Comecemos pelo posto de turismo, situado na Praça do Giraldo, ponto de confluência de eborenses e visitantes da cidade Património Mundial da Humanidade. "Quero fazer uma visita a Évora durante a manhã, estou interessado no património", digo. "Está em Évora, não podia estar interessado noutra coisa", retorque, com uma sibilina pronúncia do sul. "Poder, podia! Por exemplo, na gastronomia, nos produtos gourmet, nos restaurantes." Calei-o. De seguida, passa-me um mapa da cidade, assinala o Templo de Diana ("o ex libris da cidade", diz), a Sé, a Igreja de São Francisco e a sua arrepiante vizinha, a Capela dos Ossos, o Aqueduto da Água da Prata... Começa a viagem.

Primeiro, à igreja de São Francisco, esse monumental templo, engrandecido pela devoção dos reis D. João II e D. Manuel I. A porta está aberta, a nave de 24 metros de altura vazia. É um monumento gótico-manuelino, que se acolheu no espaço da antiga igreja do convento franciscano. Infelizmente, o muito que gostaria de saber sobre as 12 capelas situadas nas paredes laterais e a que se acoitou sobre o transepto ficará para outra altura, pois as informações são apresentadas em cartazes miseráveis com textos incoerentes - um aluno do secundário, numa manhã, faria melhor.

Os pobres turistas do norte da Europa devem nas suas guturais línguas maternas expressar frustração semelhante à minha, o que não os impede, a eles e a mim, de prosseguir por uma porta lateral situada na fachada do edifício, rumo à Capela dos Ossos. Antes de se entrar no espaço forrado de ossadas, construída nos séculos XVI e XVII no antigo dormitório dos frades, pode-se observar a sala do capítulo do antigo convento, mandada construir por D. Manuel I, forrada a azulejos que representam as cenas da Via Sacra. Sei que a intenção dos frades era a de chamar a atenção para o curto trânsito mundano dos homens, mas como nunca fui bafejado pela fé numa vida pós-humana, evito entrar na capela  - ainda me recordo dos sobressaltos que uma visita na infância me provocaram...

Também aqui, na antecâmara do mais enigmático e dramático monumento de Évora, faltam dados para interpretar a história e compreender o património. "Não vendem nenhum livro sobre a capela ou a igreja?", pergunto à funcionária da bilheteira. "Só temos postais", diz. "Procurava algo um pouco mais sofisticado, com imagens e textos explicativos", esclareço-a. "Só se comprar aí fora, nas lojas de artesanato", diz, aludindo aos guias sobre Évora, pobre consolo para uma alma necessitada de um pouco mais de informação sobre os franciscanos e o papel da realeza portuguesa de Quinhentos na reconfiguração deste espaço de culto.

No mercado do largo da igreja, um edifício do século XIX rejuvenescido por uma saudável recuperação arquitetónica, saro as feridas da experiência anterior. Há muitas bancas de queijos de ovelha e de cabra, de meia cura. Parecem apetitosos, mas tomei o pequeno-almoço há menos de um hora e não me aventuro por ali. Na cave do edifício, "antiga cisterna onde os comerciantes guardavam o peixe do mercado", funciona agora uma loja de vinhos. O esclarecimento da frase anterior foi prestado por Sara, a diligente funcionária da empresa Divinus Gourmet, concessionária do espaço.

A loja tem uma competente seleção de vinhos nacionais, sobretudo alentejanos, de azeites extra virgem - vejo pela primeira vez à venda as garrafas da Quinta de São Vicente, que há cinco dias visitei, em Ferreira do Alentejo -, de queijos e presuntos de porco alentejano. Sara explica que há dois anos abriram portas, que o negócio correu bem apesar do descalabro económico do país, mas há um mês a afluência começou a diminuir. "Durante a Semana Santa a vinda de turistas espanhóis talvez melhore o negócio", deseja a sorridente Sara, animada por um visitante que lhe puxa pela língua.

Fique Sara na sua cave, rumemos ao jardim que envolve o Palácio de D. Manuel ou ao que deste resta, reduzido por guerras, desmoronamentos e incêndios a este elegante Paço das Damas, espaço municipal que agora colhe exposições temporárias. Gotas de chuva grossa e um vento arisco obrigam-nos - o périplo tem sido realizado com o muito conversador e animado fotógrafo José Caria - a atravessar o jardim, procurando refúgio no hotel. Mas antes, olho para o Tribunal da Relação de Évora, cuja porta fica mesmo em frente do acesso ao jardim.

É magnífico o que daqui a vista alcança. A entrada dá acesso a um pátio coberto - devia acolher carruagens - e dali vislumbra-se o início de um jardim que se anicha na muralha da cidade, fronteiriço ao Rossio de Évora. Dados os bons dias ao segurança com toda a simpatia ao meu alcance, tento esgueirar-me, evadir-me, alcançar as escadas e subir ao patamar onde se instalou o jardim. "Não pode, é privado", diz-me o segurança. "Privado não é, trata-se de um tribunal", repondo-lhe, pronto. "Bem, não é privado, é público, mas não está aberto ao público", corrige-se e corrige-me o dito segurança. Não tenho para o convencer outros recursos (valeria a pena ter-lhe dito que era jornalista?), por isso afasto-me. A visita ao Palácio Barahona, residência civil de um abastado lavrador do século XIX, terá de ficar para outra - a haver - oportunidade.

Feita a experiência de saber que nem todos os espaços públicos são para o público, ponho-me a refletir sobre a apropriação privada do bem público, mas rumorejam-me a cabeça tantos casos que decido ir para o hotel. Este é um bem privado, que por 24 horas será meu, depois de uma semana agitada a bordo de uma autocaravana pelo Baixo Alentejo. Tomo banho, deito-me e adormeço.