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VISÃO oferece 'O Grande Gatsby', o romance do sonho americano

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Há livros em que os rótulos podem e devem ser usados: O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, é uma obra icónica, símbolo de um tempo, dos valores de uma década do século XX, dos loucos anos 20. O quinto volume a integrar o projeto da VISÃO Ler Faz Bem. Grátis com a VISÃO desta quinta-feira

Isabel Lucas

Há quem diga que o sonho americano é uma invenção europeia. Tem, no entanto, uma marca muito própria. É um sonho em que ser rico e ter êxito são sinónimos. O Grande Gatsby, terceiro romance de F. Scott Fitzgerald, e considerado a sua grande obra, tem a marca desse sonho ao pôr em contraponto dois homens, polos opostos da materialização desse sonho: Jay Gatsby e Nick Carraway.

Publicado em 1925, o livro situa-se na aldeia ficcional de West Egg, em Long Island. Nick Carraway acaba de chegar e observa a existência do milionário Jay Gatsby. Logo na primeira página, o leitor é informado do sentimento que lhe suscita o novo vizinho. “Gatsby, representante de tudo o que mais sinceramente desprezo.” É possível ter simpatia por alguém assim? Carraway é o narrador, uma primeira pessoa atenta ao protagonista, Gatsby. Quando o conhece, não esconde o efeito de contradição que o encontro lhe suscita: “O seu [sorriso] era um desses raros sorrisos que têm o eterno dom de infundir confiança, um sorriso como só encontramos quatro ou cinco vezes na vida. Encarava – ou parecia encarar – por um breve instante todo o mundo exterior, e depois concentrava-se em nós com um irresistível preconceito a nosso favor.

Compreendia-nos na exata medida em que queríamos ser compreendidos, depositava em nós a fé que gostaríamos de depositar em nós próprios, e garantia-nos que tinha de nós, sem tirar nem pôr, a impressão que esperávamos ser capazes de transmitir nos nossos melhores momentos.”

Na relação que se estabelece entre ambos, Fitzgerald explora temas como a ambição, a decadência, a posse, a obsessão, descendo ao mais íntimo da existência humana, e revelando-os nos seus paradoxos. Tudo a partir da alta sociedade norte-americana, sobretudo a nova-iorquina, atinge a plenitude da sua exuberância no subúrbio rico de Long Island e das suas mansões.

Estamos no ano de 1922. “Foi por puro acaso que arrendei casa numa das mais estranhas comunidades da América do Norte. Ficava ela nessa estreita e tumultuosa ilha que se estende para leste de Nova Iorque – e onde existem, entre outras curiosidades naturais, duas formações geológicas invulgares. A 20 milhas da cidade, um par de ovos enormes, idênticos nos contornos e separados apenas por uma mimosa baía, avançam mar adentro na mais mansa massa de água salgada do Hemisfério Ocidental, o grande e húmido terreiro do Estreito de Long Island.” É aí que fica a mansão de Gatsby, um homem pertencente ao chamado dinheiro novo, sem um passado de boas famílias, que conquistou e que fez tudo para conquistar Daisy, pertencente ao que se pode designar de aristocracia americana, aqui representada pelo dinheiro velho, coisa que no caso da América pode não ter mais de duas gerações. “Por muito glorioso que viesse a ser o seu futuro sob o nome de Jay Gatsby, por enquanto ele era apenas um rapaz sem dinheiro e sem passado, e o manto invisível da farda podia a qualquer instante escorregar-lhe dos ombros. Por isso aproveitou o tempo o melhor que soube. Arrebatou tudo o que estava ao seu alcance, avidamente e sem escrúpulos – e acabou mesmo por arrebatar Daisy, numa noite calma de outubro, levado a possuí-la, no fundo, por não ter sequer o direito de lhe agarrar a mão.”

O olhar é sempre o de Carraway, ele é o mediador entre Gatsby, observador nato do meio que o envolve, na maioria formado por gente que adora festas, ser vista, imitar maneiras que as tornem aceites, pertencer a um mundo que, para elas, é o único que existe. E ter dinheiro. Ao descrever este ambiente, Fitzgerald socorre-se da sua própria biografia e transpõe para a sua prosa muita da influência de poetas que o formaram. Entre eles, o inglês John Keats e o americano T. S. Eliot. Carraway descobre em Gatsby alguém que não corresponde por completo ao estereótipo do mundo onde vive. “Todas as confidências que me fez, mesmo as mais confrangedoramente sentimentais, despertaram em mim não sei que reminiscência – um ritmo esquivo, um fragmento de palavras perdidas, ouvidas algures, havia muito tempo. Uma frase tentou por instantes ganhar forma na minha boca e os meus lábios apartaram-se como os de um mudo, como se entre eles se debatesse algo mais que um sopro de ar desconcertado. Mas não se ouviu o mais pequeno som, e esse não sei quê de que estivera prestes a lembrar me permaneceu para sempre incomunicável.”

Eram os tempos áureos da América que pouco faziam prever o que se seguiria, parecendo confirmar o desacerto sobre o qual o país foi fundado. A contradição de Gatsby, e simultaneamente o fascínio que ele desperta, apesar da falta de rumo que sente, são também a metáfora de um país atual, em ciclos de ascensão e queda e de uma invulgar capacidade regeneradora, mesmo sobre feridas que não curam. Entre elas, a exclusão, por classe, por raça, por educação, e que Fitzgerald retrata em diálogos que se tornaram referência. Era o auge do jazz que antecedeu a Grande Depressão que alterou prioridades, mas nem assim o romance ficou desatualizado. O essencial estava lá, o indivíduo numa paisagem que o formou para ser único, vencedor, mas tantas vezes incapaz de comunicar a fragilidade, o medo, a inconsequência. Carraway conta a história de Gatsby, do seu impulso, revelando-se nela e revelando uma América e a sua obsessão por uma ideia: ser bem-sucedido. Intemporal.

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