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Conta lá a história das bibliotecas itinerantes

Na formação e na vida, a televisão não substitui a leitura e o cinema

Às vezes, dou por mim a falar nisso perante uma plateia que me olha como se estivesse a dar notícias de um mundo meio real, meio imaginário. Não preciso de pensar muito no que estou a dizer porque, por preguiça, utilizo quase sempre as mesmas palavras, basta-me seguir o desejo de exotismo que encontro nos olhos que me fixam. Então, parece-me, sou um pouco como aqueles escritores africanos ou sul-americanos a quem se exige episódios coloridos, personagens singulares, anedotas, contos com moral.

Ainda assim, cada vez mais raramente, acontece estar alguém na sala que também conheceu essas bibliotecas, que também lá esteve. Então, de repente, as palavras voltam a ganhar significado, enchem-se. Ouço essa pessoa contar as suas memórias e, durante aquele instante, somos irmãos no olhar. As descrições têm préstimo, mas há uma presença muito mais funda, invisível, há a certeza de que, afinal, aquele tempo e aquele lugar existiram mesmo. Até eu já começava a duvidar.

As fitas adesivas coladas nas lombadas eram reais.

Uma vez por mês, ao fim da tarde, a carrinha Citroën chegava ao terreiro de Galveias, calhava-nos as quartas-feiras. Ficava estacionada em frente da cooperativa. Em Galveias, depois do 25 de Abril, o clube dos ricos passou a sede da cooperativa. Quando eu chegava, vindo dos lados do São João, já havia outros rapazes e raparigas à volta da carrinha.

Impressionava-me a quantidade de livros. Precisava de me esticar para chegar às prateleiras mais altas e, por isso, parecia-me que não tinham fim. O senhor Dinis conduzia a carrinha, recebia os papéis preenchidos com os códigos dos livros que requisitávamos, foi então que aprendi esse verbo, e era dentista. Eu conhecia-o da sala de espera, aquele cheiro antissético, onde aguardava a minha mãe e as minhas irmãs. Encontrei-o no ano passado na biblioteca de Abrantes, tirámos uma fotografia juntos. Aproveito para lhe enviar um abraço. Espero que esteja a ler estas palavras, com saúde.

Levávamos sempre a quantidade máxima de livros. E, sim, é verdade aquilo que costumo dizer: líamos muito depressa os que tínhamos e, depois, íamos trocando entre nós até ao regresso da biblioteca no mês seguinte.

Esse era também o tempo das sessões de cinema do Inatel no centro paroquial e na casa do povo. Foi dessa forma que, em Galveias, desci a ladeira, passei pela travessa da fonte e cheguei a casa com o rosto incendiado pelo Apocalipse Now. Foi também assim que assisti ao Baile, de Ettore Scola, sentado em cadeiras de tábua dura exatamente como aquelas em que assistia a bailes no salão da sociedade filarmónica. Poderia agora dar muitos outros exemplos.

Conheço as crianças de Galveias. Há dois anos, estive na escola onde também eu aprendi a ler e vejo-as na rua quando lá vou. No entanto, se quero identificá-las, tenho de perguntar-lhes quem são os seus pais. Nos sábados de manhã, ouve-se muito menos crianças a brincar do que no meu tempo. No ano passado, na minha terra, morreram mais de cinquenta pessoas e nasceram apenas duas.

As crianças de Galveias são iguais às de antes. Sinto pena que tenham menos do que eu tinha há quase trinta anos. Não se evoluiu. Na formação e na vida, a televisão não substitui a leitura e o cinema.

Ao falar de bibliotecas itinerantes aos meus filhos ou a essas crianças, sinto que sou como o meu pai quando me contava histórias da sua infância. Eu sabia que se tinham passado com ele mas, para mim, esse conhecimento era muito vago, pareciam lendas. No entanto, esse tempo era tão concreto como este. Um dia, este tempo, hoje de manhã, ontem, este preciso momento, será contado pelos meus filhos e por essas crianças com o mesmo tom com que agora falo de bibliotecas itinerantes. Naquele tempo, dirão. E aquele tempo será isto, tão concreto, tão prosaico, tão isento de magia. Estes objetos sem graça serão esse incrível futuro.

Eu, que estou aqui neste instante, também estava lá, a cheirar aqueles livros, a subir para a carrinha, a escutar a voz do doutor Dinis. Por isso, ainda que use as mesmas palavras até à exaustão, hei de continuar a repetir esta história. Sempre. É a minha história.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1099, de 27 de março | | 4 comentários

Os prémios recebem-se na altura devida e têm muitas formas

Havia jornalistas de suplementos literários e de revistas sociais, a uns falava-se de uma maneira, a outros falava-se de outra. Essa ginástica não era difícil porque eles próprios falavam de formas diferentes

Não me lembro da maneira como soube que estava nos finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura. Alguns meses antes, soube por email que o meu romance fazia parte de uma primeira seleção. Fiquei agradado mas não pensei muito nisso, a matemática desaconselhava ilusões. Mas, depois, entre dez finalistas, quando tentei não pensar, falhei.

Essa dificuldade de me abstrair foi alimentada por tudo o que aceitei fazer: compareci no aeroporto à hora do voo que me pagaram para São Paulo, instalei-me no hotel com os outros finalistas e, à hora marcada, estava na receção, lavado, barbeado e penteado, à espera da carrinha que nos havia de levar à cerimónia. Era uma dessas carrinhas de nove lugares. Coubemos todos porque alguns dos finalistas moravam em São Paulo e iam pelos seus meios. A mistura de perfumes era ligeiramente enjoativa. No trânsito, falou-se de qualquer assunto aleatório, que não tocasse em opiniões acerca de quem poderia ganhar o prémio.

