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Outro aqui, outro alguém

Não acredites que basta um avião para alcançar os lugares mais distantes

É bem lá fora. É até detrás das montanhas. Mais longe do que o Tarrafal, mais longe do que Pedra Badejo, mais longe do que a Praia. É longe sim. Se fosse perto, era fácil. Se fosse perto, quase não tinha valor. Ouve-me bem, menino, escuta-me. É mesmo mais longe do que Portugal, mais longe do que a Holanda, mais longe do que a América. Tu, que conheces os netos da Nha Rosa de Odjo Fino, sabes do que estou a falar. Quando eles chegam, agosto sim, agosto não, com aquelas roupas novas, brilhantes, com o crioulo enferrujado e as mãos desacostumadas do pilão. Quando eles chegam embalsamados como pássaros de penas envernizadas, a cheirarem a avião e com os olhos inchados de tudo o que viram, com a boca a tropeçar em palavras que não chegam para todas as explicações. Pois, fica sabendo que nem os netos da Nha Rosa de Odjo Fino, filhos da Neide de Nha Rosa, filhos da Zumila de Nha Rosa, vieram de tão longe, nem eles conheceram tanta distância.

Aproxima-te, menino. Este ano, as montanhas esverdearam. As caldeiras que os homens cavaram, as montanhas escamadas, tiveram utilidade preciosa para receber a chuva. Santa chuva, sagrada chuva, bênção molhada, repente de milagre. Este ano, haverá milho distribuído por cachupas ricas e, depois, cachupas guisadas. Cachupas ricas ao domingo, barrigas redondas, homens de perna aberta, sentados, a conversarem sobre a mocidade antiga, o sol morno, e crianças correndo, não sentindo as pedras, terra vermelha, cheia de esperança. E, depois, cachupas guisadas, junto com o café da manhã, cheiro bom de acordar com fartura, manhãs tão limpas, tão nítidas e, lá por detrás da montanha, o mar.

Faz falta mais mar, mais oceano, cheio de fresco e de peixe para fazer caldo de peixe. Tão bom. Tu não, menino, mas os homens podem tomar o grogue que quiserem, podem até abusar um poucochinho, nada chega a ser muito num poucochinho. Depois, um caldo de peixe bem picante, daqueles que fazem transpirar a raiz dos cabelos, limpa tudo, faz passar tudo. Até as gengivas se encolhem no topo dos dentes. Ui. É muito bom ter a língua a arder e passá-la pelos lábios. Essas horas têm também a forma das tardes de domingo, requerem descanso enorme e sombra. Eu, de fala com as minhas irmãs, sempre conheci essas horas. Repetem-se semanalmente e, nesses instantes, toda a Ilha de Santiago aproveita para respirar. Na Praia, e na Assomada também, os papéis são arrastados nas ruas pelo vento. Na Pedra Badejo ou na Calheta de São Miguel. No mar inteiro, nas ondas próprias para a viagem, já se sabe.

Não temas a viagem. Fizeram-nos viajantes. Sabemos que existe aqui, mas sabemos também que existe lá longe. Menino, lá longe está à nossa espera. Lá longe não mete desdém porque chegaremos lá e, nesse momento, transformar-nos-emos em lá longe. Não é lá longe que se transforma em nós, é o contrário, o vice-versa.

Não acredites que basta um avião para alcançar os lugares mais distantes. ?Às vezes, perto e longe são uma misturada. Às vezes, está tão perto e está parecido com milhentos quilómetros de lonjura. ?Às vezes, está na ponta do nariz, só se vê de olhos vesgos e, mesmo assim, está pior do que a lua ou do que aquelas estrelas que não se percebe se são estrelas ou se são reflexos a falharem nos olhos.

Repito: não temas a viagem. Quando a começares, lembra-te sempre que é longe, very longe, como diziam os primos americanos. Dá o primeiro passo já com essa certeza. Não queiras esquecer-te do tamanho enorme dessa distância. Lê-a nos meus olhos. Repara bem lá no fundo dos meus olhos. Vês? Mais fundo do que um poço, mais fundo do que todos os anos da minha vida. É longe, menino. É longe com muita força, com muito peso. Quando parecer que falta pouco, desconfia. Quando parecer que já chegaste, não acredites. Não há vento, chuva ou sol, não há mar, nem sequer mar, não há céu ou noite, não há morte ou planeta que seja tão longe. Lá fora, logo ali, há muito. Há suficiente para lembrar pela vida inteira, não importa quantos anos se viva. Mas, lá longe, há tudo. Mesmo que seja tão longe, tão lá fora, tão sem proteção, sob a inclemência de segredos que nunca serão completamente desvendados.

