Havia um anúncio sobre pré-confeccionados em que dois cozinheiros supostamente italianos se punham a discutir: um insistia que o segredo estava na pasta; o outro retorquia que estava no molho. No caso da grappa (uma espécie de aguardente típica do norte de itália) da marca Nonino o segredo está numa combinação rara de alquimias e destilações de um tipo de uva muito selecionado, com mais de um século de depuração (desde 1897); não, o segredo está na garrafa, no design feminino, que faz com que a "bottiglia" mais pareça um frasco de perfume do que de aguardente; não, o segredo está num marketing muito inteligente e engenhoso que conseguiu transformar uma bebida tradicionalmente associada à pobreza e ambientes rústicos num produto altamente sofisticado, caro, consumido em meios elitistas; não, o segredo está na família (ou não estivéssemos nós em Itália) matriarcal, uma "nonna", três filhas, Cristina, Antonela, Eisabetta e sete netas (apenas um neto rapaz) que toma a cargo o negócio, a imagem e a marca; não, o segredo está na criação de um prémio internacional (o prémio Nonino existe há 39 anos), que distingue alguns dos mais prestigiados vultos da literatura e da ciência em todo o mundo, alguns deles posteriormente "nobelizados" (como V. S. Naipul, Tomas Transtromer, o chinês Mo Yan ou Peter Higgs), e que acrescenta à grappa Nonino todo um gosto extra a elegância, requinte, com tanto teor de álcool como de alta cultura (e só este evento que mobiliza mundos e muitos- mas mesmo muitos - fundos vale mais do que qualquer anúncio ou publicidade); não, o segredo está em tudo isto junto. Foi assim que António Lobo Antunes (um dos premiados deste ano) veio parar a esta cidade do nordeste de itália (numa zona rural e industrializada), pouco turística, junto a Veneza, tão perto do mar, quanto das montanhas alpinas cheias de neve nos cumes, mais conhecida pela sua grappa (lá está), por ter uma tradição secular de construção de cadeiras (exportadas para todo o mundo), pelo presunto San Daniele e que tem como prato típico o "frico": batata cozida com queijo derretido. Foi assim que Lobo Antunes, que oscilava entre a satisfação e o seu habitual ar negligé, um misto de indiferença estudada e provocação, se viu nos salões de festas faustosas, servido por famosos chefs de cozinha, nas mesas em que se sucediam pratos de haute cuisine, e até um peixe gigante inteiro, exibido triunfalmente (comentário do escritor: "olha, o peixe do Hemingway"), rodeado de mulheres belíssimas de vestidos de gala ("elas são tão simpáticas, e cheiram tão bem, e não repetem a toilette; cada vestido dava para nós vivermos durante um ano, basta passar a mão pelos tecidos para se perceber..."  

Na cerimónia de entrega (sábado, dia 25) com uma assistência de mais de 600 convidados (muitos deles ilustres figuras de Itália) - comentário de Lobo Antunes: "era tão bom que toda esta gente lesse" - ante os principais meios de comunicação daquele, entre coros e dança tradicional, os fornos da destilarias e as omnipresentes garrafas de grappa, o prémio do escritor português foi-lhe entregue por Claudio Magris, com um entusiástico elogio. Juntamente com o escritor português foram premiados o filósofo francês Michel Serres (entregue por Edgar Morin), o psiquiatra italiano Giuseppe Dell'Acqua (entregue por António Damásio) e a palestiniana, activista e escritora Suad Amiry (entregue pelo poeta sírio Adonis), que dedicou o prémio também à sua cadela: é com o passaporte do cão que entra em Jerusalém.

