Já toda a gente olhou para os rastos deixados pelos aviões. E a maior parte fica satisfeita com a explicação científica: aquelas linhas são simples condensação (por causa das baixas temperaturas a altas altitudes, o vapor produzido pelas turbinas transforma-se em partículas de gelo). Mas cresce o número de pessoas que acreditam encontrar-se ali, à vista de todos, a prova de que os governos estão a largar químicos para nos deixar mais dóceis.

Ou de que as farmacêuticas espalham toxinas para nos manter doentes e obrigar-nos a comprar medicamentos.

Ou de que os militares americanos andam a controlar o clima. Ou, ou. A imaginação é o limite.

O fenómeno dos chemtrails (que significa rastos químicos) está na moda.

Em Portugal, a preocupação traduz-se num grupo de Facebook com mais de 5 mil membros e numa petição para que os deputados discutam o assunto e o Governo tome "medidas" que leva já 1 196 assinaturas (se chegar às 4 mil, o tema terá mesmo de ser debatido no Parlamento). "Quero que a Assembleia da República investigue este caso", justifica Lino Almeida, 52 anos, autor da petição. "Sempre vi aviões a deixarem marcas no céu, que desapareciam rapidamente. Mas estas são diferentes: formam uma malha e os traços não se evaporam. Fiz pesquisas na net e percebi que há ali qualquer coisa de anormal." Aquele empresário e consultor, que tem por passatempo fotografar os rastos, garante que alguns aviões responsáveis por "pulverizar" a atmosfera são diferentes dos Boeing e Airbus, e possuem uma envergadura "ligeiramente maior". Mas, acrescenta, é provável que os aparelhos comerciais também sejam apetrechados com produtos químicos. Quanto às causas, e apesar de admitir que há muita especulação, Lino Almeida aposta as suas fichas nas empresas de organismos geneticamente modificados.

"A Monsanto [a maior do mundo, nesta área] pode estar a destruir sementes para as pessoas terem de comprar as suas." Outras hipóteses, diz, passam pela manipulação do clima e experiências militares para controlar as telecomunicações. O suposto aumento de doenças respiratórias também o deixa de pé atrás em relação às farmacêuticas. Certezas, não há. "As pessoas que conhecem a verdade são pressionadas e manietadas para ocultar tudo. E os media não falam sobre o assunto", queixa-se.

"Não falam, porque não há nada para falar", responde João Monteiro, 28 anos, biólogo e fundador do Comcept.org, um site de divulgação científica e que desmonta pseudociências. "Esta é uma teoria da conspiração que surgiu no final dos anos 1990, assente num relatório [da Força Aérea americana, com ideias fictícias para resolver cenários futuros]. A convicção baseia-se na iliteracia científica, e propaga-se pela imaginação e pelo medo." Lino Almeida não se deixa abater. "Acusam-nos de ver muitos filmes. Mas o que ontem era ficção hoje é realidade." Uma máxima que vale para a antiga teoria da Terra plana e que falha quando o tema é raptos por extraterrestres.