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A culpa é do Cesariny

Nós lá fora

Inês Faro

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MONTREAL, CANADÁ Nem sempre é fácil falar com o nível de português que gostaríamos. Tentar que os nossos filhos ouçam, falem e leiam em língua portuguesa é tão importante como comer legumes todos os dias

Como pais emigrados e a educar os filhos numa cidade bilingue, temos a preocupação de arranjar estratégias para que o domínio da língua portuguesa não seja descurado. A Carmo e o Tomás falam francês na escola, na vida social francês e inglês e português é a língua de casa. Mais do que familiar, tem estatuto de língua íntima: foi em português que foram primeiro amados e não há língua nenhuma que se sobreponha a isso. Também é uma língua de código, a língua em que falamos quando queremos dizer alguma coisa que ninguém – ou pelo menos pouca gente, aqui perceba. É ainda o idioma em que, discretamente, são mais corrigidos por nós – as escadas não se “montam” (de monter), sobem-se; o amigo x não é o “mais grande” (plus grand), é o maior; não vamos ir para lado nenhum, vamos só, para encurtar caminho.

Mas nem sempre é fácil falar com o nível de português que gostaríamos. Nem para eles nem para nós. As palavras atraiçoam-nos quando menos esperamos. Já me aconteceu, por exemplo, “introduzir” (to introduce) pessoas em vez de as apresentar. Tentar que os nossos filhos ouçam, falem e leiam em língua portuguesa é tão importante como comer legumes todos os dias. Talvez por isso, desde os quatro anos que a Carmo pede para ser ela a fazer a lista de compras. E percebe-se a alegria que tem enquanto escreve aquelas palavras só nossas. Também o Tomás, que adora conversar, continua a sentir-se muito orgulhoso quando lhe dizem que fala muito bem português.

Para dar o exemplo tentamos falar de forma articulada, pronunciar bem as palavras, usar sinónimos e antónimos quando contamos uma história e cantar ou fazer rimas para ajudar a memorizar as palavras mais difíceis. Também usamos alguns truques, normalmente o humor, para atenuar o sotaque. Essa talvez seja a luta mais difícil para quem estuda e vive noutras duas línguas. O “r” francês às vezes ganha ou, amiúde, uma ou outra sílaba sai com o acento deslocalizado.

Portanto, além de casa, do skype ocasional com os avós e das férias anuais em Portugal, são poucas as circunstâncias em que são expostos ao Português. Fazemos, por isso, um grande investimento em livros e audiolivros na nossa língua materna, tanto para crianças como para adultos. No carro temos sempre uns quantos. As canções da Maria de Vasconcelos, os livros com CD e ilustrações da Planeta Tangerina, CD de contos populares musicados que a avó Catarina vai enviando pelo correio, as “histórias que a mãe conta na rádio” ou ainda algumas gravações caseiras de contos e poesia. Para que também nós possamos manter um nível recomendável da nossa língua, circulam entre a casa e o carro uma coleção de audiolivros da Assírio & Alvim. A poesia de Ruy Belo pela voz de Luís Miguel Cintra é um dos preferidos, entre tantas maravilhas escritas e ditas em português. A cada poema acontece uma redescoberta da língua para os pais, e os filhos ficam com um vocabulário mais rico. Ficamos todos a ganhar.

Por ser uma língua caseira, julgámos que se ia aguentar pura e limpa durante muito tempo. Ainda há uns dias, em Portugal, o João e eu comentávamos como os nossos filhos tinham um vocabulário diversificado e como é que ainda os tínhamos conseguido poupar das palavras mais grosseiras. Falávamos disto quase como sendo um facto heróico e motivo de orgulho relativamente às nossas exímias competências parentais ao nível linguístico.

Também foi neste verão que trouxemos, entre outros, Poemas de Mário Cesariny ditos por Mário Cesariny. Eis que tudo foi por água abaixo, assim, sem mais nem menos. Com o Atlântico pelo meio e apenas com as suas palavras, Cesariny fez a proeza de perturbar – pelo menos durante alguns minutos, a nossa harmonia familiar.

