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O mês que os angolanos preferiam apagar do calendário

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LUANDA, ANGOLA - Parece cedo, falar de Dezembro? Mas não é. A Europa prepara-se para invadir os supermercados com o Natal. Por cá, preparamo-nos para a quizomba que é o Natal.

Setembro é o grande regresso ao trabalho rumo a Dezembro, o mês que os angolanos dizem que não devia existir. Os angolanos e todos nós que por cá vamos vivendo. O mês complica-se porque é Natal, é calor, é vontade de fechar um ano festejando com a família, os amigos, os conhecidos que a vida permite colecionar, os colegas, as pessoas com quem nos cruzamos, os vizinhos. O mês do Natal com temperaturas acima dos 30º graus, a praia, os longos almoços, as festas de quintal, aquela mais esfarrapada desculpa para um ajuntamento de sorrisos, palavras, alegrias. E conhece-se mais gente e cada um traz um amigo. Dezembro é também um mês em que queremos dar, oferecer presentes, comprar o bacalhau, os pratos típicos, os presentes para as crianças, para os especiais, mesmo em crise. E tudo complica-se, pois num país com 40 anos, que já foi exportador, gerador de riqueza nacional e além-fronteiras, cresce agora a um ritmo alucinante, onde tudo é para ontem, projectos, estruturas, desenvolvimento. Mas as gerações não se acalentam num amadurecimento rápido, precisam de tempo, maturação, absorvência. E para as pessoas, os catalisadores ainda não existem. Não podemos criar gerações desenvolvidas em estádios de saltos quânticos. E falta, perante tanta procura, tanta coisa. Supermercados, mercados, rua, lojas e lojas percorridas. E quando falta, o que há encarece – a simples lei da economia clássica: sobe o preço quando desce a quantidade. Alguns preços, por cá, assustam-me, porque me habituei a ter um supermercado em cada esquina e uma União que vai regulando preços. Mas este país está a crescer há pouco tempo e a Europa já leva uns anos de vantagem . E está calor e com o calor precisamos de ar condicionado e água e tantas outras coisas e estamos em Dezembro.

Parece cedo, falar de Dezembro? Mas não é. A Europa prepara-se para invadir os supermercados com o Natal. Por cá, preparamo-nos para a quizomba que é o Natal. Sim, quizomba, para além da música, é uma palavra que designa festa. E qualquer festa vale a pena quando baixamos os braços com a sensação de termos tentado. Tudo. Tempo, correria, procura, desespero, reinvenção, refazer planos, procurar e procurar. Os ciclos são isto, criar uma rotina dentro de um processo.

E Angola é a personificação desta frase de Milan Kundera. “Existir dentro de si próprio e para as outras pessoas”, é isto. É pensar que emigrar não é só manter um emprego e dinheiro e sustento e família e horizonte de regresso. Emigrar é sairmos de nós próprios, existirmos dentro de nós próprios e para as outras pessoas. E, por cá, as outras pessoas são um povo que quer viver. Somos emigrantes, mas somos a esperança de fazer mais, dar mais, ensinar mais, somos em muito tutores. Há largos anos, lembram-se dos pen friends? Eu tive alguns. Outra cultura, escrevivida em inglês, a curiosidade do que o correio nos trazia com uns selos estrangeiros. Nesta Angola de hoje, sinto-me um tutor, um pen friend de carne e osso. Os colegas, os amigos que tenho nesta terra, ouvem atentamente tudo o que a minha experiência pode narrar e, se lhe juntarmos alguma sensibilidade, posso traduzir essas experiências localmente. Porque nenhuma realidade se repete, nenhuma experiência, a menos que reproduzindo o mesmo contexto, dá os mesmos resultados. E eu faço o mesmo, absorvo o calor e os sorrisos e a vivência que esta terra tem e dá, de braços abertos.

Regresso ao início, ao Setembro que é o grande regresso ao trabalho rumo a Dezembro, mas também o regresso a esta Angola do meu coração. E Matias Damásio, na sua canção Angola País Novo, faz-me sempre lembrar as razões que me mantêm por aqui: uma experiência de vida, traduzida em português, mas tão mais além da nossa cultura.

Angola é tão mais do que os kwanzas que tanto assustam os emigrantes. Da nossa história, retive que uma emigração sem uma existência no outro é um horizonte longínquo e sem linha definida. E com os anos, todos precisamos de raízes, memórias e folhas novas, verdes, com esperança. Trabalhar longe nunca é fácil, mas distanciarmo-nos dos sítios onde trabalhamos torna tudo muito, muito difícil.

Mangowlé não se deixa

não vassila a hora é essa

dá-me a tua mão

para junto comigo bumbar

nossa angola juntos levantar

Angola do meu coração!

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 6

Nas notícias por aqui: as eleições do próximo ano ainda dominam as conversas

Sabia que por cá… o turismo vai ser um dos pilares da economia, porque as belezas deste país imenso são muitas!

Um número surpreendente: 24 milhões de angolanos, é impressionante!

José de Noronha Brandão

José de Noronha Brandão

LUANDA, ANGOLA Faço da citação de Pessoa o meu modo de estar: “a minha pátria é a língua portuguesa”, e junto-lhe mais línguas, o alemão por paixão, o francês por amor e o inglês como segunda pele. As línguas e as culturas são janelas escancaradas que abrimos nas nossas mentes, que nos alargam horizontes, dão-nos novas pátrias, pensares e um limite que se estende até ao céu. Ciências, electrónica, quase licenciado em matemática e eis que as línguas e literaturas levam a melhor, mas sempre com fascínio pela política e pelo Protocolo de Estado.