O grande mistério da humanidade continua a ser o Outro. É difícil os patrões perceberem a perspetivava dos empregados, os israelitas a dos palestinianos, os freaks da bolsa as necessidades do povo. E vice-versa, claro está. Esse pode ser um dos maiores desafios da arte. Um desafio tão grande que facilmente se torna insuperável. Como poderemos alguma vez ter o nível mínimo de empatia para perceber um monstro? O cinema tem os seus truques. Habituou-nos a gangsters extremamente sedutores, que nos fazem entrar num jogo de ilusões inerentes ao próprio género: num filme de ação os socos não doem e as balas não matam de verdade, não há qualquer drama existencial, a morte é uma brincadeira, um ponto que se perde, como quando as crianças brincam aos cowboys. Num aprofundamento do género, Tarantino incute um charme irresistível aos seus assassinos, põe-nos a falar de massagens nos pés nos preparativos de um crime hediondo. George Clooney em O Americano (2010), de  Anton Corbijn, faz-nos crer que a profissão de assassino profissional se assemelha à de um sapateiro. E Woody Harrelson e Juliette Lewis, em Assassinos Natos (1994), de Oliver Stone, mostram que matar aleatoriamente pessoas é bem mais divertido e amoroso do que passear de mão dada num jardim. Mas nem Samuel L Jackson, nem George Clooney, nem Woody Harrelson se safariam se em vez de assassinos fossem... pedófilos. Essa é a limitação ética: podemos rir-nos do humor de um psicopata, mas nunca das piadas de um pedófilo.
Desafio enorme de Michael, um filme notável de Markus Schleinzer, que esteve em Cannes, passou no IndieLisboa e agora estreia-se em sala. Mais surpreendente ainda tratando-se de um filme austríaco, o país de Natascha Kampush, um dos mais mediáticos casos de sequestro: a criança foi raptada por um homem aos 10 anos e só se conseguiu libertar aos 18. Assunto altamente delicado, portanto, que Schleinzer trata com mestria. A perspetiva, o que interessa ao realizador, é sempre Michael o sequestrador, deixando para segundo plano a criança, a vítima, que é a protagonista de todos os outros filmes do género. Nunca ficamos encarcerados ao lado do miúdo, de que mal conhecemos o nome, sabemos apenas que ela está lá.
O verdadeiro milagre do filme é fazer-nos seguir uma personagem com a qual não empatizamos (seria impossível). Porque Schlneizer tem essa honestidade ética e intelectual de não dar traços sedutores a Michael. Por um lado não vitimiza o carrasco: não se descobre qualquer opressão social ou familiar, nem mesmo um estado de demência que justifique, explique ou atenue os seus atos. Por outro lado, não há qualquer traço de estilo que faça de Michael uma personagem cativante, à moda dos assassinos de Tarantino. É uma figura opaca, moderadamente obsessiva, relativamente reservada, mas que, apesar de tudo, se relaciona socialmente. Na relação com o rapaz, não explora o síndrome de Estocolmo em demasia: há uma dependência, mas é uma dependência essencialmente opressiva.
O que torna assustadora esta história é a aparente vulgaridade do sequestrador-pedófilo, que até é bem-sucedido profissionalmente. E de como um crime é mantido e repetido de forma quase perfeita por um tempo longo. Alerta-nos para o perigo do insuspeito. Apesar de, num retrato mais profundo, observarmos os distúrbios de personalidade em Michael.
O filme tem levantado polémica pela escolha do ângulo. Desde quando os pedófilos têm direito a uma perspetiva? Mas nada disso é feito de forma doentia, tendenciosa ou compassiva, pelo contrário, num tema de mau gosto, há bom gosto. Markus Schleinzer afirma que o cinema não pode ter tabus.

Michael, de Markus Schleinzer, com Michael Fruit e David Rauchenberger, Austria, 96 min