É um filme mágico. E inquietante ao mesmo tempo. Remete-nos para Os Sonhos de Kurosava mas sem a parte do "maravilhamento" nem da genialidade da realização. A lógica é mesma: a câmara entra para dentro de um quadro, o cinema dá-lhe movimento e som, outras texturas, leituras e derivações. Só que é uma obra tremenda, cheia de encadeamentos e complexidades, esta de Brueghel, o Velho: "A Procissão para o Calvário", em que o pintor flamenco quinhentista "deslocaliza" o tema da desolação da virgem-mãe, face à crucificação de Jesus, para o cenário da Flandres, do século XVI, onde não havia romanos a supliciar judeus pré-cristãos, mas sim fanáticos espanhóis, mercenários de vermelho, a mortificar "hereges", com requintes tremendos de malvadez. Neste quadro que está exposto em Viena, ao lado da célebre "Torre de Babel" (se calhar não por acaso), comparecem 500 personagens, miniaturais, como sempre Brughel fazia, por vezes um pouco toscas e grotescas, outras carregadas de ironia e alacridade, outras ainda com um toque de antecipação do cataclismo, como a "Parábola de Cegos" ou "Os Caçadores de Inverno", curiosamente também tão insistentemente filmado no recente "Melancolia", de Gus Von Sant. A artificialidade assumida, assim como as encantadoras paisagens brumosas, a verde e a cizento dos óleos da época, podem esporadicamente fazer-nos lembrar a feira medieval de Castro Marim, e aí há qualquer coisa que falha no filme. O realizador seguiu a monografia The Mill and The Cross, do crítico de arte Michael Francis Gibson. Tudo parece confluir para a grande cena apoteótica final, os quotidianos de uma banalidade absurda, que Brueghel, tanto retratou, as danças, as brincadeiras das crianças, as feiras, as lavouras dos camponeses, as andanças, tudo mexe naquele filme, numa caminhada perpetuamente horizontal, que se cruza na linha vertical impossível, de um moinho encavalitado no alto de uns penhascos, onde está um moleiro- Deus que tudo pode suster e suspender, num quadro. Como o pintor.