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Cultura: Arqueólogo Cláudio Torres diz que é preciso "apagar" visão errada sobre civilização islâmica

Lusa Cultura

Évora, 13 Mar (Lusa) - O arqueólogo Cláudio Torres defendeu hoje a necessidade de "apagar" a visão errada sobre a civilização islâmica e lembrou que, durante cinco séculos, "a língua de cultura" no sul da Península Ibérica foi o árabe.

Évora, 13 Mar (Lusa) - O arqueólogo Cláudio Torres defendeu hoje a necessidade de "apagar" a visão errada sobre a civilização islâmica e lembrou que, durante cinco séculos, "a língua de cultura" no sul da Península Ibérica foi o árabe.

"Toda a história portuguesa e os nossos heróis fundadores são fundadores contra alguém e esses são os vencidos, que foram espadeirados, esmagados e chacinados pelas gentes do norte", afirmou à agência Lusa, defendendo que é preciso mudar a forma como se encara esse "mundo dos vencidos".

O arqueólogo e director do Campo Arqueológico de Mértola (CAM) falava à Lusa na Universidade de Évora, à margem de um colóquio internacional, que arrancou hoje, dedicado ao rei-poeta árabe Almutâmide, natural de Beja, e à poesia luso-árabe.

A iniciativa, que termina sábado, é organizada pelo Centro de Estudos Documentais do Alentejo (CEDA), Centro Interdisciplinar de História, Cultura e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora e pelo município local.

Segundo Cláudio Torres, especialista nas matérias relacionadas com a civilização islâmica, a visão actual sobre esta cultura ainda é errada.

"Esse tipo de visão obviamente não está resolvida. Ainda estamos a tentar apagar e retirar toda uma 'ganga' pesadíssima de hábitos culturais, universitários e escolares que continuam a repetir os mouros, os bandidos, os bárbaros e os invasores, quando nada disso existiu", argumentou.

Pelo contrário, continuou, tratou-se de uma civilização "pacífica, ligada à terra e à agricultura, que tinha aqui [no sul da Península Ibérica] uma vida cultural e de cidades que foi destruída pela invasão ocidental".

O "velho" al-Andalus (nome pelo qual era conhecido o território árabe peninsular do século VIII ao século XV), esse sim, frisou o arqueólogo, é que foi "conquistado violentamente pelas gentes do norte, pelos senhores feudais".

A investigação sobre a riqueza cultural e civilizacional do Islão ainda hoje está "no princípio", mas não pode ser dissociada do espaço do Mediterrâneo.

"Hoje estamos a compreender a civilização islâmica como integrada em todo o Mediterrâneo e todos estamos a perceber, depois da guerra do Iraque, que o Mediterrâneo é fundamental para sobrevivermos como civilização, como cultura e como identidade", defendeu.

Sobre o papel dos poetas do Garb al-Andalus (zona ocidental do território árabe peninsular, correspondente a Portugal), Cláudio Torres lembrou que o árabe, nessa altura, "era a língua de cultura", pelo que era no sul, onde existiam as grandes cidades, "que os saberes literário e científico estavam a nascer".

"Não podemos nunca entender a civilização ibérica em toda a sua plenitude sem perceber a contribuição decisiva da língua árabe como língua de cultura, durante cinco séculos", sustentou o arqueólogo, que é "doutor honoris causa" pela UE.

O colóquio internacional em Évora, com a presença de arabistas e investigadores, não apenas nacionais, mas também espanhóis e marroquinos, vai ainda homenagear António Borges Coelho, o "pioneiro contemporâneo do arabismo português" e autor do livro "Portugal na Espanha Árabe".

Para Cláudio Torres, o historiador, antigo docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e um dos fundadores do CAM, foi "decisivo na investigação islâmica" em Portugal e, através do ensino universitário, "meteu nesta aventura milhares de jovens".

"Borges Coelho abriu uma página decisiva na investigação histórica e literária, até como fantástico tradutor da poesia árabe. Ele é o nosso 'papa' e iniciador, é a nossa referência mais importante, para este período", disse.

RRL/MLM.

Lusa/Fim