  E se a família Nonino conseguiu desarmar todas as relutâncias e aquela fleuma altiva do escritor português, "destilavam" exuberância e simpatia, com um luxo, que sem ser nada discreto, não ostentava mau gosto ou qualquer exibicionismo provinciano, os jornalistas desconcertavam-se... Eles indagavam da sua relação com escritores italianos, como Tabucchi, e António Lobo Antunes divergia e citava políticos portugueses: "Aos amigos nunca se mente. À pide e às mulheres mente-se sempre". Prefere falar de Salgari, "tive a sorte de o ler na altura certa", de Italo Calvino, "a sua morte foi uma perda para toda a gente que gosta de literatura", do amor "que é feito de atenção delicada", de sexo, "sexo sem amor dá vontade de tomar banho por dentro" e das mulheres, "não há mulheres fáceis: ou são dificílimas ou impossíveis". Detestava ser mulher, admite, "ainda tinha de aturar um parvo a dizer mentiras, convencido que era capaz de conquistar uma mulher, quando na realidade, quem escolhe são elas. E eles, feitos tontos, já foram escolhidos mas não percebem, porque elas são generosas e convencem-nos disso". Recusa a ideia de que a estrutura narrativa dos seus livros, em que muitas vezes os tempos e as vozes se cruzam, seja uma técnica literária, aliás irrita-o a "proeza técnica" ("um livro tem de ser um murro, tem de agarrar o leitor pelo pescoço"), e está cada vez está mais convencido de que não há presente, passado ou futuro: "Existe um enorme presente em que nunca abandonamos as pessoas de que gostamos. Se eu ainda hoje sinto o cheiro de casa dos meus avós, isso quer dizer que eles já não existem?". Prefere não se pronunciar sobre escritores, "porque confundimos sempre paixões com ideias e não somos capazes de abdicar das nossas paixões", volta-se, antes, para aqueles que nunca se desvalorizam na sua bolsa de valores pessoal: Ovídio, Horácio e Virgílio. E cita o general do século XVII Montecuccoli, "que sem saber fez mais pela teoria da literatura do que qualquer académico" ao dizer "é preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos, mesmo sabendo que ela é careca". Depois de um cancro no intestino, dois em cada pulmão, uma operação e tratamentos agressivos de quimioterapia, Lobo Antunes faz como Sócrates que quis aprender a tocar lira, mesmo sabendo-se condenado. De que te serve?, perguntavam-lhe os amigos: "Serve para tocar". "O que me interessa a mim ter estátuas equestres? A minha única chance é segurar uma caneta. Talvez haja dentro de nós uma esperança de eternidade. E de que algo nos salve, e de que... olhe, de que haja manhã...". E novamente Hemingway: "A morte pode destruir-me, mas não me mata".

Sente a mágoa da partida dos amigos, "sempre gostei de homens mais velhos", acorda a chorar pelo irmão Pedro, que morreu recentemente, "parece que a família ficou coxa", confidencia, atormenta-o ter perdido parte da sua beleza física - "agora sou apenas um senhor com alguma charme" -, mas está convencido que a beleza de Paul Newman "impediu que percebessem o grande actor que era". Declara, perante os jornalistas aglo desconcertados, "que se Claudia Cardinalle escrevesse, faria livros épicos". Mas tem pena das escritoras mulheres "coitadas, os homens sentem-se intimidados, e estão sempre a tirar ilações do que elas escrevem". Ainda se sente capaz de cometer loucuras, de mudar completamente a sua vida, de ter alegrias súbitas, quando se sabe traduzido no Irão ou na Etiópia. "É tão fácil dizer amo-te e nunca dizemos. E ficamos com a ternura no colo como um bebé, sem saber o que fazer dele". E logo o raciocínio se vira para o Papa Francisco: "É conservador e populista porque diz coisas que os outros não eram capazes  e como andamos todos com esta sensação de sermos mal-amados, ficamos com esta ilusão de que o papa vai mudar as coisas... Não vai."

Ao fim de três dias, Lobo Antunes dá sinais de inquietação. Tanta atenção, tanta ternura e alegria também cansam. "Elas abraçam-me", consente, "mas não são abraços apertados". Está farto de jantar com gente erudita, de conversas existenciais. Apetecia-lhe citar Walt Whitman: "i like animals because they don't discuss the existence of god". Cansado de ser polido, mas seduz os locais, quando se põe a trautear músicas italianas que sabe de cor. Eles pedem um fado, dizem que a língua portuguesa é "belíssima", parece, ela mesma, "um canto". Lobo Antunes não lhes fará a vontade, mas já no aeroporto (adora passar horas nas portas de embarque a reparar nas pessoas, adora os corrimãos das passadeiras, adora comida de avião "é como brincar aos jantarinhos, deviam abrir um restaurante só disto") confessa que o jazz,  que o pai lhe dava a ouvir, o ajudou a "aprender a frasear". Ainda ofereceu o primeiro livro ao pai, ele chamou-lhe "livro de principiante": "também foi o único que lhe ofereci, não levou mais nenhum". Está impaciente por chegar a casa, aquela região traz-lhe amargas recordações infantis: aos nove anos foi fazer a primeira comunhão a Pádua, e perdeu-se dos pais na Praça de São Marcos, em Veneza, deixou-se ficar sentado em cima dos leões: "Andei pelas ruas sozinho, a chorar, uma angústia terrível. Anoiteceu e lembro-me da cara dos meus pais quando me encontraram, tão aflitos que nem se zangaram comigo". Está com saudades. "Tenho saudades de Lisboa, tenho saudades do mau gosto, tenho saudades de ouvir dizer 'esta gaja é tão boa'. E o poder de síntese desta frase, já viu?"