Convite aos Leitores: Deixe aqui a sua Opinião
Página inicial | Opinião | José Luís Peixoto

Página 1 de 4 1 | 2 | 3 | 4 |

Boné

Não faltam opções e regalias aos escritores. São artistas e, se quiserem, podem pentear-se raramente
Na loja, julguei que estava perante uma oportunidade. Com esse entusiasmo, levei-o à caixa e paguei-o. Diante de todas as vantagens que propunha, pareceu-me barato.

É raro colocar um chapéu na cabeça sem me sentir ridículo, mas não foi essa a impressão que tive com aquele boné. Achei-o confortável e, sem exagerar, acreditei que eu era aquela pessoa ou, pelo menos, aquela era a pessoa que eu queria ser. Quando cheguei a casa, no entanto, comecei a duvidar.

Nunca vi um escritor com um boné como aquele. Depois de muita reflexão, inclino-me a concluir que nunca houve um escritor que usasse um boné como aquele. Quem sou eu para achar que posso fazer o que nenhum outro fez? Se eles, tantos e tantos, durante séculos, tomaram a decisão unânime de não usar um boné como aquele, algum motivo sólido os terá apoiado. Quem sou eu para contrariar essa sabedoria acumulada?

É permitida a publicidade. O poeta Alexandre O'Neill fez alguns slogans muito conhecidos, que não estou a conseguir lembrar agora, e o Fernando Pessoa também teve qualquer coisa a ver com essa área. O álcool é permitido: Faulkner, Carver, Hemingway, Capote, Scott Fitzgerald, citando apenas alguns exemplos americanos.

O boné não é extravagante. A questão não é essa. A extravagância é permitida. Dentro de certos parâmetros, a extravagância é uma qualidade apreciada, necessária mesmo, faltariam páginas aqui para citar todos os grandes exemplos.

Agora, culpo a música da loja, a baralhar-me o discernimento, culpo a fraca iluminação, certamente propositada, e culpo o pequeno espelho em que me pude ver. O boné está ali, sobre a mesa, e não consigo saber como cheguei a achar que um escritor poderia usá-lo. Camilo, Eça, Torga ou Saramago com um boné como aquele seriam uma caricatura de si próprios. Peço humildes desculpas por sequer sugerir essa imagem.

Ainda assim, realmente grave seria a ofensa aos leitores.  Com toda a probabilidade, se me vissem com esse boné teriam a leitura dos meus livros arruinada. Como poderiam aceitar conhecimento ou lirismo vindos de um indivíduo com um boné como aquele? Não podiam. Seria uma incongruência flagrante que, com toda a certeza, destruiria qualquer relevância que pudesse existir nas obras que escrevi e escreverei, seria como uma praga de térmitas.

Os leitores não têm culpa das más escolhas dos escritores e, como tal, não devem pagar por elas. Possuem todo o direito de esperar que os escritores se comportem dentro daquilo que é legítimo e, se decidirem surpreendê-los, o que também é permitido, que o façam de modo aceitável.

Fumar cachimbo, por exemplo. Repare-?-se que não há qualquer voz de oposição contra escritores que fumem cachimbo, pelo contrário. No caso de estarem em lugares onde seja interdito fumar, podem mesmo raspar aquela cinza preta, sem que ninguém lhes dirija qualquer repreensão. Cada escritor que não fuma cachimbo é um ingrato perante as expectativas que o rodeiam. E o blazer? Que mal tem o blazer? Tomara outras pessoas, noutras áreas de atividade, contarem com essa aceitação para com uma peça que ninguém se preocupa em verificar se está lavada ou não. Aliás, é mesmo desejável que o blazer não esteja lavado. Os leitores têm todo o direito de não imaginar os seus escritores preferidos a fazerem máquinas de roupa, a escolherem o detergente, o amaciador ou a determinarem a temperatura da água. Não faltam opções e regalias ao escritores. São artistas e, se quiserem, podem pentear-se raramente. Dispõem de uma variedade de penteados que, na sua maioria, não estão ao alcance de empregados de escritório ou de funcionários que lidem com o público. Além disso, se forem adeptos do rigor, podem até usar os penteados dos ditos funcionários.

Os escritores não têm razões de queixa. Não faltam roupas e possibilidades ao seu alcance. Com a exceção, claro, daquele boné.

Boné? Eu disse boné? Peço desculpa, enganei-me. Quando disse boné, queria dizer: piercings, tatuagens, responder a questionários de verão, ir a programas televisivos da manhã, folhear revistas cor-de-rosa na bomba de gasolina, ir a festivais de música e cantar em voz alta, ter página no facebook, comer cachorros quentes na roulotte.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1147, de26 de fevereiro | | Comente

As palavras invisíveis

Os segredos retiram lógica ao mundo. Aquilo que se omite priva os outros de compreenderem as razões dos episódios a que assistem
Procuro o meu bloco de notas em lugares onde já procurei. Tenho a esperança que, desta vez, por qualquer milagre, possa estar lá. Não é um bloco extravagante, é preto e simples, vejo-o na memória enquanto procuro. Há aquilo para que olho, está à minha frente com todas as suas formas, e há este bloco de capa preta que quero encontrar e que é concreto na minha lembrança, como uma imagem projetada sobre aquilo que existe, como um slide antigo, e não adianta estender a mão para agarrá-lo, não está lá, os dedos atravessariam a luz dessa projeção colorida e imaterial.

Tento recordar a última vez que segurei o bloco de notas, ontem. Sei que estava em casa, isso é certo, mas apenas lembro a sensação viva de ter descoberto um bom lugar para o guardar. Talvez dentro de uma gaveta, talvez debaixo de alguma coisa, talvez entre dois livros que, naquele instante, me pareceram especialmente simbólicos. Escondi-o tão bem que, agora, nem eu próprio o consigo encontrar.