Longe, muito longe, filho, mas não impossível.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1125, de 25 de setembro) | | 4 comentários

Península, ponto de interrogação

Nuestros hermanos? Só se estivermos a falar daqueles hermanos que foram separados à nascença, criados por pais completamente diferentes e que, depois de muitos anos, por enorme acaso, se apercebem de que são hermanos. Normalmente, essas histórias dão belos telefilmes

Quem são estas pessoas que moram aqui ao lado? Evitamo-las tanto quanto possível. Se vamos para sair e os ouvimos a chegar, esperamos atrás da porta, fazemos tempo em silêncio e só saímos quando não há risco de nos cruzarmos nas escadas. Mas, às vezes, distraímo-nos, entramos no elevador e estão lá, carregados de sacos do supermercado, ou a regressarem de passear o cão. Envergonhados da nossa própria voz, soltamos um cumprimento sumido e, depois, um silêncio longo, doloroso.

Quando eu tinha a idade do meu filho mais novo, a televisão portuguesa só começava quase à hora de jantar. Na minha região, conseguíamos apanhar os canais espanhóis. Nesse tempo, admirava-me com os prémios ganhos pelos concursantes do Precio Justo, com os anúncios, com quase tudo. Depois, quando tinha a idade do meu filho mais velho, ficava acordado até tarde, à espera de uns filmes mais atrevidos que podiam chegar ou não. Em qualquer dos casos, habituava-me com curiosidade à voz espanhola de vários atores de Hollywood.

Nesse tempo, ainda era preciso parar na fronteira. A partir de certa altura, começou a bastar o bilhete de identidade. Mesmo assim, Elvas era um mundo e Badajoz era outro. Comprávamos sacos de rebuçados com pinhões, caramelos que se colavam ao céu da boca, latas de ananás e de pêssego, melocotones, comprávamos relógios digitais, teoricamente à prova de água, que se acertavam com a ponta de uma esferográfica.

Numa das ocasiões em que fui com os meus pais a Espanha, ficámos com as chaves trancadas dentro do carro. Usando um arame, usando jeito e calma, não demorámos muito a abri-lo, mas permaneceu esse medo de ficarmos fechados em Espanha.

Como se diz arame em castelhano? Tenho orgulho no meu portunhol. O esforço dos portugueses para falar línguas nasce da generosidade. A vontade de comunicar com o outro exige desprendimento, é preciso ser capaz de não se levar demasiado a sério, de não ter medo de errar e, às vezes, tocar o ridículo, como uma daquelas máquinas que já não existem: hola, dame una moneda.

Avaliando pelos tradutores que conheço, sofre-se bastante mais a traduzir entre português e castelhano do que entre português e húngaro. Os tradutores ibéricos são avaliados em todos os artigos, pronomes e proposições. Não há falante de portunhol, como eu, que não sugira listas alternativas de sinónimos e que não se escandalize com detalhes. Já um tradutor que trabalhe com português e outras línguas, finlandês, japonês, tem liberdade para mudar a ordem dos complementos, para suprimir adjetivos, para mudar verbos, para encurtar frases que lhe pareçam demasiado longas, como esta.

Há já alguns anos, fiz um circuito de apresentações e de leituras na Lituânia e na Polónia acompanhado por três autores espanhóis: um andaluz, um galego e um madrileno, que era o único que realmente se identificava como espanhol. Aprendemos a beber vodka, comemos inúmeros pernis de porco no forno e houve uma certa empregada de mesa em Vilnius pela qual todos nos apaixonámos. Aqui, na península, teríamos encontrado mil diferenças; lá, surpreendíamo-nos com as mesmas novidades, reparávamos nos mesmos pontos, entendíamo-nos.

Nuestros hermanos? Só se estivermos a falar daqueles hermanos que foram separados à nascença, criados por pais completamente diferentes e que, depois de muitos anos, por enorme acaso, se apercebem de que são hermanos. Normalmente, essas histórias dão belos telefilmes.

