Antigo pastor, aprendiz de curandeiro, criado de meninos e de um clube da elite de Lourenço Marques (hoje Maputo), o pintoi Malangatana é, aos 67 anos, um dos grandes símbolos da cultura moçambicana. A propósito do lançamento do seu livro Vinte e Quatro Poemas e Outros Inéditos (uma edição do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em cuja sede de Lisboa estarão expostos, a partir de 10 de Março, os desenhos que ilustram a obra) o JL traça o perfil deste homem grato à vida e às oportunidades que ela lhe deu c orno boa parte das crianças nascidas nas margens do rio Incumátí, Malagantana Valente Ngwenya descobriu o mundo as costas da mãe. Ela pilava a farinha de mandioca, ia ao poço ou comprar sal a uma aldeia vizinha e ele lá ia, confortável, envolto numa capulana, adormecendo ao ritmo das canções do povo que trabalhava na machamba. Curioso como um gato, foi-se esgueirando entre os adultos para descobrir os usos do seu povo - os rongas - ainda que, reconhece hoje, nem tudo o que via fosse recomendável para os olhos de uma criança. Sobrinho de curandeiros, habihiou-se desde cedo a uma longa lista de demónios que, acreditava-se, afligiam corpos e almas. "Via a minha mãe fazer tatuagens nas moças que se preparavam para começar a vida adulta. Via-a também limar os dentes das pessoas para que ficassem pontiagudos. Considerava-se que uma criança não devia assistir a estes actos porque eram muito violentos, mas eu não resistia à curiosidade". Conduzido por essa ânsia de conhecer, foi, já adulto, "observar os ritos de iniciação das mulheres" da sua aldeia. Como tais cerimónias estavam interditas ao sexo masculino, lá foi levado pela tia Angelina, mas disfarçado de mulher, com um lenço pela cabeça e algodão dentro da blusa.
"As pessoas respeitavam essa curiosidade, mas confiavam na minha capacidade de guardar segredo", recorda.
Esta educação foi determinante para a formação de uma sensibilidade. "A minha mãe não sabia ler nem escrever, e o meu avô também não, mas os contos tradicionais que ouvi por volta dos quatros anos serviam para transmitir valores. Muitos deles tinham um fundo moral", lembra Malangatana. "Cresci na Matalana, mas numa zona chamada Mapulene que os habitantes mais ricos do distrito de Marracuene consideravam atrasada. Mas esta era também uma zona de grande efervescência cultural - cantava-se, dançava-se, fazia-se artesanato com um tipo de palha ou barro que Íamos buscar, a pé, a 30 kms de distância. Julgo que tínhamos uma grande fome de conhecimento que associo sempre a Murime, uma figura que, muito antes do meu nascimento, terá andado de aldeia em aldeia, dando rapé a cheirar a todas famílias. Estou convencido que o seu objectivo seria despertar os habitantes da Matalana".
"A minha primeira universidade foi a minha mãe", afirma com emoção. "Analfabeta, tornou-se doente mental a partir de 1947. Ainda assim, gritava comigo, insistindo sempre para que fosse à escola. Um dia, quando vinha de casa de familiares, encontrou um livro perdido e embrulhou-o cuidadosamente numa capulana. Transportou-o como um tesouro.
Tinha a noção da importância dos livros". Pastor de gado e aprendiz de nyamussom (curandeiro), seguiu o apelo maternal e frequentou as escolas das missões católicas e protestantes. Uma experiência que recorda com sentimentos ambivalentes: "Em ambos os casos, as missões tinham gente muito culta e com uma formação multifacetada. Aquilo que eu condeno até hoje é o facto desses professores não transmitirem muito do que sabiam, desde o conhecimento científico propriamente dito até ao canto gregoriano. Procuravam que não conhecêssemos mais do que eles consideravam suficiente, numa atitude que não hesito em reputar de colonialista. Lembro-me, por exemplo, de um padre reagir muito mal quando viu a minha mulher com um camafeu de algum valor na camisola. É claro que houve excepções e sou o primeiro a reconhecer o papel desempenhado quer pelas irmãs católicas, quer por individualidades como D. Sebastião de Resende, bispo da Beira, e o bispo de Nampula. Não se calaram ante a injustiça. D. Sebastião morreu na sequência da colocação de uma bomba na sua casa. Era doente cardíaco e morreu do choque, mas, ao contrário do que então foi anunciado, o acto não foi da responsabilidade da Frelimo, mas da PIDE".