Fomos os primeiros a chegar a um lugar com arquitetura e plantas exóticas, onde empregados fardados recebiam instruções sobre como deveriam servir canapés em tabuleiros. As mesas estavam a ser postas. Uma mulher com auscultadores e microfone ficou aliviada por já termos chegado, menos um problema para ela. A estrearmos roupas muito diferentes daquelas que vestimos todos os dias, esperámos uma hora até que chegassem os primeiros convidados.

Os jornalistas não eram poucos e distinguiam-se com facilidade. Havia jornalistas de suplementos literários e de revistas sociais, a uns falava-se de uma maneira, a outros falava-se de outra. Essa ginástica não era difícil porque eles próprios falavam de formas diferentes. Havia os jornalistas da televisão, que nos apontavam um holofote aos olhos e que chamavam todas as atenções, e havia os outros, que nos escondiam num canto, onde sussurrávamos para um gravador.

Além disso, com um cálice na mão, tive conversas que nunca mais recordarei em toda a minha vida. Em rodas de pessoas de simpatia extrema, respondi a perguntas, partilhei risos ralos e agradeci os votos de boa sorte e as palavras daqueles que me agarravam no braço e diziam só para eu ouvir: acredito que você vai ganhar.

Não é fácil contradizer o otimismo dos brasileiros.

Então, senhoras e senhores, chegou o momento de anunciar os premiados. Um altifalante pediu silêncio. Disseram o nome do terceiro premiado e não era eu. Disseram o nome do segundo e não era eu. Disseram o nome do primeiro e não era eu.

Os jornalistas lançaram-se sobre o primeiro, transformaram-no num novelo de gente. Era sempre possível saber onde estava, levava essa confusão para onde ia. E foi como se uma luz se tivesse apagado sobre a cabeça dos que não ganharam. De repente, as pessoas deixaram de querer falar connosco. Se lhes dizíamos alguma coisa, não respondiam; se lhes sorríamos como antes, não sorriam de volta. Aos poucos, como se nos reconhecêssemos entre uma multidão de desconhecidos, os que não ganharam foram-se juntando. Quando pedíamos uma bebida, os empregados viravam-nos as costas. Éramos invisíveis.

Voltei ao hotel na primeira carrinha. As avenidas, o elevador, o corredor alcatifado, cheguei ao quarto, descalcei os sapatos apertados e fui para a varanda. Estava a mais de vinte andares de altura. Então, de repente, as luzes de São Paulo apagaram-se todas. A cidade desapareceu. Esse apagão não é uma conveniência metafórica, foi noticiado por toda a imprensa brasileira no dia seguinte. Para mim, naquela hora, foi um descanso que senti merecer.

Quem sou hoje olha para quem eu era nesse tempo e encontra-lhe enormes defeitos. Achando que tentava sobreviver, cometi muitos erros. Talvez aqueles com que não me voltei a cruzar acreditem que ainda sou o mesmo. Talvez a vida me dê oportunidade de me redimir perante esses olhares. Ou não, talvez a única redenção possível seja aquela que, em consciência, for capaz de dar a mim próprio.

Uma coisa é certa: se tivesse ganho esse prémio, não estava agora aqui. E eu gosto muito de estar aqui. O bom e o mau constroem-me todos os dias. Não se trata de uma desculpa de quem perdeu. A vida não aceita desculpas.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1095, de 27 de fevereiro | | 3 comentários

Uns a imaginarem os outros

Deixo-te os números, esses são concretos: as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta

Na semana passada, li num jornal que as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.

Sei algumas coisas sobre ti. Estás aí, existes e respiras.

Há uns dois ou três anos, o diretor de uma revista portuguesa de informação generalista, contou-me que, em todos os inquéritos aos leitores, a maioria dos homens só tinha críticas negativas a fazer. Os elogios chegavam quase exclusivamente de leitoras.

O cálculo de probabilidades é uma forma discreta de mostrar que não se tem a certeza do que se está a dizer. Ainda assim, esta é uma revista e tu estás a lê-la, por isso, se fores um homem há a possibilidade de que estejas impaciente. Se ainda não desististe de ler, talvez te pareça que estou só a encher papel, que tenho pouco para dizer. Se fores uma mulher, é provável que estejas à espera de ver onde quero chegar, optimista. Mas as probabilidades são muito imperfeitas e tu, apesar delas, continuas a ser tu. É bem possível que sejas um homem e pertenças à minoria. Da mesma maneira, podes facilmente ser uma mulher e sentir a mesma necessidade de afirmação que a maioria dos homens nunca ultrapassa.

Ia agora desculpar-me e dizer que sempre embirrei com teorias à volta das diferenças entre homens e mulheres, o que seria verdadeiro, mas não o vou fazer porque me dá um certo alívio afirmar que a maior parte dos homens nunca ultrapassa uma necessidade de afirmação primária, mesquinha, patética. E irritante, como se nota pela adjetivação que escolhi. Se Freud aqui estivesse, diria que lhes faltou elogios. Um círculo, portanto.

Homem maioritário ou minoritário, mulher maioritária ou minoritária, uma grande parte daquilo que sei sobre ti nasce de mim próprio. Avalio-te por aquilo que me parece possível, parece-me possível aquilo que concebo, concebo aquilo que já fui ou considerei. Ao mesmo tempo, interpreto-te através do filtro da minha insegurança, do meu medo, da minha própria necessidade de afirmação. E acredito que contigo também é assim. Aquilo que sabes de mim nasce de ti, através dos teus filtros. De novo, um círculo.

Estas palavras são pretextos. De mim, estas palavras dizem-te que estou aqui, existo e respiro.

