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O que escreveu António Lobo Antunes no prefácio de 'A Morte de Ivan Ilitch', de Tolstoi

Ler Faz Bem

André Moreira e Vânia Maia

O dilema filósofo à volta da morte resultou num livro onde Tolstoi indaga sobre a vida. A Morte de Ivan Ilitch, o nono título da coleção Ler Faz Bem, é oferecido esta semana com a VISÃO

Em A Morte de Ivan Ilitch, tudo começa na morte para se saber da vida. Como o título indica, o livro conta a fase final da vida de um homem de 45 anos. “A morte. Sim, é a morte. 
E todos eles, que não sabem, que não querem saber. Divertem-se (ouvia através da porta o falatório, cantorias). Não lhes importa, mas hão-de morrer também. Imbecis! Vou primeiro, mas em seguida será a vez deles. Lá chegarão. Mas agora divertem-se, os estúpidos animais!”, Ivan sente-se doente, consciente do fim, e sente “raiva” – é a palavra usada – por quem levianamente ignora essa inevitabilidade e segue a vida sem esse horizonte derradeiro.

Leo Tolstoi escreveu este livro em 1886, quase dez anos depois de Anna Karenina e 17 após Guerra e Paz. Tinha 58 anos. 
“A história de Ivan Ilitch era das mais simples, das mais vulgares e das mais atrozes.” Esta simples frase contém a contradição que fez parte da existência de Tolstoi e contaminou toda a sua obra. As suas personagens partilham com ele a ambiguidade perante o mundo, questão complexa cuja formulação simples ele persegue obsessivamente através de uma escrita despojada, no osso, não dando nunca mais do que o crucial. Fica o essencial para se saber dos estados de alma, dos ambientes, da tipificação das personagens. E uma simples hesitação pode dizer tudo acerca de alguém. Como saber de Piotr Ivanovitch, um dos amigos mais próximos de Ivan, no momento em que entrou no quarto mortuário. “Entrou, sem saber muito bem, como sempre acontece em tais conjunturas, como havia de proceder. Só uma coisa sabia: era que em tais circunstâncias um sinal da cruz nunca é de mais.”

Ao ler Tolstoi, o dos romances extensos como o dos livros breves ou dos contos, o leitor está perante um exímio narrador capaz de suscitar todo o tipo de emoções numa difícil gestão de linguagem, limpa de excessos, fruto da tal observação panorâmica, inclusiva. Estamos dentro do universo criado pelo escritor, sabe-se tudo como ele parecia saber, acha-se que por momentos também se achava um Deus. Essa sensação de cumplicidade divina talvez explique o fascínio que a obra de Tolstoi causa em quem a lê.

Nascido em setembro de 1828, morreu vítima de pneumonia, aos 82 anos, na pequena estação de comboios da vila de Astapovo, duas semanas depois de ter saído de casa e de ter deixado a família com a intenção de se viver uma vida de deambulação e despojamento. Deixou uma carta à mulher, dizendo que ia fazer o que um homem da sua idade devia fazer.

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