Conheço blocos de notas de grandes escritores, edições fac-similadas, póstumas. Os meus cadernos não são assim. Encho-me de pudor com a simples referência mental às anotações que faço: frases muito distantes de chegarem a verso, listas de tarefas, ideias sem forma, fragmentos meus, nus, inocentes, a exporem aquilo que não quero mostrar. Não são restos de mistério, não têm aquela imperfeição cuidadosa, perfeita. Aquelas páginas sou eu em cuecas, acabado de acordar, zombie; sou eu despenteado, camisola com nódoas, meias sem elástico; sou eu adormecido no sofá, diante da televisão acesa, a babar-me.

Na semana passada, estacionei o carro num lugar diferente. Entrei em casa, enchi a cabeça com as coisas de casa, dormi essa noite e, no dia seguinte, quando saí à rua, sobressaltei-me por não o encontrar no posto de todos os dias. Comecei a procurá-lo. A possibilidade mais insistente era: roubaram-me o carro. Apressei o passo e, quando já tinha o telefone na mão, lembrei-?-me daquele instante na véspera em que decidi estacionar num lugar diferente.

Escondido de mim, o meu bloco de notas, imóvel, discreto, abriga aquele pequeno mundo. Bastará folheá-lo para que essas palavras se soltem; estão lá, à espera, são como um segredo com corpo. O meu bloco de notas é como o corpo desse segredo.

Ainda assim, há diferenças fundamentais: esconder para sempre é tentar que algo nunca tivesse existido. Em coerência, a única forma de levar esse raciocínio até ao fim é morrer. Comparado com essas decisões, o meu bloco de notas, feito de papel barato, não é realmente o corpo de um segredo, é apenas o biombo que cobre esse corpo e, mesmo assim, é um biombo que permite transparências. Por sua vez, morrer com segredos, carregá-los no peito a vida inteira e morrer, nunca os partilhando com irmãos ou filhos, é um ato que questiona a própria morte. Conseguirá a morte ser suficientemente opaca para esconder esses segredos para sempre?

Um bilhete achado no interior de um livro antigo pode mudar tudo o que pensávamos sobre o nosso avô. Uma grande parte do passado ainda está para acontecer.

Além disso, os segredos retiram lógica ao mundo. Aquilo que se omite priva os outros de compreenderem as razões dos episódios a que assistem. Porque é que estás maldisposto? Por nada. Passa-se alguma coisa? Não, não se passa nada. Há algum problema? Não, não é nada.

Talvez encontre o bloco de notas quando já não estiver à espera. Então, quase de certeza, irá iluminar-se o instante em que decidi guardá-lo e as razões que me levaram a escolher esse lugar que, agora, me parece insuspeito. Será como quando não consigo recordar um nome ou uma data, faço um grande esforço de memória, mas nada. Depois, quando já não estou a pensar nisso, de repente, como um objeto que regressa à superfície, aparece-me na cabeça. Até posso acordar de noite com a força dessa lembrança.

Conformo-me, estou cansado de procurar, mas tenho pena. Nesse bloco, tinha anotado a ideia que ia desenvolver neste texto. Não consigo lembrar como era, só recordo que me entusiasmou, pareceu-me boa ideia, fiquei contente quando a tive.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1143, de 29 de janeiro | | 1 comentário

Senhoras e rapazes

Assim, é certo que, na Bangla Road, em Patong,Tailândia, não existe uma ladyboy chamada Khem. Não sou capaz de recordar o perfume açucarado do seu pescoço porque ela não se sentou no meu colo
Em Patong, na ilha de Phuket, no Sul da Tailândia, está calor em todas as horas do dia e da noite. É um calor húmido, colado à pele e que, no entanto, parece nascer do seu interior, é calor grosso que escorre pelos poros. Lá, numa rua a que os estrangeiros chamam Bangla Road, com bares de um lado e de outro, com discotecas seguidas, há colunas de som mais altas do que eu a explodirem música diferente de todas as direções. Encontrando caminho entre a multidão, aproximam-se vozes a gritar ofertas em inglês nasalado, sotaque tailandês, poucas palavras; há vultos garridos que caminham direitos a mim, como se fossem agarrar-me, e que me colocam letreiros à frente: cerveja barata. Essa é uma pausa nas luzes apontadas aos olhos: luzes cor-de-rosa, vermelhas, roxas ou cor de laranja, como o fogo.

Ainda assim, posso afirmar que a Bangla Road não tem ladyboys. Depois de subir e descer a rua várias vezes, não encontrei qualquer ladyboy. As transsexuais tailandesas são conhecidas pela sua beleza, por quase não se distinguirem de mulheres que nasceram mulheres, mas não foi por isso que não encontrei ladyboys na Bangla Road, foi porque não estava lá nenhuma, tenho a certeza.

Nesses bares imensos, há centenas de metros de balcão, onde as ladyboys não sobem com sapatos dourados, saltos enormes, e não dançam em biquíni, abrindo às vezes o soutien e exibindo seios demasiado redondos, mamilos distorcidos. Também não dançam de calções muito apertados, minissaias, vestidos agarrados ao corpo que, em certos momentos, levantam para mostrar detalhes pós-operatórios. Nesses bares, as conversas não têm de ser feitas em voz bastante alta ou ao ouvido, com os lábios a tocarem-me na orelha, o calor do hálito a tocar-me na orelha. Também não há os dedos de quem passa, unhas de gel nas costas das minhas mãos. Da mesma maneira, também não há, garanto, uma certa forma de silêncio que sobrevive, imperturbável, inacessível, debaixo dessa música que as ladyboys não dançam, exatamente como não existe uma luz vermelha, inferno a fingir, que harmoniza as cores vivas dos biquínis, minissaias, calções curtos, vestidos agarrados ao corpo, que as ladyboys não vestem, porque não há ladyboys na Bangla Road.