Com boa ou má vontade, tens razão nos dois casos. É certo que tenho pouco para dizer, mas também é certo que, se quiseres mesmo, podes tentar perceber onde quero chegar. Não sei se leste o mesmo jornal que eu, na semana passada, mas quero dizer-te, ou repetir-te, que as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.

Não se trata de um cálculo de probabilidades, são números concretos. Eu sou uma pessoa. Tu és uma pessoa. Uns são oitenta e cinco pessoas. Outros são três mil e quinhentos milhões de pessoas, mais ou menos. Como eu, já estiveste em lugares com oitenta e cinco pessoas, oitenta e quatro se contarmos contigo. Custa mais imaginar três mil e quinhentos milhões de pessoas.

O que sabemos dessas pessoas? Existem? Respiram? Onde estão? Será que podemos compará-las connosco? Será que podemos compará-las umas com as outras? Umas são piores do que as outras? São melhores? Umas merecem mais do que as outras? Merecem menos?

Tu e eu não pertencemos nem aos oitenta e cinco, nem aos três mil e quinhentos milhões. Convenientemente, essa verdade pode ilibar-nos de procurar resposta para estas perguntas. Já temos tanto com que nos preocupar. Uma das coisas que sabes de ti é que não podes resolver todos os problemas do mundo. Ou será que, abusivamente, te estou a imaginar a partir do que me parece possível, do que concebo, do que já fui ou considerei?

De novo, as dúvidas. É-me difícil evitá-las. Também há as probabilidades, mas já te disse aquilo que penso acerca delas. Deixo-te os números, esses são concretos: as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.

Li num jornal da semana passada. Ainda não se desatualizou. É deste tempo, deste mundo. Está a acontecer com tanta realidade como aqui, aí, como aquilo que iremos encontrar no momento em que deixarmos estas palavras e olharmos em volta.

 

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1091, de 30 de janeiro | | 19 comentários

Rouba-se

Aquilo que mais me choca é, neste país, uma agência imobiliária tão conhecida, ter ladrões deste nível. Saber que em todas as atividades há maus profissionais não desculpa tudo

Decidi comprar um apartamento neste país. Tenho quase 40 anos, não devo nada a ninguém, achei que podia. Não me refiro a extravagâncias, falo de um T2 pequeno mas pago a pronto. Escrevo num tempo em que há milhares de casas à venda. Chega-se a uma rua portuguesa, olha-se para a fachada de um prédio de habitação e, quase sempre, em qualquer andar, há um ou mais letreiros, vende-se, há números de telefone a pedirem que se lhes ligue.

No meu quotidiano, lido com diversos imateriais, palavras e outros mistérios intangíveis. Nesse aspeto, é como se trabalhasse no contrário da construção civil. Talvez por isso, um apartamento é algo que me impressiona. Durante a minha adolescência, duvidei muitas vezes que algum dia chegasse a ser tão adulto ao ponto de comprar uma casa. Não me imaginava nesse papel, acreditava que a idade era um vício pequeno-burguês.

Debaixo dos restos dessa ilusão, comecei a visitar apartamentos que pareciam sempre mais tristes ao vivo do que nas descrições ao telefone, nas frases de abreviaturas do jornal ou nas fotografias da internet. O cheiro dessas casas era triste, frio, cinzento. Assim, criei a rotina de encontrar um homem sozinho à frente da porta de um prédio, cumprimentá-lo com a falta de investimento das relações entre desconhecidos, entrar com ele para uma casa vazia e trocar lugares-comuns com que ambos concordávamos sobre casas de banho, cozinhas, marquises, a área, a vista, a humidade.

Por fim, quando achei uma casa que merecia uma oferta, tive de ganhar coragem. Sabia que poderia ser aceite. Ainda assim, como me ensinaram, comecei abaixo do que estava disposto a dar, esperando uma normal contraproposta. Esse era um apartamento que me tinha sido mostrado por um agente imobiliário, de gravata. Como se esperasse que os dados parassem de rolar, a resposta chegou logo no dia seguinte. A proprietária tinha aceite, sem regatear um euro. Cansado de casas, cansado de pesar vantagens e desvantagens, entusiasmei-me. O indivíduo da agência imobiliária também parecia entusiasmado, tanto que estava cheio de pressa para fazer o contrato de promessa de compra e venda. Ficou marcado para daí a dois dias. Estou naquela idade em que a maioria dos agentes imobiliários são mais novos do que eu e, por isso, não estranhei.

Ele tinha insistido bastante para que pagasse a entrada com dois cheques. Segundo ele, dava muito jeito à senhora. Um dos cheques representava exatamente 10% do valor do negócio. Foi só no banco, enquanto esperava, que comecei a pensar nisso. Tinha o nome da proprietária escrito num papelinho e decidi fazer uma busca na internet com meu telemóvel. Os únicos resultados foram documentos do tribunal que diziam respeito ao filho, a darem conhecimento de que este tinha faltado à presença do juiz em processos relativos a falsificação de documentos, burla, tráfico de estupefacientes e posse ilegal de armas. Uma das suas últimas moradas conhecidas era aquele apartamento que me preparava para comprar.

Foi como se o próprio tempo abrandasse e mudasse de cor. Até aí, tinha imaginado o melhor. A partir daí, imaginei o pior. Liguei ao advogado que me ajudou com o livro da Coreia do Norte e em tantas outras ocasiões. Conclusão resumida do drama judicial: o apartamento era propriedade da senhora e do seu falecido marido, o que significava que o filho, mesmo que em paradeiro desconhecido, também era dono de uma parte. Sem ele, o contrato poderia ter sido feito, a casa poderia mesmo ter sido escriturada mas não a teria conseguido registar e acabaria sem o dinheiro e sem o apartamento. O filho estava tão desaparecido que se preparavam para nunca o mencionar.

