Sempre que começa a explicar aquilo que faz, Frederico Silva, 37 anos, pega num papel e numa caneta e põe-se a desenhar. Numa simbologia simples, constrói células, proteínas e anticorpos. E tudo se torna mais fácil de entender.

Este jeito para o desenho ser-lhe-á particularmente útil nas duas semanas que vai passar em Xangai, China, embrenhado no Shangai Institute of Materia Medica (SIMM) uma instituição estatal de investigação científica. Em junho deste ano, a empresa portuguesa Technophage e o SIMM assinaram, em Lisboa, um protocolo de colaboração inédito. As duas entidades serão parceiras nos estudos pré-clínicos e clínicos, que agora se iniciam, de uma nova molécula, descoberta por aquela biotecnológica portuguesa, e que se destina ao tratamento da artrite reumatoide. Frederico Silva, licenciado em engenharia biotecnológica e doutorado em farmácia, é o responsável científico do projeto e esta será apenas uma das muitas deslocações que terá de fazer a Xangai, nos próximos sete ou oito anos, para acompanhar a produção do medicamento e o teste em doentes. Sem avançar muitos pormenores sobre o protocolo, Miguel Garcia, 44 anos, CEO da Technophage, sublinha: "O SIMM acredita nas potencialidades da molécula e, por isso, tem todo o interesse em realizar os ensaios clínicos necessários à colocação do medicamento no mercado chinês." A ideia para a colaboração partiu de Lisboa, mas o envolvimento da prestigiada instituição chinesa, onde já foram desenvolvidos medicamentos contra a malária ou para problemas de memória, representa um importante voto de confiança nos dez investigadores, altamente qualificados, da Technophage, empresa sediada no Instituto de Medicina Molecular.

"Neste setor é preciso atrair financiamento e a nível mundial. E o SIMM é o parceiro ideal: grande e eficiente. Queremos o mercado chinês e a nossa expectativa é chegar até à fase de comercialização do medicamento", continua Miguel Garcia, que se afirma defensor de um modelo de negócio sustentado neste tipo de parcerias, bem como no financiamento através de projetos europeus, em detrimento dos investimentos de capital de risco.

Vantagens da molécula portuguesa

  • Custos de produção potencialmente menores, graças à utilização de bactérias, em lugar de sistemas celulares de mamíferos.
  • Baixa toxicidade, uma vez que o organismo reconhece o anticorpo TA 101 como se fizesse parte dele mesmo, o que evita efeitos secundários severos.
  • Elevada capacidade de penetração nos tecidos, por causa do seu pequeno tamanho. Chega, assim, a células que não são atingidas por outros medicamentos já no mercado.

Todo este entusiasmo explica-se com o facto de a molécula desenvolvida pela Technophage, a TA 101, representar uma promessa no tratamento de patologias tão incapacitantes como a artrite reumatoide ou a doença de Chron. Pertencente à classe dos anticorpos de pequenos domínios, a TA 101 cabe na categoria das terapias biológicas baseadas nas potencialidades do organismo para combater determinadas doenças. "Só três empresas, em todo o mundo, trabalham neste tipo de anticorpos ", sublinha Frederico Silva.

MAIS EFICAZ, MAIS BARATO

Em metade de uma folha A4, Frederico Silva resume a relação entre a TA 101 e a proteína TNF uma molécula da categoria das citoquinas, que existe no nosso organismo, à volta das células, e que serve de mediadora da comunicação que as envolve.

Quando o nível de TNF sobe acima dos valores normais, inicia-se um processo inflamatório, como é o caso da artrite reumatoide. Ora, a nossa TA 101 tem uma excelente afinidade com aquela proteína, ligando-se a ela e suavizando a resposta inflamatória. Uma vez que a artrite reumatoide é uma doença crónica, será necessário aplicar uma injeção mensal do medicamento para manter os níveis de TNF controlados.

O trabalho da equipa da Technophage começou em 2007, ano que representa um marco para os cerca de 40 mil portugueses mergulhados em dor por causa da artrite reumatoide. Ao cabo de meses de luta e de uma forte campanha de sensibilização promovida pelas associações de doentes, era finalmente aprovada a introdução das terapias biológicas para o tratamento daquela patologia autoimune, em que o sistema imunitário ataca tecidos do próprio corpo. Com menos efeitos secundários e aparecendo como tratamento de segunda linha, quando os de primeira deixam de obter resultados, os medicamentos biológicos ajudam a controlar a inflamação, o inchaço e a rigidez nas articulações sobretudo das mãos e dos pulsos, que massacram os doentes, normalmente jovens e em idade ativa. Mas a guerra não acaba aqui. Estudos recentes mostram que a incidência desta doença tem vindo a aumentar, principalmente entre as mulheres ( julga-se que por questões hormonais, estilo de vida e falta de vitamina D). E nem todos os doentes reagem como o esperado à terapêutica disponível. São urgentes outras opções, de preferência mais baratas um mês de terapia biológica custa cerca de mil euros. E o novo anticorpo TA 101 promete responder a mais do que um requisito: tem custos de produção potencialmente inferiores, apresentará menores efeitos secundários e nele vislumbrase uma grande capacidade de penetração nos tecidos.

