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O primeiro dia do resto da tua vida

Nós lá fora

Bruno Sousa

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DARMSTADT, ALEMANHA Início das aulas com emoção. Dei por mim a encher o peito de um orgulho desmesurado em acompanhar o meu puto no meio daquele arraial

Não tem directamente a ver com esta crónica, essa canção do Sérgio Godinho, mas a frase não me saía ontem da cabeça, daí que resolvi logo aproveitar para pôr a ideia no papel, aliás, no computador...

Quero fazer um reparo, para aqueles que esperam encontrar nestas crónicas apenas coisas que no estrangeiro são diferentes de Portugal, desenganem-se. Às vezes as experiências são, na essência semelhantes, mas sempre valem a pena contar para se ver que também lá fora é assim como cá dentro. Aliás depois de 16 anos a viver do lado de fora (13 na Alemanha), na maior parte das coisas, já nem sei como são em Portugal hoje em dia, por isso adiante…

Ontem (30 de Agosto) foi o primeiro dia de escola para o meu filho do meio. Aqui na nossa cidade, uma das escolas (perto de nossa casa) oferece a possibilidade de os meninos de 5 anos começarem a escola mais cedo e fazerem a primeira classe em dois anos. Uma espécie de pré-primária, com mais brincadeira à mistura, mas já a explorar as letras e os números para facilitar o progresso do ano seguinte, onde já é mais a doer. O nosso mais velho já tinha seguido por este sistema, assim que M. também segue as pisadas do irmão.

Quando eu era miúdo, permaneci em casa, com a minha mãe, até aos 3 anos, e depois tive a sorte de frequentar a mesma instituição até aos 13. O regresso anual à escola era o regresso ao familiar, ao pátio, às salas, aos amigos, professores e auxiliares que já conhecia bem. Para os meus filhos não será assim. O normal aqui é, até aos 3 anos, as crianças ficarem com uma ama ou numa creche, e nessa idade transitarem para o novo ambiente do jardim infantil. Aos 6 passam para a escola primária e aos 10 para a escola secundária ou para o Ginásio (existem dois modelos de escola secundária na Alemanha, um mais vocacionado para saídas profissionalizantes e outro para a via académica). Em cada uma destas mudanças, mudam-se os lugares, os ambientes e as pessoas; e para eles é sempre um grande desafio e toda uma nova adaptação.

Talvez isso explique porque, para os alemães, a entrada na escola seja um marco tão importante na vida das crianças. Segundo a tradição cada criança recebe um grande cone enfeitado, cheio de pequenas prendas relacionadas com a escola: utensílios, guloseimas, um ou outro brinquedinho. O cone de M. e os 2 mais pequenos para os irmãos, acabaram por levar 3 noites a ser preparados por nós, com tecido decorativo e cola branca. A mãe deles, nestas coisas, não gosta de comprar já pronto e prefere seguir a tradição à letra, e eu, filho de professora de trabalhos manuais, lá ajudo como posso. O cone, modéstia à parte, ficou fabuloso.

O cone é transportado e exibido na escola como um troféu que se ganhou num qualquer campeonato da vida, e logo aberto em casa para se devorarem, de uma vez, todas as guloseimas. Mas dizia eu, que este dia é um marco importante nas vidas das crianças e tanto assim é que, nalguns casos, vieram famílias inteiras, incluindo avós dos dois lados, tias e outros, todos vestidos a rigor (quem não soubesse creria tratar-se de um casamento). Era ver tanto um como o outro avô, com as suas câmaras, a gravar para a posteridade cada passo daquela menina, qual bonequinha, desfilando pela rua em direcção à escola, enquanto os pais de peito cheio trocavam impressões com as avós babadas.