Mesmo com o advogado em campo, o agente imobiliário não desistiu em nenhum momento de tentar que o negócio ou, pelo menos, o contrato fosse avante. Em qualquer um dos casos, receberia a sua comissão.

O dinheiro que amealhei durante anos não chegou a sair da minha conta. Muito obrigado, Google. Aquilo que mais me choca é, neste país, uma agência imobiliária tão conhecida, ter ladrões deste nível. Saber que em todas as atividades há maus profissionais não desculpa tudo. Neste preciso país e neste preciso momento, o apartamento continua lá, com um letreiro da agência imobiliária na janela, vende-se, à espera de outro.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1080, de 14 de novembro | | 11 comentários

Guiné-Bissau

Numa rua de terra, senti agarrarem-me na mão e levarem-me o telemóvel. Corri alguns passos atrás desse vulto, mas vieram mais por trás. Agarrei a carteira e puxaram-me de todos os lados. Um deles deu-me um murro no nariz e na boca para me fazer largá-la. Não conseguiu

Antes de chegar ao mercado de Bandim, no centro de Bissau, já tinha reparado nas nuvens. Enormes, grossas, esculpidas em branco puro, a contrastarem com todas as cores do chão: a terra vermelha, rasgada por faixas de lama brilhante, e o lixo de cores desmaiadas, apodrecidas, castanhos tristes. Sobre isto passavam mulheres a levarem todo o tipo de volumes à cabeça: caixas, latas, baldes. As cores dos tecidos que usavam eram vivas como se ardessem, azul a arder, verde a arder, amarelo a arder. Às vezes, quando vistas de frente, essas mulheres tinham um par de pezinhos espetados sobre as ancas. Quando vistas por trás, lá estava o rosto da criança, de face espalmada sobre as costas da mãe, a escutar-lhe a respiração, com o corpo moldado pela faixa que as unia.

Bandim anoitecia e, talvez por isso, notava-se uma pressa, uma febre. Muitas mãos escolhiam de montes de sapatos usados, todos diferentes. Nesse mesmo passeio, os corpos caminhavam desencontrados, tentavam desviar-se uns dos outros à última hora e, com frequência, não conseguiam. Esbarravam com os cotovelos, com os ombros, com os joelhos. Seguíamos à distância de nos cheirarmos. Pelo meio, homens com carrinhos de mão cheios de qualquer peso. Às vezes, durante minutos contados, algum desses encostava-se e ficava a ver o movimento, orgulhoso do seu carrinho de mão. Na estrada, um pouco abaixo do passeio, pessoas em cadeiras de rodas passavam a pedalar com as mãos à frente do peito. Logo atrás, entre táxis amolgados a apitarem sem descanso, os toca-toca, pintados de amarelo e azul, paravam onde calhava. A porta de trás abria-se de repente, como se tivesse levado um pontapé desde o interior, talvez tivesse. Saía um e entravam meia dúzia ou todos os que quisessem, havia sempre lugar. Esses toca-toca iam para o Aeroporto, para São Paulo, para o Bairro Militar ou para o Enterramento.

E, de repente, a noite. Num canto, uma sombra zangada com o telemóvel, a gritar em crioulo. Noutro canto, outra sombra a gritar sem que se percebesse para quem, para ninguém quase de certeza. E os contornos da multidão desenhados pelos faróis dos carros. Gente a conversar comigo no meio, através de mim. Às vezes, eu a desviar-me de algum jato de cuspo que tivesse sido lançado para o lado, entre os dentes. A pouca luz era ainda suficiente para ver os pequenos montes de vegetais sobre tabuleiros de lata. Algumas vendas com os balcões cobertos por uma rede de ferro, iluminadas desde o interior por candeeiros a gás, a venderem latas pobres e caixas de fósforos, saquinhos de óleo de palma e de molho picante, com letreiros toscos a dizerem "há cana bordão", sumo de caju fermentado, alcoólico. E a pressa de toda a gente era cada vez maior. Alguém me despejou um alguidar de água negra sobre os pés. Saído do meio da multidão, um homem com uma perna encolhida e torta avançava com desenvoltura impressionante, apoiando-se num pau grosso, a remar no chão.

E foi como se o céu rebentasse. Os trovões pareciam chegar desde o fundo da terra. A chuva caia como de fosse disparada, atirada com maldade, descarregada. As gotas davam chapadas onde batiam. Apagaram-se os fogareiros de assar espetadas de carne seca e maçarocas de milho. Encostei-me a uma parede, com as goteiras a escorrerem diante de mim e de outros que ainda tinham apanhado lugar, com camisolas de algodão grosso, atravessadas por suor e terra. Os carros apitavam desesperados. A chuva parecia querer lavar tudo, purificar tudo. Quando os relâmpagos riscavam o céu, era como se, por instantes, fosse dia pálido e cinzento. Nessa trégua, podia ver-se uma multidão de rostos abrigados nos destroços de Bandim.

Quando acalmou, a noite era opaca. Poucas luzes, exceto os relâmpagos, a afastarem-se, a desenharem altas copas de árvores de encontro ao horizonte. Tranquilo, talvez a sorrir, eu regressava cheio de imagens. Então, numa rua de terra, senti agarrarem-me na mão e levarem-me o telemóvel. Corri alguns passos atrás desse vulto, mas vieram mais por trás. Agarrei a carteira e puxaram-me de todos os lados. Um deles deu-me um murro no nariz e na boca para me fazer largá-la. Não conseguiu. Eram uns cinco ou seis e desapareceram na escuridão.