Assim, é certo que, na Bangla Road, em Patong, na ilha de Phuket, no Sul da Tailândia, não existe uma ladyboy chamada Khem, diminutivo de um nome bastante mais longo. Não tem feições delicadas, alisadas por cosmética e cirurgias; não tem pestanas postiças que, como pétalas, se enrolam à volta dos olhos, lentes de contacto de qualquer cor clara. Não sou capaz de recordar o perfume açucarado do seu pescoço ou a espessura dos seus cabelos esticados porque ela não se sentou no meu colo. Não chegou e, sem pedir licença, se sentou no meu colo. Por isso, também não cheguei a sentir-lhe as pernas, músculos firmes, e ela não me agarrou o pulso e me assentou a mão na mama, dura. Como é evidente, ela não me sussurrou frases inconfessáveis ao ouvido, inglês de sotaque obsceno. Não, é claro que não recordo os lábios de silicone a passarem-me pela barba. Não tenho essa lembrança, porque, na Bangla Road de Patong, não existe uma ladyboy chamada Khem. Não existe qualquer ladyboy ao longo de toda a Bangla Road, Patong, Phuket, Tailândia.

E, mesmo que existisse, eu não a teria agarrado pela cintura, não a teria encostado ao meu peito, eu não teria sido capaz de apreciar essa proximidade porque eu sou um homem do país dos homens e do planeta dos homens. Sou daquele lugar em que ninguém tem qualquer dúvida e ofereço porrada a quem puser isso em causa. Não admito qualquer espécie de insinuação. Não há ladyboys na Bangla Road, ou em Patong, ou em Phuket e, tanto quanto eu sei, é mesmo possível que não haja ladyboys em toda a Tailândia. Estou pronto para andar à porrada com quem duvidar de mim, ou com quem me passar à frente no trânsito, ou com quem fizer demasiados likes no facebook da minha mulher. Estamos conversados? Se for preciso, para que se entenda melhor, faço voz grossa.

José Luís Peixoto, (crónica publicada na VISÃO 1134, de 27 de novembro) | | 8 comentários

Todo o silêncio

Conto o tempo que me falta para ter a idade que tinhas quando te perdi. Faço contas às idades que os meus filhos terão

De nome inteiro, o escritor está sentado à mesa. Quem terá tratado do arranjo de flores que tem à sua frente? O microfone funciona.

Enquanto apresento o meu livro em bibliotecas e livrarias, acabo quase sempre por te referir. Nesses momentos, és personagem de episódios, autor de frases, portador de lições que ainda fazem sentido. Muito raramente, como se me espreitasses através de uma frincha, o teu olhar pode atravessar essas palavras que escolho para te mencionar. Eras chuva de muitos dias seguidos, essas palavras são uma gota.

Não é possível saber o que entendem as pessoas que me olham. Posso imaginar o que quiser a partir da sua atenção, escolho a melhor possibilidade, a mais benévola. Leio algumas páginas do livro em voz alta, exactamente como se estivesse a descobri-las.

O escritor está disponível para autografar os seus livros. Por favor, formem a fila nesta direção. A minha caligrafia, embaraçosa como a minha voz gravada em vídeos antigos de festas de anos. De cada vez que escrevo o meu nome, o teu nome vai sobreposto ao meu. Da mesma maneira, lá no cemitério, no mármore, o meu nome está sobreposto ao teu.

Um homem de quarenta anos deitado sobre uma cama de hotel, iluminado pela televisão ligada. Com esta idade, mais do que nunca, distingo-te em mim. Entrava no teu quarto à noite, vias qualquer coisa na pequena televisão a preto e branco, e deitava-me ao teu lado. A minha pele tem a mesma cor da tua. Sou capaz de comparar as minhas mãos com as tuas. Conto o tempo que me falta para ter a idade que tinhas quando te perdi. Faço contas às idades que os meus filhos terão. Tento rejeitar esses pensamentos. Não quero, esse tempo é demasiado cedo para morrer, mas, como também sabes, importa pouco aquilo que queremos.

Amanhã, o André faz dez anos, mas tu não chegaste a conhecer o André. Às vezes, distingo-lhe traços teus, maneiras. Se for real e possível, se os meus olhos não estiverem deturpados pelo que quero ver, fui eu que transportei esses pequenos gestos. Levei-os talvez naquilo que faço todos os dias, nas minhas próprias maneiras. Como serias tu com dez anos? O André já ouviu falar muito de ti. Contei-lhe histórias que não chegam para que te conheça.

Aquele gajo que aparece na televisão sentou-se no restaurante e escolheu o prato do dia. Não vai querer as entradas, pois não? Juntos, pousámos os cotovelos em toalhas de papel como esta. Essas eram horas boas. O passado ficou com todas as conversas que tivemos à espera que chegasse a comida ou, depois, diante de nódoas de gordura e migalhas de pão. Agora, consigo recordar-nos em restaurantes como este, mas não temos som, não consigo reconstruir nenhuma das conversas que tivemos. Talvez falássemos de temas muito ligados à véspera desses dias distantes, ou talvez a minha memória tenha deixado de guardar essa informação, precisou do espaço para qualquer outro assunto.

Já depois da conta, o senhor do restaurante deseja-me sorte para os livros, e aponta para a televisão onde me viu, presa à parede. Agradeço e, nesse momento, entendo  de repente a simpatia pouco habitual, o sorriso a despropósito.

Sim, pai, às vezes, vou à televisão falar dos meus livros.