Quem são os cantores que os espanhóis ouvem? Imagino que essa seja a pergunta final e impossível do Quem quer ser milionário? Os concursantes de lá também não sabem responder sobre nós, claro. Não fazem a mínima ideia acerca de quem são os Xutos e Pontapés. Talvez para compensar, uma vez por ano, no festival da canção, lá vêm eles contracorrente: Portugal, diez puntos.

Apesar do Almodóvar, qualquer português que já tenha ido ao cinema, conhece mais realizadores americanos do que espanhóis. O mesmo acontece com escritores, artistas plásticos, agentes de cultura ou personalidades referidas na revista Hola! E vice-versa, sempre vice-versa em tudo.

O voo entre Madrid e Lisboa demora cerca de uma hora. Com a diferença horária, aterra-se no aeroporto da Portela à mesma hora a que se partiu de Barajas. E entre tantas perguntas, outra: se o tempo permanece, como pode mudar o espaço?

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1108, de 29 de maio | | 2 comentários

Aquilo que os meus amigos esperam de mim

Não escrevo prefácios, não sugiro os livros, não faço elogios públicos, não dedico textos. Os meus amigos sabem tudo isto sobre mim

Dou pouca conveniência aos meus amigos.

Não escrevo prefácios. Por telefone, por email ou ao vivo, começam a elogiar-me. Com os anos, fui-me acostumando e identifico a situação logo nessa fase. Então, enquanto espero que terminem, vou ensaiando a resposta na cabeça. Por fim, quando me fazem o convite para lhes prefaciar o seu novo livro, que pode ser uma antologia de contos, poemas ou crónicas, um romance ou um ensaio sobre o século XVII, já tenho as minhas razões prontas e começo a enumerá-las. Quase como se estivesse a escrever um desses prefácios, escolho palavras que não choquem e explico que considero esses textos humilhantes para os livros que prefaciam, sem mais benefício do que uma ilusão comercial ou de estatuto. Tento explicar que conheço bem a vontade de encontrar um público, mas que não acredito que consigam alcançá-lo através desses prefácios vazios e desnecessários de nomes conhecidos. Quando termino, já está bem claro que me retiraram os elogios iniciais, perderam a validade.

Não sugiro os livros a editores. Nesse caso, o problema é de outra natureza. O desinteresse repetido que mostraram pelas minhas sugestões fez-me perder a confiança. Entre os editores e eu, há livros, podemos mesmo ser vistos juntos, em diálogo ameno, mas existimos em dimensões diferentes. Ignorando a crueza desse desencontro, recebo pedidos para ler blogues ou montes de folhas, solicitam a minha opinião. A experiência mostrou-me que, na maioria das vezes, não há qualquer vontade real de conhecer o que penso. Trata-se quase sempre de pedidos de confirmação: eles já sabem que são bons, génios da literatura, apenas precisam de uma declaração escrita, um certificado. E mesmo que fossem aquilo que julgam, os editores não me ouvem, como já disse. Mas, parando um instante, porque haveriam de ouvir? Seriam maus editores se as minhas opiniões tivessem o peso que esses pedidos de leitura supõem.

Não faço elogios públicos. Nunca utilizei textos como este, ou como outros, parentes deste, publicados noutras páginas, para gabar amigos ou conhecidos. Defendo os elogios. Acredito que não há elogios suficientes. Sou contra a austeridade de elogios. Os elogios enobrecem quem os faz. No entanto, repugnam-me quando fazem parte de um mercado de troca directa. A detracção de alvos escolhidos, inimizades de amigos, é uma das faces desse mesmo comércio, mas ainda mais repugnante, fruto de inseguranças não assumidas. Entrar nesse jogo é como mentir, não tem saída: uma mentira precisa sempre de novas mentiras que a justifiquem.

Não dedico textos. Uma licenciatura em línguas e literaturas modernas pode ser utilizada para vários fins. A mim, serviu-me para, entre outras coisas, firmar a convicção de que todos os elementos textuais devem contribuir para o sentido do texto literário a que se referem. Ou seja: eu dedico textos, mas tem de haver uma razão, uma intenção, que acrescente significado formal ou semântico ao próprio texto. Se eu quiser agradecer aos meus amigos, ou demonstrar-lhes que gosto deles, escrevo-lhes um email, não lhes dedico um livro. Este é, aliás, um bom modo de se evitar que, anos mais tarde, se passe pelo triste papel de apagar dedicatórias de reedições.