No domingo passado vínhamos da mercearia do bairro. O Xavier ao meu colo espantava-se com o mundo, o João, menos contente, carregava os sacos das compras, o Tomás vinha consolado a tirar as peles das suas “cerises de terre” – Fisális, e esta foi uma palavra que só entrou para o nosso dicionário depois de já estarmos aqui, e a Carmo, a caminhar de passo domingueiro, comia umas tiras de algas grelhadas quando perguntou:

- O que é que quer dizer puta?

O meu marido abriu os olhos e por pouco não deixou cair os sacos no chão. Eu fiz um ar sério – para não me rir, e admirada. No impasse para dar uma resposta, o João tentou corrigir: Fruta?

- Não, disse a Carmo. Puta.

O Tomás deve ter achado piada à palavra porque a repetiu mais duas vezes. Tentámos dar uma resposta que julgámos adequada para crianças de 6 e 4 anos: a palavra certa era prostituta, e a outra era uma versão feia e fazia parte das palavras que sabemos mas não devemos dizer. A verdade é que os dois toparam o nosso ar surpreendido e tivemos de ouvir a dita palavra ser repetida em diferentes tons e até mesmo soletrada.

Entrámos em casa e passámos a batata quente um para o outro. Eu não me lembrava de ter dito a tal palavra em nenhum contexto recente, por isso a culpa só podia ser do João. Por via das dúvidas e para não haver acusações infundadas, perguntamos-lhe onde tinha ouvido aquela palavra. Respondeu que tinha sido no carro a caminho da piscina quando estávamos a ouvir “aquele poema do São João, daquele senhor que fala assim um português um pouco estranho”. Tínhamos tido a resposta.

- Afinal, disse o meu marido, a culpa é do Cesariny!

Depois descontraímos, convencidos de que estamos a fazer um bom trabalho como pais. E eles cá continuam a crescer, palavra a palavra.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal – 20 dias

Nas notícias por aqui : Depois de ter sido lançada em novembro de 2013, a Uber e o governo do Quebeque chegaram finalmente a um acordo sobre o funcionamento da empresa. O acordo prevê que o projeto-piloto permitirá que a Uber exerça as suas atividades legalmente durante um ano; que a Uber tem de respeitar um teto de 50.000 horas por semana partilhada por todos os seus condutores e que todas as viagens serão taxadas (0,45$ - mas este valor ainda não foi confirmado).

Sabia que por cá… existe um Office québécois de la langue française que tem como objetivos, entre outros, garantir que o francês é a língua utilizada em contexto de trabalho, comunicações, comércio e negócios? Os inspetores deste “office” são conhecidos como os “polícias da língua francesa”.

Um número surpreendente – cerca de 50.000 portugueses e/ou luso-descendentes vivem em Montreal.

Inês Faro

Inês Faro

MONTREAL, CANADÁ É jornalista e vive em Montreal desde setembro de 2008. Veio com o marido e duas malas (uma só com livros em português). Se regressasse hoje a Portugal levaria consigo três filhos luso-canadianos, três longas-metragens documentário: sobre Aristides de Sousa Mendes, os 60 anos da Comunidade Portuguesa de Montreal e os 100 anos do Genocídio Arménio; emissões na rádio (dedicados à cultura portuguesa), na televisão e artigos na imprensa escrita; apoio à Coordenação do Ensino de Português no Canadá em Montreal/Camões I.P.; fluência em francês e inglês, além de uma grande coleção de mergulhos em lagos canadianos. Adora o bairro onde vive, os amigos que são família e a escola dos filhos. Enquanto a vida lhe continuar a correr bem na América do Norte não pensa voltar a viver Portugal. Mas gostaria, um dia, porque tem saudades do mar. Depois de seis anos de psicanálise (em inglês) continua a surpreender-se com o que não sabia de si. Continua a sonhar em português porque foi nessa língua que tudo começou.