Quando cheguei à luz, tinha a camisola e as mãos cheias de sangue. A ferida no nariz não doía muito, estava meio dormente, só começou a doer mais tarde. Está a doer agora. Sei bem que os finais costumam encerrar uma conclusão mas, neste momento, não sei o que pensar. Só sei que foi assim que aconteceu.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1075, de 10 de outubro | | 3 comentários

Na despedida de um amigo

Não me lembro de melhor lugar para nos despedirmos. Nesse dia, o Urbano sorriu muito e fadigou-se de tanto entusiasmo. Foi um dia bom

Estava demasiado calor naquele hotel sem ar condicionado. Numa cidade pequena do interior da Rondónia, num extremo do vasto Brasil, depois de milhares de quilómetros, depois de estradas intermináveis, depois de paisagens intermináveis, arrumado à fronteira com a Bolívia, eu mantinha um sono ligeiro, destapado, agitado, desconfortável. Quando o telefone tocou, eu não sabia que horas eram.

Eram cinco e meia da manhã. No auscultador, a milhares de quilómetros, uma voz deu-me a notícia que o meu amigo tinha morrido.

Só despertei realmente depois de entender essas palavras. Foi como se faltasse um segundo ao tempo.

Vesti umas calças e saí do quarto. Descalço e em tronco nu, dei passos no corredor sem saber para onde ia. Levantava-se um amarelo muito grosso sobre os telhados da cidade, a manhã começava a nascer devagar. Eu tinha um bom posto para assistir a essa vaga de claridade porque, no fim do corredor, cheguei a uma varanda aberta sobre as casas baixas, as ruas paralelas, perpendiculares, de terra vermelha, varridas, com árvores enormes, folhas e pássaros, pés centenários de manga.

O céu era grande e existia por cima de tudo isso.

Foi nesse silêncio que consegui pensar no que tinha acontecido. Então, telefonei à Ana, mulher do meu amigo, viúva, minha amiga também. O telefone a chamar: uma nota sustentada, repetida, estridente. Não foi a Ana que atendeu, foi uma voz séria. Pronunciei o meu nome, perguntei se podia falar com ela e passaram-ma. Estava a chorar. Disse-lhe aquilo que consegui.

Quando desliguei, as lágrimas eram quentes e desacertadas de tudo o que tinha diante de mim. Sem pressa, avançavam bicicletas ao longo das ruas da cidade. Ao ritmo de pedaladas demoradas, escutava-se o rolar das rodas de borracha na terra lisa, às vezes a resvalarem muito ligeiramente. Sentados no selim dessas bicicletas iam rapazes e raparigas de uniforme. Dirigiam-se para mais um dia de liceu. Com frequência, passavam aos pares, duas bicicletas lado a lado, rapazes de calças passadas a ferro, raparigas de saia, meias brancas, cabelos presos com um laço, a rirem-se despreocupadas.

A Ana estava no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, rodeada pela falta de sentido da morte. Eu era ainda capaz de distinguir o eco do choro, o peso das palavras que tinha usado. Mas, mais do que essa impressão, eu era capaz de imaginá-la com toda a nitidez, naquele preciso momento, no hospital, rodeada.

Das primeiras vezes que fui a casa do Urbano, lembro-me de um armário enorme, de madeira maciça, trabalhada, que estava na sala. No interior, guardava pilhas de livros seus sem organização. Quando se estendia a mão, tanto se podia agarrar um volume português, com décadas, como podia tratar-se de um tradução búlgara, húngara, romena de um livro seu que nem ele próprio conseguia identificar.

Ao longo dos anos, subi muitas vezes as escadas de madeira desse prédio. Cruzava-me curioso com os casais que saiam da pensão e, quando tocava à campainha, escutava os passos cada vez mais lentos do Urbano a atravessar o longo corredor e, depois, a sua voz através da porta, antes de abrir.

Quando morre um amigo, sente-se o fim de uma época. Nesse momento, a pele irreversível do passado ganha uma realidade objetiva, absoluta. Como uma pedra atirada às águas da barragem, a afundar-se no líquido, no fresco e na escuridão. E, de repente, o tempo, a idade, o tamanho de uma vida: assuntos que o Urbano conhecia bem.

A última vez que estivemos juntos foi há alguns meses, na livraria Barata, na Avenida de Roma. Tive sorte. Ao apresentar-lhe o seu último livro, pude sentir a ilusão de devolver-lhe um pequeno grão da infinita generosidade que sempre colocou nas centenas de livros que apresentou. Além disso, foi numa livraria. Não me lembro de melhor lugar para nos despedirmos. Nesse dia, o Urbano sorriu muito e fadigou-se de tanto entusiasmo. Foi um dia bom.

Tivemos esse dia. Tivemos as nossas conversas, eu a conduzir, ele a falar-me de outros mundos e de outros tempos, tivemos os nossos filhos pequenos a brincarem diante de nós, tivemos os livros, as aulas na universidade, algumas viagens, Paris, Madrid, e os abraços. Tivemos os abraços.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1071, de 12 de setembro | | 3 comentários

O meu lugar

Nenhum continente é demasiado grande ou demasiado estéril para me impedir de atravessá-lo

Quando era pequeno, rodava sobre mim próprio com as pontas dos pés. Rodar-rodar-rodar: as formas a saírem dos contornos, as cores a misturarem-se demasiado rápidas e, depois, ao parar de repente, o chão como um barco debaixo da tempestade, a paisagem inteira a oscilar desgovernada, eu a tentar equilibrar-me e, ao mesmo tempo, criança, a apreciar esse caos. A seguir, a pouco e pouco, o horizonte abrandava e voltava a fixar-se.

