A manhã está soalheira e ventosa. É preciso sair do edifício central da SP Televisão, dos estúdios de gravações, em S. Marcos (Sintra), e ir até às instalações vizinhas, no Casal do Cotão, onde fica o quartel-general dos argumentistas do remake português de Dancin' Days, com estreia marcada para segunda-feira, 4, no horário nobre da SIC.

Às 10 e 20, juntam-se Pedro Lopes (diretor de conteúdos), José Pinto Carneiro, Mário Cunha, Manuel Moura Marques e Ana Morgado, cujas ideias já se cruzaram em outras produções, e Cândida Ribeiro (benjamim da equipa). Na sala ampla, ninguém se distrai com a mesa preta de matraquilhos, os puffs ou o barbecue na varanda. É hora de trabalhar... e o dia será longo. À volta da mesa retangular, a cadência dos passos do diretor de conteúdos marca o ritmo da reunião. Na mão, Pedro Lopes, 35 anos, segura uma folha A4, dobrada em dois, onde, no fim de semana rabiscou os ganchos para cerca de dez episódios da novela. As histórias das personagens são preparadas a partir da cena final, recheando o fio condutor do enredo. Pedro leu o guião original da telenovela brasileira, de 1978, escrito por Gilberto Braga. No ano passado, conheceu, pessoalmente, o autor, na sua casa, no Rio de Janeiro, e, juntos, acordaram pormenores da nova produção. 

A trama principal centra-se em Júlia (Joana Santos), que esteve presa 16 anos, por assumir a culpa de um atropelamento causado pela irmã Raquel (Soraia Chaves). Grávida, Júlia entrega a filha Mariana (Joana Ribeiro) à tia da menina. Quando sai da cadeia, a rivalidade entre as duas irmãs intensifica-se com a disputa pelo amor da mesma filha. Em simultâneo, a paixão entre Júlia e o diplomata Duarte (Albano Jerónimo) terá os seus altos e baixos.

É coscuvilhice da boa ouvir o sexteto de argumentistas falar da vida dos outros - uns outros inventados por eles. O gancho do capítulo 78 foi mudado, porque, no 77, dá-se o encontro entre as duas mães de Mariana. "São episódios tramados, pois o par romântico [Júlia e Duarte] está afastado", comenta-se. No original, Mariana não tem pai, "mas na reaproximação das três mulheres isso pode ser o gancho do 79", propõe-se. Vão-se assim resolvendo os problemas. É preciso não esquecer que, no capítulo 80, há ressentimento entre as irmãs. Raquel tem de mudar o seu estilo de vida e pedir ajuda financeira a Júlia. Para o 81, colocam a questão: que pai será este que não quer conhecer a filha? "O público vai ficar chocado", anteveem. "As personagens são inteligentes", dirime Pedro Lopes. Já perto do meio-dia, o final do 80.º passa para o nonagésimo. O brainstorming só acaba lá para as seis da tarde.

OITO CENAS DE UMA VEZ

"Há quatro formas de ver as personagens: a imagem que eu dou de mim; a imagem que os outros têm de mim; o meu eu; e o meu eu desconhecido", explica Pedro Lopes. É nesta fase que entra o trabalho de Laís Corrêa, 45 anos, responsável pela direção de atores. Valorizar "a forma como o corpo pode falar, dentro de uma ação" é a missão da atriz e bailarina brasileira. Não se lembra da telenovela original e nem a viu agora. "Este é o meu Dancin' Days." A sua técnica é o ser humano. "Enquanto os pianistas exercitam os dedos, o ator tem de aquecer as emoções, o corpo e a voz, para tornar humanas as personagens. As emoções não podem ser antecipadas; é como na vida real: nós não sabemos o que vai acontecer amanhã." Joana Santos, 26 anos, atriz escolhida para a Júlia portuguesa, trabalhou arduamente com Laís, durante um mês e meio, no Rio de Janeiro, para ganhar os atributos necessários.

Em dia de gravações exteriores, a manhã, agora nublada, não deixa ninguém descansado. No Clube de Ténis do Monsanto, em Lisboa, os aguaceiros e vento fortes limitam a ação dos 42 membros da equipa técnica. No court de terra batida, a atriz Joana Ribeiro, 19 anos, vai trocando bolas com o professor e tenista João Cunha e Silva. Tentarão gravar oito cenas do primeiro episódio. Nas bancadas, sentam-se 50 figurantes, em redor, desde as oito da manhã, estão estacionadas carrinhas e autocaravanas: régie, acompanhamento à régie, grua de imagem, gerador, iluminação, guarda-roupa, caracterização e catering. Ao décor chegam Soraia Chaves e Alexandre de Sousa, que desempenham os papéis de pais adotivos de Mariana (Joana Ribeiro) e vão vê-la jogar ténis. O vento está desagradável, são precisos roupões quentes e mantas para manter a temperatura do corpo. Manuel Amaro da Costa, coordenador de projeto e realizador neste dia, sai da régie, para dar dicas de posicionamento e de olhar à dupla de atores. Pelas 11 e 30, também Joana Santos chega ao cenário. "Estou ansiosa por ver as imagens", diz. "Mas só as quero ver na estreia; agora ainda me fazem confusão." A jovem atriz segue à risca as indicações de Laís Corrêa, que se mantém por perto.

Já Soraia Chaves, 29 anos, tem apostado nos filmes. Esta é, apenas, a sua segunda participação numa telenovela. A experiência em Rosa Fogo foi curta, mas suficiente para aceitar o papel de vilã em Dancin' Days.

Perto do meio-dia, é preciso mudar o material para outro ponto do Clube de Ténis, onde gravarão a cena em que Raquel leva Júlia a ver de longe a filha Mariana a jogar. Enquanto chuvisca, Soraia Chaves e Joana Santos ensaiam dentro de um carro. Manuel Amaro da Costa e Laís Corrêa explicam o que pretendem: movimentação dos corpos, emoções no rosto e na fala. "Silêncio! Vamos gravar!... Ação!"

FRATURANTE Q.B.

A realização de um remake assemelha-se à adaptação de um romance. "Temos história, personagens e percurso para um enredo. Mas, como existe a memória do telespetador, não se pode fazer igual", descreve Pedro Lopes, argumentista formado em História, que, até há pouco, só via quatro canais. "Para escrever para televisão não temos só de ver... televisão. Vejo muito cinema, leio jornais, conheço pessoas, vivo", diz o professor e investigador de Comunicação Audiovisual.

A parceria entre a SIC e a TV Globo inclui um texto original (Laços de Sangue, vencedora de um Emmy em 2011) e um remake. A escolha recaiu em Dancin' Days, detentora de uma das três maiores audiências de sempre das novelas da Globo, apenas superada por Roque Santeiro (1.ª) e Gabriela (2.ª). "Vai também mostrar a atualidade portuguesa - há personagens criadas só para Portugal, como o núcleo de comédia ou o do centro comercial", explicava Guilherme Bokel, 56 anos, diretor de Produção Internacional da TV Globo, durante um workshop que juntou atores, técnicos, argumentistas e especialistas nas áreas de reinserção social, homossexualidade, perturbação bipolar e gravidez na adolescência.

Rita, nome fictício de uma ex-reclusa da cadeia de Tires, recebeu a única ovação da tarde, nesse workshop. "O tempo na cadeia é intemporal", contou. "Havia rotinas, mas do que eu mais sentia falta era das minhas chaves de casa." Na prisão, onde as mulheres se tratam bem umas às outras, diz Rita, a grande preocupação é para com a família e os amigos que ficam cá fora à espera. Pormenores dos seus dois anos e meio de cárcere, por tráfico de droga, despertaram a curiosidade da protagonista Joana Santos, que dará vida à reclusa a qual, embora inocente, cumpre 16 anos de cadeia na vez da irmã.

Há, como já se deduziu, novos temas, entre os quais a bipolaridade ou a homossexualidade, atualidade oblige. E a linguagem será a mais natural possível. "Nós somos circulares a falar, interrompemo-nos, mudamos de assunto", exemplifica Pedro Lopes. Além de que, em Dancin' Days, as personagens foram desenhadas para serem boas e más. Aqui, não há santos.