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A VISÃO desta semana oferece "O Jogador", de Dostoievski

Ler Faz Bem

O efeito hipnótico do jogo. Dostoievski conhecia a euforia da roleta e, a partir daí, escreveu O Jogador. Uma novela que congrega muito do que foi a sua literatura: um mergulho ao interior do indivíduo para dissecar o que há nele de mais vulnerável. É o décimo livro do projeto da VISÃO Ler Faz Bem. Grátis com a VISÃO de dia 4 de outubro

Isabel Lucas

Escrever um romance onde o tema é o vício do jogo de que sofre o próprio escritor e terminá-lo quando acaba o prazo para pagar uma dívida de... jogo. Eis a génese de 
O Jogador. Publicado originalmente em 1866, o mesmo ano em que saiu Crime e Castigo, O Jogador decorre em território biográfico e ficcional, dissecando uma experiência próxima da do seu autor, Fiódor Dostoievski, e nisso sintetizando muitas das características da literatura produzida pelo escritor russo: olhar crítico em relação ao mundo, personagens com uma grande consciência de si no que isso tem de mais castrador ou gerador de energia, uma compulsão para a autodestruição, atenção à fronteira entre lucidez e estados de loucura que levam a comportamentos ou decisões extremas. Estamos no interior dos homens e é essa a grande perspetiva da escrita de Dostoievski. Com ele, entramos na consciência, seja de quem ama, de quem comete um crime, decide pela própria morte ou a morte do outro ou de alguém a quem, como ao protagonista de 
O Jogador, falta qualquer ideia acerca do que fazer com a sua vida. O ambiente em volta não lhe molda o caráter, mas provoca-lhe um comportamento: descobre-se um jogador compulsivo.

O Jogador é uma obra de ficção só autobiográfica no sentido em que fala de uma compulsão que Dostoievski conheceu. O resto é criação literária. Narrado na primeira pessoa por Alexis Ivanovitch, rapaz atento ao que o rodeia e que serve um general reformado, o livro está entre a paródia, ou melhor, a sátira, e o quase sempre funesto destino do jogador compulsivo, aquele que, como Dostoievski, sabe da compulsão e ainda assim regressa sempre à roleta porque nessa sempre adiada derradeira volta dos números pode estar a solução. Solução para quê?

Alexis tem uma teoria – “(...) a roleta não foi inventada senão para os russos” – e acrescenta uma nota civilizacional para se reter no que considera um dos traços definidores do povo a que pertence: “(...) No decurso da história, a faculdade de aforrar capitais entrou no catecismo das virtudes e dos méritos do homem ocidental civilizado, tornando-se talvez o principal ponto de fé.

Ao passo que o russo não só é incapaz de aforrar capitais, mas até os gasta a torto e a direito sem o menor sentido das conveniências. Seja como for, nós, russos, também temos necessidade de dinheiro (...). Por isso recorremos sofregamente a processos como a roleta, com a qual se pode ganhar uma fortuna em duas horas, sem trabalhar. Isso fascina-nos, e como jogamos à toa, sem nos constrangermos, acabamos por perder!”

Alexis sabia pouco do jogo quando chegou à cidade alemã de Roletemburgo, um ambiente de casinos, cenário familiar ao próprio Dostoievski, desde que começou a jogar em Wiesbaden em 1863, até à ultima jogada, oito anos depois, em 1871. Quando Alexis diz “um jogador exercitado sabe o que significa o ‘capricho do acaso’”, é Dostoievski quem fala, como é dele a sensação descrita pelo protagonista acerca do sentimento que vulgarmente toma conta de quem está em frente à roleta: “Eu era um jogador: senti-o nesse preciso momento. Os braços e as pernas tremiam-me, as têmporas batiam-me.”

Alexis Ivanovitch é o precetor das crianças do general, um serviçal sem dinheiro para apostar. Vê movimentações à volta. O general aposta tudo. Num casamento e na roleta que lhe há de trazer de volta todos os seus bens que foram parar as mãos de dois franceses. Dívida de jogo. Resta-lhe continuar a jogar e esperar que a avó morra e que a herança chegue para recuperar o que é seu. “Sabe que ele emprestou dinheiro ao general contra a hipoteca de todos os bens? Se a avó não morre, o francês entra imediatamente na posse da caução”, conta-lhe Pauline, enteada do general, pondo-o a par do que ele pressentia ser a grande angústia familiar: ficar sem nada. Mas, em vez de morrer a avó, chega a Roletemburgo e começa a jogar e a perder, levando Alexis com ela, como acompanhante, como companheiro de jogo, porque em Roletemburgo não parece haver como não jogar, mesmo sendo um crítico do sistema.

É o mote para Dostoievski escrever sobre o poder transformador do dinheiro. Social e de caráter. A avó deixa de ter fortuna, o general deixa de poder ter a ambição de sossegadamente voltar a ter os seus bens, as pessoas à volta reposicionam-se numa teia que o escritor tece habilmente, revelando as fraquezas e patologias mentais de personagens inesquecíveis. Caso de Madame Blanche, a candidata a mulher do general, e do próprio Alexis, o que sabe que o veem como serviçal, um escravo, um homem apaixonado que faz tudo para conquistar quem ama e se vai moldando ao ambiente em que vive. “Não vejo, decididamente, nada de indecente no desejo de ganhar depressa e o mais que for possível. Sempre achei inepta a ideia desse bem alimentado e refastelado moralista que, ao alegarem-lhe serem pouco vultuosas as quantias que se jogavam, respondeu: ‘É ainda pior, porque se trata de cupidez mesquinha.’ Como se a cupidez mesquinha ou a cupidez perdulária não fossem uma e a mesma coisa! É uma questão de proporções.” E tudo isto com grandes doses de ironia.

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