'OLHÒ ROBÔ'

Embalados pela aprovação das terapias biológicas e pelos resultados animadores de experiências com anticorpos de pequeno domínio, os investigadores da Technophage começaram, há cinco anos, a desenvolver a sua própria molécula.

Tudo se iniciou com uma comunidade de coelhos brancos, mantidos num ambiente completamente esterilizado de um biotério, na Faculdade de Medicina Veterinária. Nestes animais, injeta-se uma boa dose da proteína TNF. Nos coelhos, a TNF inoculada vai como que simular a doença, provocando uma resposta imunitária, de defesa. Os animais começam, então, a produzir anticorpos, para contrariar o seu efeito. Ao fim de dois meses, extrai-se o baço e a medula órgãos-chave do sistema imunitário, para colheita dos anticorpos, que estão a ser produzidos em ritmo acelerado. No laboratório, estas moléculas são humanizadas, o que quer dizer que se tornam idênticas às produzidas pelo nosso organismo.

Aí, entra em ação um robô, alojado numa das salas do segundo andar do Instituto de Medicina Molecular. "Foi o nosso maior investimento", diz Miguel Garcia, sem revelar, no entanto, o valor do equipamento que representa uma enorme poupança de tempo. Na máquina, entram dezenas de anticorpos diferentes, distribuídos por pequenas cavidades de uma placa de plástico. Em cada uma das cavidades, o robô injeta uma dose de TNF. Se houver ligação entre o anticorpo e a proteína inflamatória, surge uma coloração verde fluorescente e temos um bom candidato a medicamento. Se nada acontecer, o anticorpo não serve. No final do processo, o robô, capaz de analisar 4 mil moléculas numa semana, apresenta uma série de bons candidatos e, depois, cabe aos cientistas verificar qual o melhor dos melhores. O eleito é então produzido em larga escala por uma fábrica de bactérias, geneticamente modificadas para libertarem a TA 101 num processo semelhante à síntese de insulina.

PRIMEIRO A CHINA, DEPOIS O PLANETA

A produção, deste modo descrita, parece trivial. Mas cada uma das fases do processo está sujeita a um rigoroso escrutínio, muitas verificações de segurança, e também de proteção. Por exemplo, a metodologia de utilização de coelhos para a extração de anticorpos está patenteada, assim como a própria TA 101.

Depois dos cinco anos de trabalho em laboratório e de testes em animais, é altura de ver o que a molécula de facto vale enquanto tratamento. Só lá para 2020, quando tiverem sido concluídas as três fases de ensaios clínicos em humanos, é que o produto poderá chegar ao mercado.

"Na China, acompanharemos o processo até ao fim. Seguiremos quer a produção quer os testes médicos", revela Miguel Garcia.

Paralelamente ao mercado asiático, a empresa portuguesa pretende entrar, também, no europeu. Para isso, já foi submetido um pedido de autorização, com vista ao início dos ensaios clínicos na Europa, ou CTA (Clinical Trials Application).

"Portugal tem muito boas condições para a descoberta de novos produtos.

Há investigação de qualidade nas universidades", diz Miguel Garcia. Mas uma parte significativa do trabalho de desenvolvimento de um novo produto biotecnológico passa pela subcontratação externa, como os advogados de patentes, que são americanos. É pouco provável que a TA 101 venha a ser comercializada em Portugal, ou noutro qualquer país europeu, com a marca da Technophage.

"O caminho é vender a uma grande farmacêutica, quando chegarmos à fase II dos ensaios clínicos", admite Miguel Garcia.

Além de se apresentar como uma promessa no tratamento da artrite reumatoide, a TA 101 é, igualmente, uma boa candidata ao alívio de outras doenças inflamatórias. Na forja, a empresa portuguesa tem outras moléculas inovadoras para o tratamento da osteoporose e da doença de Parkinson, ou para a eliminação de bactérias resistentes. Mas, sobre isto, Miguel Garcia pouco avança. O segredo, sabe-se, é a alma do negócio.