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“The Haze”… ou uma ganância de cortar a respiração

Nós lá fora

Rita Cruz

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KUALA LUMPUR, MALÁSIA Saiu reforçada a minha convicção de que um dia vamos conseguir dar cabo de tudo; que os filhos pródigos nos hão-de bater à porta e cobrar o ar que respiramos, a água que bebemos, o clima que nos permite viver, até que o que resta valha tão pouco que já não importe grande coisa

Estávamos há apenas três dias na nossa nova casa, quando ele primeiro se fez notar. Era manhã cedo mas a alvorada já tinha chegado a todos os quartos - cortesia do Lucas, o nosso mais pequeno que insiste em não acordar sozinho às seis da manhã. Abri as janelas de par em par, de um lado ao outro da casa, para deixar o ar relativamente fresco da manhã inundar todas as divisões. Dia e noite, as janelas estão permanentemente fechadas, o ar condicionado ligado nos momentos mais quentes, as ventoinhas quase sempre a rodar. Esses preciosos momentos da manhã, em que o ar puro pode entrar livremente pela casa não são de desperdiçar. Notei nesse dia uma névoa, um cinzento baço a cobrir a paisagem, mas não lhe prestei grande atenção. Achei que se tratava de um dia enevoado normal e agradeci até um descanso do sol intenso.

Dias antes, uma das minhas fontes esporádicas de notícias locais - os condutores de Uber - tinha-me comentado, num inglês difícil de descodificar, que no ano passado por esta altura os fogos postos em Sumatra, na Indonésia, arrastaram uma névoa sobre a cidade de Kuala Lumpur que tardou três meses até se dissolver completamente. Desse comentário só me ficou o espanto de como fogos postos a cerca de 500km de distância conseguem invadir uma cidade durante três meses. Ou de como ainda existe floresta tropical na Indonésia, sendo que estes fogos, cuja dimensão tem de ser avassaladora, são marca da época seca há mais de trinta anos. Pensei que muitos dados tinham ficado perdidos no ruído normal destas comunicações e que ele tinha querido dizer qualquer coisa completamente diferente e com muito mais sentido.

Mas mais tarde, nesse mesmo dia em que abri as janelas a uma manhã baça, a entidade à qual se chama “haze” (névoa) começou, lenta mas seguramente, a invadir as páginas dos expatriados nos meios sociais. A minha resposta foi dramática. Dois dias depois, as janelas de casa, que ironicamente se abrem para uma magnífica paisagem natural, passaram a estar permanentemente fechadas. Fui à farmácia comprar máscaras com filtro, comecei a informar-me sobre purificadores de ar para casa, entrei em desespero e determinei que o “haze” seria responsável por um estilo de vida enfiado dentro de quatro paredes, por uma estadia menos prolongada na Malásia e por um retorno o mais depressa possível à floresta de Woodend onde, tal qual o Lorax, nos possamos esconder e esquecer desta loucura humana.

Falemos então do “haze”, o nosso inesperado companheiro para os próximos meses. Deve a sua existência, como já disse, aos violentos fogos que há décadas consomem a floresta tropical da ilha de Sumatra e já a destruíram em mais de metade, colocando a sua imensa riqueza natural - flora e fauna - em risco de extinção. É o produto dessas “queimas”, uma núvem densa, formada por um aglomerado de partículas que se tornam nocivas quando depositadas no sistema respiratório, visível em imagens de satélites, que todos os anos por esta altura, com maior ou menos entusiasmo dependendo da dimensão dos fogos e das condições climatéricas, parte em viagem da Indonésia para outros destinos. Gosta do céu de Kuala Lumpur, mas não só. Veraneia também noutras partes da Malásia, na Tailândia, em Singapura e na ilha de Bornéu. Em Kuala Lumpur instala-se com grande prazer, caindo sobre os grandes prédios e turvando os horizontes. A acendalha para esta destruição é o poder do dinheiro, que cega o ser humano às consequências menos imediatas das suas acções. A floresta tropical pode ser muito bonita e diversa e indispensável para os pulmões de tudo o que é ser vivo neste planeta. Mas é difícil traduzir isto em números. Ou melhor, é fácil: a rentabilidade é perto de zero. A ajuda ao “progresso” nula. A sua destruição, por outro lado, faz esfregar de contentes muitas mãos. Cada quilómetro destruído é quilómetro onde se podem plantar rentáveis espécies domesticadas - por exemplo aquela de onde se extrai o óleo de palma, presente em inúmeros e diferentes produtos que se encontram nas estantes dos supermercados do mundo inteiro. A ganância é, pois, mãe e pai do "haze".