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

Posso estar a falar com a minha mãe, como há dois dias atrás, e ela diz-me: aquele sobreiro que fica entre o campo da bola e o Monte da Torre. E, entre tantos, eu sei exactamente qual o sobreiro a que se refere. Essa é a precisão com que sei o meu lugar. As ruas, calcetadas com paralelos, suportam o meu pensamento desde que nasci. Em gestos largos, os muros são caiados anualmente porque o branco precisa de renovação, a pureza é uma tarefa permanente.

Esses foram os anos em que viajou pelo mundo inteiro. Não sei que voz irá dizer esta frase sobre a minha vida neste tempo.

O mais provável será ser eu próprio a dizêla: Esses foram os anos em que viajei pelo mundo inteiro. Em qualquer dos casos, essa frase será dita quando já não aguentar o ritmo deste tempo, desta idade em que atravesso oceanos como se rodasse sobre mim próprio. Com os olhos cheios, quando paro de repente, o chão balança, a paisagem ondula. É então que o meu lugar, paz/certeza, me nivela.

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

Com tantas viagens, como é que consegue escrever? Ouço esta questão de muitas vozes, em muitas línguas, vinda de pessoas que nunca se conhecerão umas às outras.

Dou qualquer resposta que me pareça satisfazê-las rapidamente. Às vezes, nem preciso usar palavras, basta sorrir. Quem faz perguntas não está sempre interessado em saber as respostas.

No tom prosaico dessas conversas, seria difícil explicar que eu tenho um lugar, está sempre comigo. É visível e invisível. Há oliveiras centenárias agarradas a essa terra. Há uma forma de respirar que só é possível sob essa aragem. Há fontes de bicas fartas, onde jorra tudo o que amo e me ama.

Quando era pequeno, os campos eram enormes. Cresci mais do que podia imaginar e, no entanto, os campos continuam enormes. Entre o que me puxa de um lado e de outro, há o meu lugar a manter-me firme, a fornecer-me equilíbrio infinito.

A diferença de forças é incomparável. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

Levo comigo uma origem e um destino.

Levo comigo um sentido. Irreversível como um mergulho, não me perturbo. Eu tenho um lugar. Sinto que lhe conheço cada detalhe e, no entanto, todos os dias o exploro e lhe encontro novidade. No meu lugar, os sinos do adro dão as horas.

É difícil vermo-nos a nós próprios, sei bem. Falta a perspectiva da distância, os espelhos distorcem, o rosto com que nos olham está sempre tingido pela cor que trazem por dentro. É também por isso que me faz tanta falta o meu lugar. Sem ele, talvez acreditasse no primeiro reflexo que me apresentassem. Sem ele, talvez dependesse desses humores para imaginar quem sou.

Assim, estou preparado para atravessar o mundo inteiro. E, se mais mundo houver, mais mundo será tocado pela minha pele.

Mi-nha pe-le, palavras pronunciadas sílaba a sílaba. E nenhum continente é demasiado grande ou demasiado estéril para me impedir de atravessá-lo. E nenhum detetor de metais conseguirá identificar o tamanho e os ângulos do lugar que levo comigo: amor. Repito: amor.

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

Ainda rodo sobre mim próprio e, depois do mundo fosco, preciso de acreditar na nitidez que transporto, esse lugar meu, onde descanso e onde não sou um postal de tiragens sem fim, sempre deturpado um pouco mais, um pouco mais, milímetro a milímetro. Agradeço todo o contraste que consigo trazer para o caminho que construo. Não coloco limites nas temperaturas a que quero sujeitar os meus sentidos e nas lições que quero aprender.

Mas felizmente, tenho o meu lugar. Acompanha-me como um deus.

José Luís Peixoto | | 15 comentários

Prefiro dizer o título no fim

Deitado sobre a colcha da cama do meu quarto, eu tinha quinze, dezasseis anos e sabia que aquele livro estava a mudar a minha vida para sempre

Deitado sobre a colcha da cama do meu quarto, eu tinha quinze, dezasseis anos e sabia a importância do livro que estava a ler.

Nas aulas de português da escola secundária, o professor era um padre que chegava sempre composto e penteado, cabelo moldado com brilhantina. Tinha um anel no dedo mindinho e lia passagens desse livro com uma solenidade que me deixava a adivinhar o eco das suas missas. Depois, quando falava sobre o livro, entusiasmava-se e emocionava-se ao ponto de fechar os olhos. A sinceridade desses sentimentos era evidente e enchia a sala. Sem sair da sua postura, deixava escapar um sorriso discreto que cativava.

Li esse livro durante um verão. Julho, agosto, setembro. A seu tempo, anos antes, tinha sido lido pelas minhas irmãs. Habituara-me a ver a sua lombada numa prateleira do quarto delas e a saber que me esperava.

Eu passava esses verões a ajudar na carpintaria do meu pai. Sob o cheiro da madeira, o interior das árvores, fazia toda a espécie de pequenos trabalhos enquanto o meu pai e os outros homens montavam portas e janelas.

Essas horas eram diferentes porque eram muito lentas. As manhãs e as tardes pareciam intermináveis. Os homens estendiam os assobios pelo ar. Essas melodias atravessavam nuvens da serradura fina que se colava ao suor, atravessavam a luz que entrava pelas janelas do pátio, esbarravam no barulho ensurdecedor das máquinas e, depois, regressavam à sua liberdade virtuosa, com a pontuação de marteladas.

Quando chegava a casa, as roupas lavadas depois do banho eram um alívio para a pele. Sentia o descanso até nos pensamentos. Era nesses fins de tarde que me deitava sobre a colcha da cama do meu quarto e lia o livro. Pela janela, chegava o som dos sinos da vila e a claridade branda que o céu refletia, claridade rasa sobre a terra da tapada, a recortar as copas das oliveiras.

