Quando a noite acabar estarei onde? Tenho viajado tanto assim que me deito, por aqui, por África, por sítios onde nunca fui acordado, pessoas que me olham, falam línguas que não conheço, me apontam com o dedo, ficam paradas a seguirem-me. Cidades estranhas, ruas intermináveis, praças com heróis a cavalo, pontes, lojas. Restaurantes de que não entendo as ementas, empregados que se impacientam e se vão embora. Os outros clientes a comerem e eu sozinho diante do prato vazio. Sei que estou num hotel onde ficou a minha mala e não dou com o hotel: nesta rua, naquela? Não reconheço uma única casa, uma única loja, um único monumento, como é que faço agora? Reparo que me esqueci dos papéis e do dinheiro no quarto, meto as mãos nos bolsos e os bolsos vazios. Passa por mim um sujeito a correr que me grita em português

- Fuja

tento correr atrás dele e as pernas não me obedecem, percebo que existe gente atrás de mim que me espia, me persegue, um segundo sujeito a correr

- Pensa que tem muito tempo?

tiros numa esquina próxima, alguém a chorar, uma mulher ajoelhada a pedir-me auxílio em silêncio, de palmas abertas na barriga, o chão cola-se-me aos pés impedindo-me de caminhar, o professor da minha escola aponta-me uma arma, ordena-me

- Diz o presente do indicativo do verbo chover

sou crescido e o professor não mudou nada, de cabelo preto, feio, a tirar pêlos do nariz e a acender cigarros, dá-me, por dó, uma última oportunidade

- Os afluentes da margem esquerda do Douro, ignorante

ou

- As serras do Sistema Galaico-Duriense, palerma

começo Peneda, Suajo, Gerês, Larouco, Falperra, encravo em Falperra, anuncia

- Vais acabar servente nas obras, tu, não vales nada

e tem razão, senhor André, não valho nada, os afluentes da margem esquerda do Douro nem um para amostra, lembro-me dos dois últimos da margem esquerda do Tejo e é um pau, Almansor e Coina, digo, quase em triunfo

- Os dois últimos da margem esquerda do Tejo Almansor e Coina

mas entretanto o senhor André desapareceu, os meus colegas não chegaram a existir, estou no gabinete de um coronel que me anuncia

- Tem que ir para a guerra em Angola

argumento que já fui à guerra em Angola, o coronel manda-me calar com um gesto

- Precisamos de si no Leste como guia

nem sequer oficial, como guia, o coronel

- Apresente-se ao primeiro sargento amanhã sem se despedir de ninguém

o primeiro sujeito volta a passar por mim a correr

- Não ligou aos meus avisos

o primeiro sargento à secretária, sem levantar a cabeça para mim

- Não sabias os afluentes da margem esquerda do Douro e portanto nem a cabo podes ser promovido

comigo a pensar

- Se me põem à frente de uma coluna como dou com o alvo?

com o mesmo camuflado que atirei para o lixo antes de embarcar e recuperaram não sei como, desbotado do sol, rasgado, velho, não me entregam uma G3, entregam-me um canhangulo que nem gatilho tem, arrisco

- De que é que isto me serve?

o alferes, que não conheço

- Desenrasca-te

cheiro de mandioca nas esteiras, a bicha do pirilau já formada, à espera, um furriel

- Vais à frente

 comigo a evitar os trilhos, atento a pegadas, sinais, um morro à esquerda, o capim maior do que eu, silêncio, o senhor André logo a seguir a mim

- O que é o nome predicativo do sujeito, ignorante?

as rações de combate pesam, o cantil pesa, as botas pesam, o alferes

- Onde é que me arranjaram esse guia?

o senhor André a esclarecê-lo

- Foi o pior aluno que em trinta anos de ensino me apareceu na escola

parece-me ter batido num fio de tropeçar de modo que uma granada vai salvar-me à altura das partes, se disser muito depressa os afluentes da margem esquerda do Douro ainda me salvo mas os afluentes escapam-me, não é o estrondo da granada que me incomoda nem ter perdido as pernas, é o nome predicativo do sujeito que me preocupa, o meu pai, apesar de morto, diante de mim

- Desculpa confessar-te mas não vales grande coisa, filho

a minha mãe

- Há quanto tempo te preveni disso, João?

o meu pai, a acender o cachimbo

- A gente engana-se

o meu irmão Pedro, ao lado dele

- Palavra que é uma situação que não nos agrada, António

sinto vagamente a chegada do helicóptero, o piloto para o alferes

- O guia deixa-se ficar aí, o que nos interessa um guia?

de modo que fico ali sozinho numa clareirazita enquanto eles se afastam, sem papéis nem dinheiro nos bolsos, numa cidade estranha, ruas intermináveis, praças com heróis a cavalo, pontes, lojas, instalado no restaurante diante do prato vazio, sem entender uma só palavra da ementa.