É difícil explicar. Haveria de surpreender-se bastante com aquilo que aconteceu. Nunca apareci na pequena televisão a preto e branco que tinha no quarto e, com toda a sua capacidade de idealizar o futuro, haveria de ficar incrédulo se alguém lhe contasse. ?O meu pai não tinha forma de imaginar que, um dia, com este caminho feito, eu seria um escritor a dar autógrafos.

Para o meu pai, serei sempre um rapaz de futuro incerto, com a carta de condução acabada de tirar, a estudar para ser professor. Quando pousava as pálpebras sobre os olhos, o sofrimento, sei que uma das suas preocupações era: o que irá ser deste rapaz? Ele próprio, muitas vezes, dizia esta frase. Dentro de mim, sou capaz de ouvir a sua voz a dizê-la.

Agora, nada pode mudar esse facto. Mesmo que passe o resto da minha vida a escrever livros, mesmo que sejam lidos por milhares e milhares de rostos atentos, mesmo que o meu nome seja repetido todos os dias em bibliotecas e livrarias. Para o meu pai, nunca serei escritor.

(crónica publicada na VISÃO 1129, de 23 de outubro) | | 3 comentários

Outro aqui, outro alguém

Não acredites que basta um avião para alcançar os lugares mais distantes

É bem lá fora. É até detrás das montanhas. Mais longe do que o Tarrafal, mais longe do que Pedra Badejo, mais longe do que a Praia. É longe sim. Se fosse perto, era fácil. Se fosse perto, quase não tinha valor. Ouve-me bem, menino, escuta-me. É mesmo mais longe do que Portugal, mais longe do que a Holanda, mais longe do que a América. Tu, que conheces os netos da Nha Rosa de Odjo Fino, sabes do que estou a falar. Quando eles chegam, agosto sim, agosto não, com aquelas roupas novas, brilhantes, com o crioulo enferrujado e as mãos desacostumadas do pilão. Quando eles chegam embalsamados como pássaros de penas envernizadas, a cheirarem a avião e com os olhos inchados de tudo o que viram, com a boca a tropeçar em palavras que não chegam para todas as explicações. Pois, fica sabendo que nem os netos da Nha Rosa de Odjo Fino, filhos da Neide de Nha Rosa, filhos da Zumila de Nha Rosa, vieram de tão longe, nem eles conheceram tanta distância.

Aproxima-te, menino. Este ano, as montanhas esverdearam. As caldeiras que os homens cavaram, as montanhas escamadas, tiveram utilidade preciosa para receber a chuva. Santa chuva, sagrada chuva, bênção molhada, repente de milagre. Este ano, haverá milho distribuído por cachupas ricas e, depois, cachupas guisadas. Cachupas ricas ao domingo, barrigas redondas, homens de perna aberta, sentados, a conversarem sobre a mocidade antiga, o sol morno, e crianças correndo, não sentindo as pedras, terra vermelha, cheia de esperança. E, depois, cachupas guisadas, junto com o café da manhã, cheiro bom de acordar com fartura, manhãs tão limpas, tão nítidas e, lá por detrás da montanha, o mar.

Faz falta mais mar, mais oceano, cheio de fresco e de peixe para fazer caldo de peixe. Tão bom. Tu não, menino, mas os homens podem tomar o grogue que quiserem, podem até abusar um poucochinho, nada chega a ser muito num poucochinho. Depois, um caldo de peixe bem picante, daqueles que fazem transpirar a raiz dos cabelos, limpa tudo, faz passar tudo. Até as gengivas se encolhem no topo dos dentes. Ui. É muito bom ter a língua a arder e passá-la pelos lábios. Essas horas têm também a forma das tardes de domingo, requerem descanso enorme e sombra. Eu, de fala com as minhas irmãs, sempre conheci essas horas. Repetem-se semanalmente e, nesses instantes, toda a Ilha de Santiago aproveita para respirar. Na Praia, e na Assomada também, os papéis são arrastados nas ruas pelo vento. Na Pedra Badejo ou na Calheta de São Miguel. No mar inteiro, nas ondas próprias para a viagem, já se sabe.

Não temas a viagem. Fizeram-nos viajantes. Sabemos que existe aqui, mas sabemos também que existe lá longe. Menino, lá longe está à nossa espera. Lá longe não mete desdém porque chegaremos lá e, nesse momento, transformar-nos-emos em lá longe. Não é lá longe que se transforma em nós, é o contrário, o vice-versa.

Não acredites que basta um avião para alcançar os lugares mais distantes. ?Às vezes, perto e longe são uma misturada. Às vezes, está tão perto e está parecido com milhentos quilómetros de lonjura. ?Às vezes, está na ponta do nariz, só se vê de olhos vesgos e, mesmo assim, está pior do que a lua ou do que aquelas estrelas que não se percebe se são estrelas ou se são reflexos a falharem nos olhos.

Repito: não temas a viagem. Quando a começares, lembra-te sempre que é longe, very longe, como diziam os primos americanos. Dá o primeiro passo já com essa certeza. Não queiras esquecer-te do tamanho enorme dessa distância. Lê-a nos meus olhos. Repara bem lá no fundo dos meus olhos. Vês? Mais fundo do que um poço, mais fundo do que todos os anos da minha vida. É longe, menino. É longe com muita força, com muito peso. Quando parecer que falta pouco, desconfia. Quando parecer que já chegaste, não acredites. Não há vento, chuva ou sol, não há mar, nem sequer mar, não há céu ou noite, não há morte ou planeta que seja tão longe. Lá fora, logo ali, há muito. Há suficiente para lembrar pela vida inteira, não importa quantos anos se viva. Mas, lá longe, há tudo. Mesmo que seja tão longe, tão lá fora, tão sem proteção, sob a inclemência de segredos que nunca serão completamente desvendados.