Então, diariamente, voltava àquele mundo. Tão diferente do meu e, no entanto, a puxar-me para o seu interior e, afinal, a pertencer-me também. O livro não me pesava nas mãos: as capas forradas a plástico e as anotações à margem, feitas a lápis, com a caligrafia da minha irmã Alzira.

Li a última página em setembro, já tinha feito dezasseis anos e, logo depois da última palavra, caí no silêncio. Nesses dias, falava menos ao carregar aros de portas. Ao serão, enquanto jogava bilhar na Casa do Povo, ficava mais calado do que o habitual, ouvia-se mais o barulho das bolas a baterem umas nas outras.

Quando a escola começou, ainda me adaptava a ser um ano mais velho, mas sentia-me preparado para o décimo primeiro ano. Na aula de português, quando o professor perguntou quem tinha lido o livro, levantei o braço o mais alto que consegui, como se crescesse ao fazê-lo. Ao meu lado, também de braço no ar, estavam outros que, sabia bem, não o tinham lido.

Começámos por Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano. O professor falava como se o seu rosto refletisse a devastação do campo de batalha. Lembro-me bem do modo longo, articulado, como pronunciava "Hermengarda". Depois, atravessámos o inverno com Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. A seguir, por fim, o título do livro surgiu nos sumários que o professor ditava no início da aula.

O livro. Ninguém notava, havia muitas outras coisas em que reparar, mas as palavras do professor encontravam um caminho até ao meu centro. Quando o professor escrevia algo no quadro, fazia-o com uma caligrafia muito certa. Cada frase, escrita ou falada, lançava luz sobre a minha memória do livro. Só o toque de saída interrompia essa homilia. Entre o som de vozes e cadeiras arrastadas, olhava para o professor a arrumar a pasta.

Um dia, quase no fim do segundo período, o professor não veio. Passou uma semana e continuou sem vir. Então, soubemos que estava doente. Passaram as férias da Páscoa e continuámos sem aulas de português. A meio do terceiro período, soubemos que o professor tinha morrido. Ficámos com a nota do segundo período e não chegámos a fazer qualquer teste com matéria de Os Maias, o livro que eu tinha lido no verão anterior.

Deitado sobre a colcha da cama do meu quarto, eu tinha quinze, dezasseis anos e sabia que aquele livro estava a mudar a minha vida para sempre.

José Luís Peixoto | | 5 comentários

Luta de classes

Admiro o povo ao qual pertenço. Não o povo mitificado, admiro o povo quotidiano. Gosto de ir a feiras. Gosto de comer frango assado com as mãos. Devo tanto à cultura deste povo como devo a Dostoievski

Não contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contrário, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.

A cultura é usada como símbolo de status por alguns, alfinete de lapela, botão de punho. A raridade é condição indispensável desse exibicionismo. Só pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa coleção de símbolos é descrita com pronúncia mais ou menos afetada e tem o objetivo de definir socialmente quem a enumera.

Para esses indivíduos raros, a cultura é caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, convém não haver misturas. Conheço melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no início da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escritórios for vista a ler um determinado livro nos transportes públicos, os snobs que assistam a essa imagem são capazes de enjeitá-lo na hora. Começarão a definir essa obra como "leitura de empregadas de limpeza" (com muita probabilidade utilizarão um sinónimo mais depreciativo para descrevê-las).

Este exemplo aplica-se em qualquer outra área cultural que possa chegar a muita gente: música, cinema, televisão, etc. Aquilo que mais surpreende é que estes "argumentos", esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indivíduos supostamente cultos, e só em escassas ocasiões é denunciada como discriminadora do ponto de vista sexual ou social.

Isso são livros de gaja, dizem eles. Às vezes, para cúmulo, há mesmo mulheres que dizem: isso são livros de gaja.

A raiz da minha cultura não pertence ao elitismo. Tenho orgulho das minhas origens, do meu avô pastor, do meu pai carpinteiro, como outros têm orgulho dos seus longos nomes compostos.

Depois de um trabalho que encerre convicções profundas, que tenha em conta os princípios da sua área artística, que seja consciente da história dessa área e que faça uma proposta coerente e inovadora, acredito na divulgação o mais ampla possível.

Esconder uma obra em tiragens de 300 exemplares não lhe acrescenta um grama de valor artístico. Quando essa falta de divulgação resulta de uma escolha, pressupõe, quase sempre, falta de consideração pelo público, a crença de que um público mais vasto seria incapaz de entender tamanha sofisticação.

Acredito que a poesia pode ser publicada em caixinhas de fósforos, escrita com trincha ou spray nas paredes, impressa em t-shirts, afixada no facebook. Em qualquer um desses lugares, será diferente, mas em todos continuará a ser poesia.

É ridícula a ideia de que a divulgação deturpa. A banalização é sempre tarefa de quem banaliza e não do objeto banalizado. Quem não for capaz de convocar os seus sentidos e a sua razão para apreciar uma determinada obra, apenas por acreditar que se encontra muito difundida, tem problemas graves ao nível do espírito crítico e da isenção mais básica. Esse é um daqueles casos em que se aconselha a lavagem de olhos. É aí que reside a deturpação.

Admiro o povo ao qual pertenço. Não o povo mitificado, admiro o povo quotidiano. Gosto de ir a feiras. Gosto de comer frango assado com as mãos. Devo tanto à cultura deste povo como devo a Dostoievski Há alguns meses, a personagem de uma telenovela citou um poema escrito por mim. Toda a gente da minha rua viu e ouviu. A minha mãe ficou orgulhosa e eu também.

Chamo-me José ou, se preferirem, Zé. Desprezo o elitismo. O verbo não é exagerado, adequa-se bem ao que sinto.