 

À DESCOBERTA DA ARTE Malagantana começou a desenhar para entreter os meninos, brancos e negros, de quem era criado. "Na minha infância não tinha caneta nem lápis, nem os sabia fabricar com madeira como fiz mais tarde. Quando tomava conta de crianças, procurava desenhar no chão, desviando-lhes a atenção para que não fossem para a estrada. Também desenhava na praia, quando ia com os meus patrões. Esse foi o rastilho do que fiz a seguir". Em 1959, participou numa primeira exposição/concurso e ganhou uma menção honrosa. "Foi uma coisa extraordinária - recorda - mas, com uma certa humildade, fingida ou não, descobri que não sabia muito sobre arte, sobre a sua História e movimentos. Não sabia quem era Picasse, o que era o dadaismo ou o cubismo, de tal maneira que, em 1961, foi feito um simpósio sobre a minha pintura, a minha primeira exposição e não entendi o que os participantes estavam a dizer sobre técnicas que alegadamente eu utilizava. Quando um antigo patrão meu me perguntou o que era o surrealismo, eu respondi 'eh, patrão, o meu nome não é surrealista, o meu nome é Valente'".
Malangatana começou a comprar livros e a falar com pessoas mais conhecedoras destas matérias. Mas o momento decisivo, como reconhece, deu-se quando, em 1961, foi trabalhar para casa do arquitecto português Pancho Miranda Guedes: "Ele era apaixonado pela obra de arquitectos como Lê Corbusier, Gaudí e por correntes de pintura muito avançadas na época.
Trazia muitas coisas novas das suas viagens à Europa. Mas quando ia trabalhar no interior de Moçambique trazia também caixotes com máscaras, esculturas e utensílios de arte local.
Foi também nessa época que, estimulado por aquela familia, comecei a reforçar a minha leitura, o meu inglês, o meu francês e até o meu português. Hoje posso dizer que todos foram para mim autênticos Dalai Lama que me revelaram todo um mundo, até então totalmente desconhecido. O arquitecto Miranda Guedes, que me permitiu instalar um atelier na garagem da sua casa, é hoje o autor do projecto da sede da minha fundação. À esposa, que era cantora de ópera, ainda trato por mãe." Nos anos que se seguiram (Malangatana deixou a casa de Miranda Guedes em 1963) o jovem pintor foi somando esta aprendizagem ao exercício dos diversos ofícios que a sociedade colonial reservava aos da sua raça: "Fui apanha-bolas de ténis, criado de mesa, trabaIhei num clube de portugueses, onde fazia decorações para festas que me eram totalmente desconhecidas como o São João ou o Santo António. Levava as medames a tomar chá Hotel Polana, um dos mais elegantes da colónia, e não me deixavam entrar porque sou negro".
Mas esses anos decisivos para Malangatana foram-no também para a História de Portugal e Moçambique. De Angola, a lute armada contra o colonialismo português estendeu-se à Guiné-Bissau e a Moçambique. À medida que ia desenvolvendo uma sensibilidade artística, o pintor ia constituindo uma consciência política. Acusado de ligações à Frelimo, foi detido pela PIDE, durante uma leva de prisões que incluíram os poetas José Craveirmha e Rui Nogar. Sem provas que fundamentassem a acusação, o regime foi forçado a libertar Malangatena após quase dois anos de prisão. Foi quanto bastou para atrasar a sua vinda para Portugal, como bolseiro da Fundação Gulbenkian.
Uma vez em Lisboa, estudou gravura com João Hogan e cerâmica com Querubim Lapa ("mas sempre com a mesma bolsa", como faz questão de frisar). A importância desta experiência não se esgotou nos conhecimentos artísticos que adquiriu. Em 1971 (data em que chegou a Portugal), a-Guerra Colonial estava no seu auge e Malagantana vinha imbuído daquilo a chama um "sentimento racista": "Mas, ao viajar pelo Alentejo, percebi que trabalhar de sol a sol não era só para os pretos em Moçambique. Na machamba, o nosso "obrigador" era estranho, o que nos permitia ter formas de escapulir através da nossa cultura. Cantávamos a nossa angústia numa língua que ele não entendia. Reuníamos, à noite, à volta da fogueira, onde ouvíamos os tambores. Os alentejanos eram brancos escravizados por brancos (muitas vezes o "obrigador" era um primo que se tinha dado bem na vida), sem qualquer forma de escapar ao drama dos seus quotidianos".