Longe, muito longe, filho, mas não impossível.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1125, de 25 de setembro) | | 4 comentários

Península, ponto de interrogação

Nuestros hermanos? Só se estivermos a falar daqueles hermanos que foram separados à nascença, criados por pais completamente diferentes e que, depois de muitos anos, por enorme acaso, se apercebem de que são hermanos. Normalmente, essas histórias dão belos telefilmes

Quem são estas pessoas que moram aqui ao lado? Evitamo-las tanto quanto possível. Se vamos para sair e os ouvimos a chegar, esperamos atrás da porta, fazemos tempo em silêncio e só saímos quando não há risco de nos cruzarmos nas escadas. Mas, às vezes, distraímo-nos, entramos no elevador e estão lá, carregados de sacos do supermercado, ou a regressarem de passear o cão. Envergonhados da nossa própria voz, soltamos um cumprimento sumido e, depois, um silêncio longo, doloroso.

Quando eu tinha a idade do meu filho mais novo, a televisão portuguesa só começava quase à hora de jantar. Na minha região, conseguíamos apanhar os canais espanhóis. Nesse tempo, admirava-me com os prémios ganhos pelos concursantes do Precio Justo, com os anúncios, com quase tudo. Depois, quando tinha a idade do meu filho mais velho, ficava acordado até tarde, à espera de uns filmes mais atrevidos que podiam chegar ou não. Em qualquer dos casos, habituava-me com curiosidade à voz espanhola de vários atores de Hollywood.

Nesse tempo, ainda era preciso parar na fronteira. A partir de certa altura, começou a bastar o bilhete de identidade. Mesmo assim, Elvas era um mundo e Badajoz era outro. Comprávamos sacos de rebuçados com pinhões, caramelos que se colavam ao céu da boca, latas de ananás e de pêssego, melocotones, comprávamos relógios digitais, teoricamente à prova de água, que se acertavam com a ponta de uma esferográfica.

Numa das ocasiões em que fui com os meus pais a Espanha, ficámos com as chaves trancadas dentro do carro. Usando um arame, usando jeito e calma, não demorámos muito a abri-lo, mas permaneceu esse medo de ficarmos fechados em Espanha.

Como se diz arame em castelhano? Tenho orgulho no meu portunhol. O esforço dos portugueses para falar línguas nasce da generosidade. A vontade de comunicar com o outro exige desprendimento, é preciso ser capaz de não se levar demasiado a sério, de não ter medo de errar e, às vezes, tocar o ridículo, como uma daquelas máquinas que já não existem: hola, dame una moneda.

Avaliando pelos tradutores que conheço, sofre-se bastante mais a traduzir entre português e castelhano do que entre português e húngaro. Os tradutores ibéricos são avaliados em todos os artigos, pronomes e proposições. Não há falante de portunhol, como eu, que não sugira listas alternativas de sinónimos e que não se escandalize com detalhes. Já um tradutor que trabalhe com português e outras línguas, finlandês, japonês, tem liberdade para mudar a ordem dos complementos, para suprimir adjetivos, para mudar verbos, para encurtar frases que lhe pareçam demasiado longas, como esta.

Há já alguns anos, fiz um circuito de apresentações e de leituras na Lituânia e na Polónia acompanhado por três autores espanhóis: um andaluz, um galego e um madrileno, que era o único que realmente se identificava como espanhol. Aprendemos a beber vodka, comemos inúmeros pernis de porco no forno e houve uma certa empregada de mesa em Vilnius pela qual todos nos apaixonámos. Aqui, na península, teríamos encontrado mil diferenças; lá, surpreendíamo-nos com as mesmas novidades, reparávamos nos mesmos pontos, entendíamo-nos.

Nuestros hermanos? Só se estivermos a falar daqueles hermanos que foram separados à nascença, criados por pais completamente diferentes e que, depois de muitos anos, por enorme acaso, se apercebem de que são hermanos. Normalmente, essas histórias dão belos telefilmes.

Quem são os cantores que os espanhóis ouvem? Imagino que essa seja a pergunta final e impossível do Quem quer ser milionário? Os concursantes de lá também não sabem responder sobre nós, claro. Não fazem a mínima ideia acerca de quem são os Xutos e Pontapés. Talvez para compensar, uma vez por ano, no festival da canção, lá vêm eles contracorrente: Portugal, diez puntos.

Apesar do Almodóvar, qualquer português que já tenha ido ao cinema, conhece mais realizadores americanos do que espanhóis. O mesmo acontece com escritores, artistas plásticos, agentes de cultura ou personalidades referidas na revista Hola! E vice-versa, sempre vice-versa em tudo.

O voo entre Madrid e Lisboa demora cerca de uma hora. Com a diferença horária, aterra-se no aeroporto da Portela à mesma hora a que se partiu de Barajas. E entre tantas perguntas, outra: se o tempo permanece, como pode mudar o espaço?

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1108, de 29 de maio | | 2 comentários

Aquilo que os meus amigos esperam de mim

Não escrevo prefácios, não sugiro os livros, não faço elogios públicos, não dedico textos. Os meus amigos sabem tudo isto sobre mim

Dou pouca conveniência aos meus amigos.

