas tiveram de fugir da sua aldeia devido a um novo foco de conflito no estado de Kayin.

Sabia que por cá… Os carros circulam pela direita mas a esmagadora maioria dos carros tem o volante do lado direito. A ex-colónia britânica circulava pela esquerda até 1970, altura em que o General Ne Win decidiu trocar o sentido da circulação (por razões excêntricas, dizem). No entanto, a maioria dos carros são importados em segunda mão do Japão, logo o volante é do lado direito, criando um caso único na história da circulação rodoviária.

Um número surpreendente: Myanmar reconhece 118 línguas e 135 grupos grupos étnicos.

Mariana Palavra

Mariana Palavra

YANGON, MYANMAR Nasceu em 1978 junto ao mar, em Ovar. Cedo sonhou ser estrangeira. Migrou primeiro para Coimbra para estudar jornalismo. Depois de uma passagem tímida pela RTP, SIC e Correio da Manhã, aterrou em Macau em 2002 para ser jornalista na televisão local. Do Oriente para as Caraíbas em 2009. Um ano na rádio da ONU no Haiti (e um terramoto) depois, trocou o jornalismo pela UNICEF. Desde então já passou pelo Nepal (e por mais um terremoto) e vive agora em Myanmar.