Hei de sempre divulgar o meu trabalho na máxima dimensão das minhas capacidades. Devo esse esforço à convicção que tenho naquilo que escolhi dizer. Fico feliz se vejo os meus livros disponíveis em supermercados, estações de correios, bombas de gasolina ou bibliotecas públicas.

Aquilo que faço não existe sozinho, precisa de alguém que lhe dê sentido, o seu próprio sentido e interpretação pessoal. Se uma árvore cair sozinha na floresta, sem ninguém por perto, será que faz barulho? Por esse motivo, o esforço de divulgação é também uma mostra de respeito para com essas pessoas, é um sinal da minha crença nelas e no seu valor. Exatamente como estas palavras, que existem porque estás a lê-las.

Escrevo romances, a minha força de vontade é enorme. Tenho 38 anos, conto estar por cá durante bastante tempo. Tenho ainda muito por fazer. Habituem-se. Não tenho medo.

 

 

destaque:

 

José Luís Peixoto, Texto publicado na VISÃO 1052, de 2 de maio | | 16 comentários

Família

Esses almoços de domingo moldaram a minha vida

A toalha de mesa era nova e só se usava nesses almoços de domingo. Havia uma garrafa de laranjada de vidro grosso ao centro da mesa, ao lado do vinho. Antes, o meu pai tinha-me mandado à venda. Levava uma alcofa com duas garrafas vazias. O cheiro do vinho tinto estava entranhado nas paredes. Nessas horas, fim da manhã de domingo, atravessava as fitas e não estava ninguém na venda, só a caixa das pastilhas de mentol e uma cadela que não se incomodava com a minha presença. Tinha de bater com a palma da mão no balcão, que me chegava à altura dos ombros, e, meio tímido, tinha de chamar: Ti Lourenço, Ti Lourenço. Quando chegava, trazia a sua calma e o seu bigode. Trocava a garrafa vazia de laranjada por uma cheia e acertava o gargalo da outra garrafa na torneira do barril. Eu pagava com o número certo de notas de vinte e moedas de cinco escudos.

Nesses dias, não faltava sol no quintal. Agora, parece-me que eram sempre domingos de uma primavera em que já se imaginava o verão. E as galinhas debatiam um assunto calmo na capoeira, as coelhas ameigavam os filhos na coelheira, os pombos atiravam-se em voos desde o pombal. A claridade desse tempo entrava pela janela e pousava sobre a mesa posta, a melhor terrina com canja, os melhores copos, os guardanapos dos dias de festa. A televisão a cores brilhava. Estava ligada e não importa o que estivesse a dar, programas religiosos, concertos em Viena, grandes prémios intermináveis de automobilismo, qualquer coisa era boa e acrescentava cor à nossa tarde. Eu tinha entre seis e treze anos (1980-1987).

Depois, chegou uma altura em que essa toalha de mesa, já mais desbotada, começou a ser usada nas refeições dos dias de semana. Lavada muitas vezes, tornou-se mais suave ao toque. Ganhou nódoas que já não saíam e, um dia, tornou-se demasiado velha até para esse uso. Então, a minha mãe rasgou-a e transformou-a num esfregão. Agora, até esse dia é remoto. Até o dia em que a minha mãe decidiu pôr o esfregão no lixo é remoto.

Esses almoços de domingo moldaram a minha vida.

Quando era pequeno, qualquer tarefa me absorvia por completo. Se decidia fazer uma torre de lego, não tinha mais pensamentos enquanto escolhia as peças e as encaixava umas nas outras. Hoje, não há nada que seja capaz de me prender a atenção dessa forma. Aconteceram muitas coisas ao meu olhar.

Tenho a idade que os meus pais tinham durante esses almoços e pergunto-me se eles olhariam para mim da maneira que eu, agora, olho para os meus filhos. Nesse tempo, os meus filhos e as minhas sobrinhas não existiam. A parte do mundo em que eles não existiam era cruel. Talvez os meus pais já fossem capazes de imaginar este momento, eu crescido, estas crianças à mesa, a minha mãe com setenta anos e o meu pai sem estar cá.

Pergunto-me como é que a minha mãe, que foi menina num tempo que imagino a partir de poucas fotografias, que tratou de todos os almoços de quando eu era pequeno, vê este tempo, sentada no seu lugar, a ser tratada por avó pela voz destas crianças à espera de crescerem e de, também elas, ocuparem todos os lugares da mesa.

Chego a casa de uma das minhas irmãs. A televisão está ligada num dos canais de desenhos animados. As vozes fingidas dos bonecos misturam-se com as nossas vozes, reais, a dizerem palavras que, para mim, com trinta e oito anos, são demasiado nítidas.

Sinto-me culpado. Diante de todas as escolhas, como diante de cruzamentos, quando escolhi caminhos que me afastavam dos almoços de domingo, senti-me sempre culpado. Os almoços nunca são na minha casa. Não tenho casa para almoços de domingo.

Recebo mensagens no telemóvel a lembrarem-me de trabalhos que tenho de fazer até amanhã. Não os tinha esquecido, claro. As minhas sobrinhas e os meus filhos falam de algo que não entendo, um jogo de computador, o Justin Bieber ou um lutador de wrestling. As minhas irmãs entram nas divisões com travessas saídas do forno. A minha mãe pergunta-me se já paguei a segurança social. Está preocupada. Depois de lhe garantir que vou pagar amanhã, repete esse pedido três vezes, quatro vezes. Olho para ela e, em silêncio, peço-lhe para não envelhecer mais.

A toalha de mesa é nova. A toalha de mesa é sempre nova.

José Luís Peixoto | | 7 comentários
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