Não escrevo prefácios. Por telefone, por email ou ao vivo, começam a elogiar-me. Com os anos, fui-me acostumando e identifico a situação logo nessa fase. Então, enquanto espero que terminem, vou ensaiando a resposta na cabeça. Por fim, quando me fazem o convite para lhes prefaciar o seu novo livro, que pode ser uma antologia de contos, poemas ou crónicas, um romance ou um ensaio sobre o século XVII, já tenho as minhas razões prontas e começo a enumerá-las. Quase como se estivesse a escrever um desses prefácios, escolho palavras que não choquem e explico que considero esses textos humilhantes para os livros que prefaciam, sem mais benefício do que uma ilusão comercial ou de estatuto. Tento explicar que conheço bem a vontade de encontrar um público, mas que não acredito que consigam alcançá-lo através desses prefácios vazios e desnecessários de nomes conhecidos. Quando termino, já está bem claro que me retiraram os elogios iniciais, perderam a validade.

Não sugiro os livros a editores. Nesse caso, o problema é de outra natureza. O desinteresse repetido que mostraram pelas minhas sugestões fez-me perder a confiança. Entre os editores e eu, há livros, podemos mesmo ser vistos juntos, em diálogo ameno, mas existimos em dimensões diferentes. Ignorando a crueza desse desencontro, recebo pedidos para ler blogues ou montes de folhas, solicitam a minha opinião. A experiência mostrou-me que, na maioria das vezes, não há qualquer vontade real de conhecer o que penso. Trata-se quase sempre de pedidos de confirmação: eles já sabem que são bons, génios da literatura, apenas precisam de uma declaração escrita, um certificado. E mesmo que fossem aquilo que julgam, os editores não me ouvem, como já disse. Mas, parando um instante, porque haveriam de ouvir? Seriam maus editores se as minhas opiniões tivessem o peso que esses pedidos de leitura supõem.

Não faço elogios públicos. Nunca utilizei textos como este, ou como outros, parentes deste, publicados noutras páginas, para gabar amigos ou conhecidos. Defendo os elogios. Acredito que não há elogios suficientes. Sou contra a austeridade de elogios. Os elogios enobrecem quem os faz. No entanto, repugnam-me quando fazem parte de um mercado de troca directa. A detracção de alvos escolhidos, inimizades de amigos, é uma das faces desse mesmo comércio, mas ainda mais repugnante, fruto de inseguranças não assumidas. Entrar nesse jogo é como mentir, não tem saída: uma mentira precisa sempre de novas mentiras que a justifiquem.

Não dedico textos. Uma licenciatura em línguas e literaturas modernas pode ser utilizada para vários fins. A mim, serviu-me para, entre outras coisas, firmar a convicção de que todos os elementos textuais devem contribuir para o sentido do texto literário a que se referem. Ou seja: eu dedico textos, mas tem de haver uma razão, uma intenção, que acrescente significado formal ou semântico ao próprio texto. Se eu quiser agradecer aos meus amigos, ou demonstrar-lhes que gosto deles, escrevo-lhes um email, não lhes dedico um livro. Este é, aliás, um bom modo de se evitar que, anos mais tarde, se passe pelo triste papel de apagar dedicatórias de reedições.

Os meus amigos sabem tudo isto sobre mim. Mais, sabem que ando sempre a correr atrás de alguma coisa e que, por isso, pode passar muito tempo entre os nossos encontros. Também eles andam a correr atrás de alguma coisa. Havemos de marcar um almoço, havemos de marcar um café, repetimos a acreditar que vai ser assim. Sentimos falta, mas habituámo-nos a ela. Quando, finalmente, estamos no mesmo lugar, somos desconhecidos para os filhos uns dos outros que, entretanto, cresceram bastante. Então, temos muito para contar, actualizações antigas que nos mostram o verdadeiro tamanho do tempo que passou. Mas o à-vontade mantém-se intacto. Porque os meus amigos não são aqueles para quem fui tudo até ao momento em que passei a ser nada, não são aqueles que me abandonaram quando deixei de lhes ser útil, os meus amigos não são aqueles com quem partilhei segredos e que, anos mais tarde, quando nos cruzamos por acaso, nem sei se hei-de cumprimentá-los.

 

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1103, de 124de abril | | 9 comentários

Conta lá a história das bibliotecas itinerantes

Na formação e na vida, a televisão não substitui a leitura e o cinema

Às vezes, dou por mim a falar nisso perante uma plateia que me olha como se estivesse a dar notícias de um mundo meio real, meio imaginário. Não preciso de pensar muito no que estou a dizer porque, por preguiça, utilizo quase sempre as mesmas palavras, basta-me seguir o desejo de exotismo que encontro nos olhos que me fixam. Então, parece-me, sou um pouco como aqueles escritores africanos ou sul-americanos a quem se exige episódios coloridos, personagens singulares, anedotas, contos com moral.

Ainda assim, cada vez mais raramente, acontece estar alguém na sala que também conheceu essas bibliotecas, que também lá esteve. Então, de repente, as palavras voltam a ganhar significado, enchem-se. Ouço essa pessoa contar as suas memórias e, durante aquele instante, somos irmãos no olhar. As descrições têm préstimo, mas há uma presença muito mais funda, invisível, há a certeza de que, afinal, aquele tempo e aquele lugar existiram mesmo. Até eu já começava a duvidar.

As fitas adesivas coladas nas lombadas eram reais.

Uma vez por mês, ao fim da tarde, a carrinha Citroën chegava ao terreiro de Galveias, calhava-nos as quartas-feiras. Ficava estacionada em frente da cooperativa. Em Galveias, depois do 25 de Abril, o clube dos ricos passou a sede da cooperativa. Quando eu chegava, vindo dos lados do São João, já havia outros rapazes e raparigas à volta da carrinha.

Impressionava-me a quantidade de livros. Precisava de me esticar para chegar às prateleiras mais altas e, por isso, parecia-me que não tinham fim. O senhor Dinis conduzia a carrinha, recebia os papéis preenchidos com os códigos dos livros que requisitávamos, foi então que aprendi esse verbo, e era dentista. Eu conhecia-o da sala de espera, aquele cheiro antissético, onde aguardava a minha mãe e as minhas irmãs. Encontrei-o no ano passado na biblioteca de Abrantes, tirámos uma fotografia juntos. Aproveito para lhe enviar um abraço. Espero que esteja a ler estas palavras, com saúde.

Levávamos sempre a quantidade máxima de livros. E, sim, é verdade aquilo que costumo dizer: líamos muito depressa os que tínhamos e, depois, íamos trocando entre nós até ao regresso da biblioteca no mês seguinte.

Esse era também o tempo das sessões de cinema do Inatel no centro paroquial e na casa do povo. Foi dessa forma que, em Galveias, desci a ladeira, passei pela travessa da fonte e cheguei a casa com o rosto incendiado pelo Apocalipse Now. Foi também assim que assisti ao Baile, de Ettore Scola, sentado em cadeiras de tábua dura exatamente como aquelas em que assistia a bailes no salão da sociedade filarmónica. Poderia agora dar muitos outros exemplos.

Conheço as crianças de Galveias. Há dois anos, estive na escola onde também eu aprendi a ler e vejo-as na rua quando lá vou. No entanto, se quero identificá-las, tenho de perguntar-lhes quem são os seus pais. Nos sábados de manhã, ouve-se muito menos crianças a brincar do que no meu tempo. No ano passado, na minha terra, morreram mais de cinquenta pessoas e nasceram apenas duas.

As crianças de Galveias são iguais às de antes. Sinto pena que tenham menos do que eu tinha há quase trinta anos. Não se evoluiu. Na formação e na vida, a televisão não substitui a leitura e o cinema.

Ao falar de bibliotecas itinerantes aos meus filhos ou a essas crianças, sinto que sou como o meu pai quando me contava histórias da sua infância. Eu sabia que se tinham passado com ele mas, para mim, esse conhecimento era muito vago, pareciam lendas. No entanto, esse tempo era tão concreto como este. Um dia, este tempo, hoje de manhã, ontem, este preciso momento, será contado pelos meus filhos e por essas crianças com o mesmo tom com que agora falo de bibliotecas itinerantes. Naquele tempo, dirão. E aquele tempo será isto, tão concreto, tão prosaico, tão isento de magia. Estes objetos sem graça serão esse incrível futuro.

Eu, que estou aqui neste instante, também estava lá, a cheirar aqueles livros, a subir para a carrinha, a escutar a voz do doutor Dinis. Por isso, ainda que use as mesmas palavras até à exaustão, hei de continuar a repetir esta história. Sempre. É a minha história.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1099, de 27 de março | | 4 comentários

Os prémios recebem-se na altura devida e têm muitas formas

Havia jornalistas de suplementos literários e de revistas sociais, a uns falava-se de uma maneira, a outros falava-se de outra. Essa ginástica não era difícil porque eles próprios falavam de formas diferentes

Não me lembro da maneira como soube que estava nos finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura. Alguns meses antes, soube por email que o meu romance fazia parte de uma primeira seleção. Fiquei agradado mas não pensei muito nisso, a matemática desaconselhava ilusões. Mas, depois, entre dez finalistas, quando tentei não pensar, falhei.

Essa dificuldade de me abstrair foi alimentada por tudo o que aceitei fazer: compareci no aeroporto à hora do voo que me pagaram para São Paulo, instalei-me no hotel com os outros finalistas e, à hora marcada, estava na receção, lavado, barbeado e penteado, à espera da carrinha que nos havia de levar à cerimónia. Era uma dessas carrinhas de nove lugares. Coubemos todos porque alguns dos finalistas moravam em São Paulo e iam pelos seus meios. A mistura de perfumes era ligeiramente enjoativa. No trânsito, falou-se de qualquer assunto aleatório, que não tocasse em opiniões acerca de quem poderia ganhar o prémio.

Fomos os primeiros a chegar a um lugar com arquitetura e plantas exóticas, onde empregados fardados recebiam instruções sobre como deveriam servir canapés em tabuleiros. As mesas estavam a ser postas. Uma mulher com auscultadores e microfone ficou aliviada por já termos chegado, menos um problema para ela. A estrearmos roupas muito diferentes daquelas que vestimos todos os dias, esperámos uma hora até que chegassem os primeiros convidados.

Os jornalistas não eram poucos e distinguiam-se com facilidade. Havia jornalistas de suplementos literários e de revistas sociais, a uns falava-se de uma maneira, a outros falava-se de outra. Essa ginástica não era difícil porque eles próprios falavam de formas diferentes. Havia os jornalistas da televisão, que nos apontavam um holofote aos olhos e que chamavam todas as atenções, e havia os outros, que nos escondiam num canto, onde sussurrávamos para um gravador.

Além disso, com um cálice na mão, tive conversas que nunca mais recordarei em toda a minha vida. Em rodas de pessoas de simpatia extrema, respondi a perguntas, partilhei risos ralos e agradeci os votos de boa sorte e as palavras daqueles que me agarravam no braço e diziam só para eu ouvir: acredito que você vai ganhar.

Não é fácil contradizer o otimismo dos brasileiros.

Então, senhoras e senhores, chegou o momento de anunciar os premiados. Um altifalante pediu silêncio. Disseram o nome do terceiro premiado e não era eu. Disseram o nome do segundo e não era eu. Disseram o nome do primeiro e não era eu.

Os jornalistas lançaram-se sobre o primeiro, transformaram-no num novelo de gente. Era sempre possível saber onde estava, levava essa confusão para onde ia. E foi como se uma luz se tivesse apagado sobre a cabeça dos que não ganharam. De repente, as pessoas deixaram de querer falar connosco. Se lhes dizíamos alguma coisa, não respondiam; se lhes sorríamos como antes, não sorriam de volta. Aos poucos, como se nos reconhecêssemos entre uma multidão de desconhecidos, os que não ganharam foram-se juntando. Quando pedíamos uma bebida, os empregados viravam-nos as costas. Éramos invisíveis.

