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Bruno Neto

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FREETOWN, SERRA LEOA O país teria tudo para poder ter uma alimentação saudável, rica e diversa, pois tem uma costa fantástica, acesso a peixe e mariscos fabulosos... tem, no entanto, um grande problema. O uso e abuso da malagueta

Quando se aterra pela primeira vez num novo pais, a sensação é única mal se sai da hermética controlada do avião. É sempre única e é um momento único de contemplação. Depois da precedente teoria das leituras da Wikipedia, sites governamentais, da OMS ou do turismo, esta é a primeira real prova do que está para vir. Os cheiros novos, o peso da intensa humidade, o bafo de calor árido dos desertos, a chuva quente dos trópicos, o frio gélido das montanhas nevadas, o cheiro a enxofre dos vulcões ou mesmo o iodado cheiro a mar, são sensações que se guardam no canto das recordações imensuráveis e dificilmente poderão ser explicáveis. Quando saio então da cápsula do avião pela primeira vez, gosto de fechar os olhos de forma a que a visão não polua as outras sensações, normalmente essa experiência dura dois a três segundos, até ser empurrado pela pressa das massas que correm para os longos e intermináveis procedimentos da imigração. Mas é o suficiente para poder sorrir e sentir o cheiro ao tão desejável novo Shangri-la.

Em Julho de 2015, quando ficou acertada a minha vinda para a Serra Leoa, e apesar de já ter estado em alguns países do Oeste de África, o meu conhecimento sobre esta era mínimo. Creio mesmo só saber que havia Ébola – pelas notícias das desgraças que correm o mundo, mas pouco mais que isso.
Nas primeiras leituras exploratórias, fiquei contente por ler que a Serra Leoa tinha imensas variedades de arroz e que o arroz era um dos principais pratos – adoro arroz! Pensei logo num paraíso na terra por chegar, num quase Shangri-la gastronómico.

Apesar de ter vivido em zonas distintas do mundo, com culturas distintas e constantemente me gabar de me adaptar rapidamente a todos os tipos de comida e quase sempre sem grandes dificuldades, aqui na Serra Leoa essa equação não fica tão fácil.

Uma das formas mais interessantes para conhecer uma cultura é saber o quê, como, onde, porquê e quando se come.. porque aí conseguimos entender os ciclos de produção, a escassez ou abundância dos alimentos, entender a nutrição e mesmo entender as causas e consequências sobre a vida do dia-a-dia. E apesar de já ter comido as mais estranhas comidas, como rato do mato ou gafanhoto da palmeira (que são larvas do tamanho de um dedo indicador mas bem gordo), jibóia, macaco, lagarto, gafanhotos, etc, etc, na Serra Leoa não me consigo adaptar.

A Serra Leoa teria tudo para poder ter um alimentação saudável, rica e diversa, pois tem uma costa fantástica, acesso a peixe e mariscos fabulosos, um clima tropical onde praticamente todo o ano se poderia trabalhar a terra e dar os melhores vegetais... tem, no entanto, um grande problema. O uso e abuso da malagueta.

A pobreza, a agricultura de subsistência, os anos da guerra civil, a não mecanização e haverem muito poucas explorações agro-pecuárias, faz com que a alimentação na África Ocidental seja pouco diversa e muito redundante. A diversidade dos alimentos não abunda e o arroz, a folha da planta da mandioca, o peixe seco (porque o fresco é para os ricos), a carne de cabra (quando há festa) e o óleo de palma são as bases da alimentação. E todos os pratos tradicionais têm uma quantidade extrema de malaguetas. Sabemos que o picante da malagueta faz com que se fique com uma sensação de saciedade, mas o gosto pelo picante faz com que quando cozinho para os meus amigos ou amigas da Serra Leoneses eles digam sempre que a comida não tem sabor nenhum, que não sabe a quase nada.

Enquanto que num restaurante Indiano mesmo quando se pede um prato sem picante, o prato vem sempre com uma boa dose de picante, na Serra Leoa até o arroz branco – que acompanha a cabra, o peixe ou a folha da mandioca – acaba por estar pejado por picante.

Felizmente há bons restaurantes árabes mas também adoro cozinhar. Vou sempre à praia (como na foto) comprar peixe fresco (porque nesta realidade, sou rico), comprar carne de cabra, alguns dos poucos vegetais disponíveis e vou vivendo muito bem com as especiarias (chinesas, indianas, árabes e mediterrânicas que trago de Portugal comigo). Tal como trago sempre na mala os produtos gourmet da qualidade e do coração – algumas garrafas de vinho Casal da Coelheira, muitos queijos de cabra Brejo da Gaia e garrafas de três litros de azeite das nossas oliveiras, tudo de Tramagal, da minha terra. Em vez de roupa ou outros acessórios, as minhas malas são autênticos minimercados de aldeia.

E assim, por um lado mato saudades e por outro não morro com o excesso de picante.

VISTO DE FORA

Quantos dias sem ir a Portugal: 22

Nas notícias por aqui: Apesar de todas as esperanças estarem na qualificação da Serra Leoa para a próxima CAN. A Selecção do país ficou a um golo de se qualificar. Há 20 anos que a Serra Leoa não se qualifica para esta tão importante competição. Ficaremos à espera da próxima.

Sabia que por cá... Ainda existem muitos edifícios Portugueses, mas infelizmente quase todos eles ligados ao tráfico de escravos. A exemplo disso a Prisão de Kenema (a 3ª mais importante cidade do país) era um antigo “depósito” de escravos dos Portugueses.

Um número surpreendente: Um português come em média 17,5 quilos de arroz num ano, mais do dobro do que qualquer outro europeu. Sabe quantos quilos come um habitante da Serra Leoa por ano? Somente 104 quilos.

Bruno Neto

Bruno Neto

FREETOWN, SERRA LEOA Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um coleccionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em quatro continentes, tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade.