No tempo em que os animais falavam, havia tamanha quantidade de ocorrências alegóricas que ninguém se lembrava de assinalar que a existência de animais falantes também era notável. Os fabulistas eram gente que se maravilhava mais depressa com os prodígios morais do que com os prodígios naturais, e por isso deram muita atenção aos primeiros e nenhuma aos segundos. Como se não fosse mais frequente encontrar na natureza uma lebre fanfarrona, uma cigarra preguiçosa ou uma raposa hipócrita do que um único bicho falante.  

O tempo em que os jornais contavam parece agora tão distante como o das fábulas. Não sei se o leitor se lembra: um jornal dava uma notícia que embaraçava um membro do Governo e este, movido por vergonha própria ou pressão alheia, demitia-se. Hoje, há pouca pressão e ainda menos vergonha. Aquilo que vem nos jornais já não demite ministros.  

Tanto no tempo em que os animais falavam como no tempo em que os jornais contavam, as histórias acabavam com uma moralidade. As histórias de hoje, sendo menos morais, não deixam de ser instrutivas. Tão pedagógica é uma história moral como uma história imoral. E talvez sejam mais divertidas porque, embora ouvir um ser irracional proferir declarações sensatas dê vontade de rir, ouvir um ser racional proferir declarações absurdas também é humorístico. 

Talvez por se terem desabituado de ler fábulas, os analistas não foram capazes de captar a verdadeira lição da história de Miguel Relvas. O grande escândalo do Portugal contemporâneo não é que um ministro queira controlar a comunicação social. O escândalo é não haver razão para controlar a comunicação social. O nosso problema não é termos políticos prepotentes, é termos políticos que perdem tempo com tarefas inúteis. Parece óbvio que Miguel Relvas tentou pressionar um jornal. E toda a gente pergunta: "Como se atreve?" Ora, a questão é: "Para quê?" Desperdiçou energia que teria sido mais bem aplicada em novas trapalhadas - ou até, quem sabe, na governação. Se Relvas não caiu depois destas notícias, não há nada que se publique em letra de forma que o possa fazer cair. Para quê preocupar-se com o que sai na imprensa? Tanto faz. O ministro deve dar às notícias que lhe apontam contradições gravíssimas o mesmo destino que deu ao clipping sobre a viagem de George Bush ao México: lixo com elas.