Voltei ao hotel na primeira carrinha. As avenidas, o elevador, o corredor alcatifado, cheguei ao quarto, descalcei os sapatos apertados e fui para a varanda. Estava a mais de vinte andares de altura. Então, de repente, as luzes de São Paulo apagaram-se todas. A cidade desapareceu. Esse apagão não é uma conveniência metafórica, foi noticiado por toda a imprensa brasileira no dia seguinte. Para mim, naquela hora, foi um descanso que senti merecer.

Quem sou hoje olha para quem eu era nesse tempo e encontra-lhe enormes defeitos. Achando que tentava sobreviver, cometi muitos erros. Talvez aqueles com que não me voltei a cruzar acreditem que ainda sou o mesmo. Talvez a vida me dê oportunidade de me redimir perante esses olhares. Ou não, talvez a única redenção possível seja aquela que, em consciência, for capaz de dar a mim próprio.

Uma coisa é certa: se tivesse ganho esse prémio, não estava agora aqui. E eu gosto muito de estar aqui. O bom e o mau constroem-me todos os dias. Não se trata de uma desculpa de quem perdeu. A vida não aceita desculpas.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1095, de 27 de fevereiro | | 3 comentários

Uns a imaginarem os outros

Deixo-te os números, esses são concretos: as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta

Na semana passada, li num jornal que as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.

Sei algumas coisas sobre ti. Estás aí, existes e respiras.

Há uns dois ou três anos, o diretor de uma revista portuguesa de informação generalista, contou-me que, em todos os inquéritos aos leitores, a maioria dos homens só tinha críticas negativas a fazer. Os elogios chegavam quase exclusivamente de leitoras.

O cálculo de probabilidades é uma forma discreta de mostrar que não se tem a certeza do que se está a dizer. Ainda assim, esta é uma revista e tu estás a lê-la, por isso, se fores um homem há a possibilidade de que estejas impaciente. Se ainda não desististe de ler, talvez te pareça que estou só a encher papel, que tenho pouco para dizer. Se fores uma mulher, é provável que estejas à espera de ver onde quero chegar, optimista. Mas as probabilidades são muito imperfeitas e tu, apesar delas, continuas a ser tu. É bem possível que sejas um homem e pertenças à minoria. Da mesma maneira, podes facilmente ser uma mulher e sentir a mesma necessidade de afirmação que a maioria dos homens nunca ultrapassa.

Ia agora desculpar-me e dizer que sempre embirrei com teorias à volta das diferenças entre homens e mulheres, o que seria verdadeiro, mas não o vou fazer porque me dá um certo alívio afirmar que a maior parte dos homens nunca ultrapassa uma necessidade de afirmação primária, mesquinha, patética. E irritante, como se nota pela adjetivação que escolhi. Se Freud aqui estivesse, diria que lhes faltou elogios. Um círculo, portanto.

Homem maioritário ou minoritário, mulher maioritária ou minoritária, uma grande parte daquilo que sei sobre ti nasce de mim próprio. Avalio-te por aquilo que me parece possível, parece-me possível aquilo que concebo, concebo aquilo que já fui ou considerei. Ao mesmo tempo, interpreto-te através do filtro da minha insegurança, do meu medo, da minha própria necessidade de afirmação. E acredito que contigo também é assim. Aquilo que sabes de mim nasce de ti, através dos teus filtros. De novo, um círculo.

Estas palavras são pretextos. De mim, estas palavras dizem-te que estou aqui, existo e respiro.

Com boa ou má vontade, tens razão nos dois casos. É certo que tenho pouco para dizer, mas também é certo que, se quiseres mesmo, podes tentar perceber onde quero chegar. Não sei se leste o mesmo jornal que eu, na semana passada, mas quero dizer-te, ou repetir-te, que as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.

Não se trata de um cálculo de probabilidades, são números concretos. Eu sou uma pessoa. Tu és uma pessoa. Uns são oitenta e cinco pessoas. Outros são três mil e quinhentos milhões de pessoas, mais ou menos. Como eu, já estiveste em lugares com oitenta e cinco pessoas, oitenta e quatro se contarmos contigo. Custa mais imaginar três mil e quinhentos milhões de pessoas.

O que sabemos dessas pessoas? Existem? Respiram? Onde estão? Será que podemos compará-las connosco? Será que podemos compará-las umas com as outras? Umas são piores do que as outras? São melhores? Umas merecem mais do que as outras? Merecem menos?

Tu e eu não pertencemos nem aos oitenta e cinco, nem aos três mil e quinhentos milhões. Convenientemente, essa verdade pode ilibar-nos de procurar resposta para estas perguntas. Já temos tanto com que nos preocupar. Uma das coisas que sabes de ti é que não podes resolver todos os problemas do mundo. Ou será que, abusivamente, te estou a imaginar a partir do que me parece possível, do que concebo, do que já fui ou considerei?

De novo, as dúvidas. É-me difícil evitá-las. Também há as probabilidades, mas já te disse aquilo que penso acerca delas. Deixo-te os números, esses são concretos: as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.

Li num jornal da semana passada. Ainda não se desatualizou. É deste tempo, deste mundo. Está a acontecer com tanta realidade como aqui, aí, como aquilo que iremos encontrar no momento em que deixarmos estas palavras e olharmos em volta.

 

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1091, de 30 de janeiro | | 19 comentários
Página 1 de 4 1 | 2 | 3 | 4 |
PUBLICIDADE
Visão nas Redes