Acompanhado por amigos ("nomeadamente Afonso de Albuquerque, um homem que vivia então num dilema: por um lado, era militar português, por outro, contestava o colonialismo"), viajou muito por Portugal, viu a fabrica do vidro na Marinha Grande, foi a Baleizão, descobriu, deliciado, os cantares alentejanos e um humor pícaro, não muito diverso do que caracterizava a sua avó, lá na Matalana. "Em Portugal virei uma nova página na minha vida", declara. "Na escola em Moçambique obrigavamnos a cantar o malhão e o vira, mas completamente fora de contexto. Eram formas mais de nos obrigar a esquecer as nossas canções e expressões culturais. Só aqui consegui distinguir entre o fado de Coimbra, o fado de Lisboa e o fado vadio. Conheci o novo português, muito diferente daquele que vivia em Moçambique, e consegui respeitá-lo ao compreender que o salazarismo não se limitava a oprimir os africanos. Vi muito jovem artista português ser impedido de se expressar pela PIDE". E acrescenta: "Hoje não tenho problemas em tratar Portugal por tu".

 

HERANÇA E INDEPENDÊNCIA Como artista, Malangatana usou os meses de estudo em Lisboa para ampliar horizontes. Conheceu os grandes nomes da arte portuguesa da época (destaca, para além dos seus mestres acima referidos, Júlio Pomar, Nikias Skapinakis, Nadir Afonso, Dórdio Gomes) e partiu à descoberta da Europa: "Graças ao que vivi em Lisboa, quando cheguei a Paris sabia ir a Montmartre, ao Museu do Homem e a outros espaços porque, em Lisboa, já tinha estado em vários espaços culturais." Esta herança, que Malangatana está longe de enjeitar, levou-o a fazer da capital portuguesa o trampolim das viagens que foi fazendo pela Europa. Poucos meses após a independência de Moçambique, essa opção levou-o a viver uma experiência que recorda com humor: "Vinha de Paris com a minha mulher e quando chegámos à fronteira de Hendaye não nos deixaram entrar em Portugal. Não tínhamos vistos, disseram. Foi um choque. Quase disse que éramos portugueses, mas a verdade é que essa situação tinha sido irreversivelmente modificada e tivemos de dormir na estação de comboios".
Este episódio adquiriu simbolismo nos primeiros anos de Moçambique como Estado independente. O júbilo da vitória não anulou a perplexidade e até alguma angústia, que o pintor diz ter partilhado com homens como José Craveirmha: "Esta nova realidade pôs-nos muitas questões: Que relação íamos ter com o expulsado? Que continuidade íamos estabelecer nas áreas em que ela fosse necessária? Pessoalmente interroguei-me: o que faço com a minha pintura?" Alguns dos poemas agora publicados no livro 24 Poemas Inéditos datam dessa época e são a expressão literária destas dúvidas: "Escrevi poemas de resistência à colonização, mas também de resistência a muitas coisas que se fizeram em Moçambique após a independência. É o caso da deslocação para o Niassa dos chamados improdutivos que faziam colheres, gamelas e outras formas de artesanato. Esvaziámos as cidades de pessoas que tinham um saber único. Em Maputo ficámos sem pessoas com saberes fundamentais. De repente, não tínhamos sequer quem limpasse uma chaminé ou vedasse um quintal com caniços. Escrevi um poema sobre esta situação para me penitenciar. Eu também pactuei, pelo menos com o meu silêncio".
A independência de Moçambique correspondeu à consagração do artista, que, ao longo das décadas de 70 e 80, teve exposições individuais em cidades como Lisboa, Havana, Leipzig, Berlim, Londres e passou a estar representado em museus e colecções em Portugal, Nigéria, Índia, Cabo Verde, Bulgária, Suíça, Estados Unido e Uruguai. Convicto de que ao pintor assiste também uma responsabilidade social, Malagantana não deixou de assumir cargos políticos e cívicos no seu pais. Entre outras funções, foi deputado da Frelimo de 1990 a 1994 e é membro da Assembleia Municipal de Maputo. Dinamizou a fundação do Museu Nacional de Arte e dum Núcleo de Arte, que agrupou os artistas plásticos de Moçambique.
A educação artística através do respeito pelas tradições das etnias que vivem no país é ainda uma das suas prioridades, como demonstra o Centro Cultural da Matalana em que está empenhado desde o princípio da década de 90 (v.caixa). "Acredito que no continente africano temos de caminhar ao encontro de nós próprios e das nossas raízes, anteriores ao colonialismo. Lamento muito que a juventude moçambicana se interesse pouco pelas nossas tradições", afirma.
Na pintura, como na poesia, de Malagantana há um contínuo e assumido recurso a este património: "Escrevo em português, mas junto-lhe vocábulos da minha língua materna, o ronga, que está sempre presente, seja na maneira de pilar, de caçar, de gesticular, de fazer um enterro, de celebrar um nascimento ou de pedir a chuva.