Terríveis os Indonésios, certo, cujas acções têm tão nefastas consequências na vizinhança? Não propriamente. Numa clara demonstração da cegueira a que o dinheiro convida, são vários os rumores que apontam para a implicação de grandes companhias de óleo de palma malaicas. Nada está provado, são apenas rumores. O suficiente, contudo, para fazer desconfiar se o "haze" não será afinal apenas o filho pródigo a voltar carinhosamente aos braços dos pais. E nós, não mais do que vítimas colaterais deste fraterno reencontro.

Hoje é Domingo. São nove da manhã. O dia está outra vez enevoado e as janelas da minha casa estão outra vez abertas. Não as vou fechar até estar muito calor lá fora - o que pode ser tarde, porque estes últimos dias têm-nos presenteado agradáveis brisas. A angústia inicial já passou. Duas semanas a lidar com o “haze”, a deixá-lo dominar os meus dias e invadir o espaço das minhas angústias, até que percebi o exagero da minha reacção. Que é de resto normal, quando não se está habituado a pensar no ar que se respira. Embora seja uma preocupação e uma aberração tudo o que ele implica, da origem às consequências, o “haze” aparece durante o mês de Setembro, podendo alastrar-se, em piores anos, até Novembro. Mas mesmo nesses piores anos, os dias em que as escolas estão fechadas e se aconselha a não sair de casa são poucos. De resto, o “haze” vem e vai. Um dia aparece de manhã, mas à tarde já não está. Depois, não aparece durante dias.

Comprámos ontem um purificador de ar para casa, para esses piores dias. Quando se liga, faz automaticamente a medição da quantidade de partículas no ar. Ligámo-lo ontem e, para nossa surpresa, a qualidade do ar lida foi relativamente boa. Respirei fundo, com confiança e alívio. Agarrei no “haze”, coloquei-no na prateleira dos aspectos menos positivos de estar aqui, lado a lado com muitos outros, mas bem perto da estante dos aspectos positivos, também repleta. Virei as costas e abri as janelas. Deste episódio, contudo, saiu reforçada a minha convicção de que um dia vamos conseguir dar cabo de tudo; que os filhos pródigos, paridos pela ganância e alimentados pela irresponsabilidade de quase todos nós (eu incluída), nos hão-de bater à porta e, nesse regresso, cobrar o ar que respiramos, a água que bebemos, o clima que nos permite viver, até que o que resta valha tão pouco que já não importe grande coisa.

VISTO DE FORA

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Sabia que por cá…Em todos os edifícios construídos por chineses, passa-se do 3º andar para o 3ºA e a seguir para o 5º. Do 13º para o 13ºA e seguidamente para o 15º. O número 4 é o número do azar, e nunca figura nos números dos elevadores

Um número surpreendente: 5% foi o crescimento do PIB na Malásia em 2015

Rita Cruz

Rita Cruz

KUALA LUMPUR, MALÁSIA Rita mudou-se em Julho para a Malásia, deixando para trás a Austrália onde viveu dois anos. Já montou casa em várias partes do mundo. É fisioterapeuta, mas trabalhou durante vários anos no ramo dos Direitos Humanos e ajuda humanitária. Tem dois filhos pequenos, de 2 e 4 anos.