Confesso que a mim também me afectou a emoção toda e dei por mim também a encher o peito de um orgulho desmesurado em acompanhar o meu puto no meio daquele arraial, e não conseguia apagar o sorriso da cara. Amigos e colegas oferecendo, ao longo do dia, felicitações e parabéns como se se tratasse de um aniversário. O meu filho, esse, também andou numa montanha russa de emoções, de nervoso a excitado, de aterrorizado a concentrado, de divertido a cansado…

Chegados à escola, esperava-nos uma pequena recepção com umas palavras da directora e umas cantigas dos meninos mais velhos a dar as boas vindas aos mais novos. Logo uma chamada separou os meninos nas suas classes e os respectivos professores levaram-nos para conhecer a sala nova. Enquanto isso os pais conviviam uns com os outros comendo bolo e café (tópico para outra crónica). Depois todos voltaram a reunir-se no pátio para, depois de uma contagem decrescente, soltarem balões que levavam cartões com os nomes e endereços dos meninos pelos céus da cidade. A ver se o cartão do M. regressa por correio…

O mais impressionante da cerimónia foi ver como a sala de convívio se encheu de pessoas das mais variadas origens. Foi como se o mundo todo se tivesse condensado em cerca de duas centenas de pessoas que cabiam todas dentro daquela sala. Meninos havia-os, desde claros como a neve a escuros como o chocolate, de todos os tons possíveis, num arco-íris harmonioso e feliz. A escola dos nossos filhos, que é uma escola pública normal situada no centro da cidade, é um caldeirão de culturas. Entre os amigos e colegas deles contamos quase todas as nacionalidades, desde os mais variados pontos da Europa, de Portugal à Turquia, da Noruega aos Balcãs, muitos Asiáticos, principalmente Chineses e Indianos, Africanos do Magrebe aos países Subsarianos, à Etiópia e até à península Árabe, Americanos do Sul principalmente (os anglo-saxónicos tendem a segregar-se), e é claro, refugiados recentes da Síria, Iraque e Afeganistão, e naturalmente, vários Alemães também! A globalização à escala de uma escola. Esta mescla é cada vez mais a norma e faz-me ter esperança que os meus filhos vão crescer já como cidadãos do mundo, algo que na minha geração só se começou a materializar (como demonstra esta secção especial da Visão) na idade adulta.

Para os pais, este dia, marca o começo da longa e árdua caminhada de acompanhamento da escola, as preocupações, os trabalhos de casa, as notas, as queixas, mas também os progressos, as descobertas, os projectos, os êxitos, as festas… Na Alemanha, as escolas e outras instituições regulares de menores (como de acolhimento nos tempos livres), esperam sempre muita colaboração por parte dos pais: várias reuniões de pais, além da participação em associações de pais, da colaboração em organização de eventos, do acompanhamento em visitas de estudo, desenvolvimento de programas de actividades, etc.. A estrutura do sistema de ensino parece assumir que um dos pais está em casa (tipicamente a mãe) e logo disponível para estar presente onde for preciso, quando há muito que as famílias alemãs se vêm convertendo ao duplo assalariamento. Por isso, num casal com 3 filhos, em que ambos trabalham e a família está longe, é preciso muita ginástica para ir a todas, mas tudo bem, sabíamos ao que íamos e não nos queixamos disso.

Hoje, para M. foi já um dia diferente. Depois da turbulência e expectativa do dia anterior, ele hoje acordou já um menino de escola, vestiu-se logo, comeu os cereais à pressa e lavou os dentes, calçou as sandálias, e lá foi, de sorriso nos lábios, galgando de trotineta, junto com o seu irmão mais velho, o caminho da sua escola, no primeiro dia do resto da sua vida.

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Sabia que por cá… é costume deixar-se os sapatos à porta de casa dos amigos quando se chega de visita para não sujar. Daí que se tem cuidado em não usar meias com buracos nesses dias.

Um número surpreendente: 3 – o número de ‘n’ seguidos na palavra 'brennnessel' - resulta da composição de duas palavras ardente (brenn) + urtigas (nessel)

Bruno Sousa

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA Bruno é pai de três pirralhos, engenheiro aeroespacial chefe de operações de uma constelação de quatro satélites científicos (Cluster) da Agência Espacial Europeia ( as opiniões nas crónicas são só dele, e não da Agência) e nos tempos livres é autor e encenador com peças exibidas em Darmstadt, Den Haag, Antuérpia, Londres e Hamburgo.