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São onze contra onze e no fim...

Mundial 2018

Miguel Carvalho

Matthew Ashton - AMA

Imaginam o que o adeus da Alemanha ao Mundial faz bem ao futebol? Não imaginam? Eu explico.

O futebol são onze contra onze e, no mundo ideal, a Alemanha vai para casa. É isto, não é? Caros admiradores da ciência, da técnica, da eficiência e da maquinaria germânica: não me levem a mal, mas este Mundial estava mesmo necessitado de virar de agulha. Estava, pelo menos, a precisar de um safanão de dimensões épicas, desses que atiram borda fora o campeão em título. E isso só pode fazer-lhe bem à saúde.

Se o futebol ainda é mais do que laboratório, calculismo e a afirmação da Europa toda poderosa, este Mundial precisa de equipas como Argentina, México, Colômbia ou até Portugal, sem que isso signifique maravilhar o público (às vezes, convenhamos, até o leva ao desespero). Basta que as suas conquistas quase esganadas se façam de outros encantos, mais próximos das agruras e sonhos quotidianos, entre os quais a capacidade de desafiar os prognósticos até romper em sangue ou fazer de funerais antecipados um dia mais com vida.

Mesmo quando perde, a Alemanha parece perfeita. É uma chatice.

Veja-se que nunca se diz que os alemães fizeram asneira ou que pareceram amadores. Não, isso é para outros países, onde existem jogadores que carregam pátrias às costas e já quase não podem com a mochila cheia das contradições, delírios e frustrações que um povo lhes passa para o lombo. Porém, quando os jogadores germânicos falham é apenas um problema motivado pelo cansaço de serem excelentes quase todo o tempo ou pela repetição das vitórias. Quando muito, precisam de renovar uma geração de atletas. E vão à sua vida, sem precisar de carregar as psicoses da pátria, ocultar défices económicos ou lamber outras feridas.

Ao contrário, algumas das equipas que passaram aos “oitavos” têm todas as costuras à vista, em alguns casos até ao desmaio. Muitos dos seus jogadores estariam agora num equilíbrio instável entre a delinquência e um ofício precário se não fosse o talento para a bola. Acontece que as suas debilidades e inconstâncias até à vitória ou derrota final são, muitas vezes, o oxigénio da tribo. Ou de um País. E quando assim é até o futebol respira melhor. Por isso, aqui vai, sem pedir licença: auf Wiedersehen, Alemanha. Já não era sem tempo.

Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.