Os meus amigos sabem tudo isto sobre mim. Mais, sabem que ando sempre a correr atrás de alguma coisa e que, por isso, pode passar muito tempo entre os nossos encontros. Também eles andam a correr atrás de alguma coisa. Havemos de marcar um almoço, havemos de marcar um café, repetimos a acreditar que vai ser assim. Sentimos falta, mas habituámo-nos a ela. Quando, finalmente, estamos no mesmo lugar, somos desconhecidos para os filhos uns dos outros que, entretanto, cresceram bastante. Então, temos muito para contar, actualizações antigas que nos mostram o verdadeiro tamanho do tempo que passou. Mas o à-vontade mantém-se intacto. Porque os meus amigos não são aqueles para quem fui tudo até ao momento em que passei a ser nada, não são aqueles que me abandonaram quando deixei de lhes ser útil, os meus amigos não são aqueles com quem partilhei segredos e que, anos mais tarde, quando nos cruzamos por acaso, nem sei se hei-de cumprimentá-los.

 

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1103, de 124de abril | | 9 comentários

Conta lá a história das bibliotecas itinerantes

Na formação e na vida, a televisão não substitui a leitura e o cinema

Às vezes, dou por mim a falar nisso perante uma plateia que me olha como se estivesse a dar notícias de um mundo meio real, meio imaginário. Não preciso de pensar muito no que estou a dizer porque, por preguiça, utilizo quase sempre as mesmas palavras, basta-me seguir o desejo de exotismo que encontro nos olhos que me fixam. Então, parece-me, sou um pouco como aqueles escritores africanos ou sul-americanos a quem se exige episódios coloridos, personagens singulares, anedotas, contos com moral.

Ainda assim, cada vez mais raramente, acontece estar alguém na sala que também conheceu essas bibliotecas, que também lá esteve. Então, de repente, as palavras voltam a ganhar significado, enchem-se. Ouço essa pessoa contar as suas memórias e, durante aquele instante, somos irmãos no olhar. As descrições têm préstimo, mas há uma presença muito mais funda, invisível, há a certeza de que, afinal, aquele tempo e aquele lugar existiram mesmo. Até eu já começava a duvidar.

As fitas adesivas coladas nas lombadas eram reais.

Uma vez por mês, ao fim da tarde, a carrinha Citroën chegava ao terreiro de Galveias, calhava-nos as quartas-feiras. Ficava estacionada em frente da cooperativa. Em Galveias, depois do 25 de Abril, o clube dos ricos passou a sede da cooperativa. Quando eu chegava, vindo dos lados do São João, já havia outros rapazes e raparigas à volta da carrinha.

Impressionava-me a quantidade de livros. Precisava de me esticar para chegar às prateleiras mais altas e, por isso, parecia-me que não tinham fim. O senhor Dinis conduzia a carrinha, recebia os papéis preenchidos com os códigos dos livros que requisitávamos, foi então que aprendi esse verbo, e era dentista. Eu conhecia-o da sala de espera, aquele cheiro antissético, onde aguardava a minha mãe e as minhas irmãs. Encontrei-o no ano passado na biblioteca de Abrantes, tirámos uma fotografia juntos. Aproveito para lhe enviar um abraço. Espero que esteja a ler estas palavras, com saúde.

Levávamos sempre a quantidade máxima de livros. E, sim, é verdade aquilo que costumo dizer: líamos muito depressa os que tínhamos e, depois, íamos trocando entre nós até ao regresso da biblioteca no mês seguinte.

Esse era também o tempo das sessões de cinema do Inatel no centro paroquial e na casa do povo. Foi dessa forma que, em Galveias, desci a ladeira, passei pela travessa da fonte e cheguei a casa com o rosto incendiado pelo Apocalipse Now. Foi também assim que assisti ao Baile, de Ettore Scola, sentado em cadeiras de tábua dura exatamente como aquelas em que assistia a bailes no salão da sociedade filarmónica. Poderia agora dar muitos outros exemplos.

Conheço as crianças de Galveias. Há dois anos, estive na escola onde também eu aprendi a ler e vejo-as na rua quando lá vou. No entanto, se quero identificá-las, tenho de perguntar-lhes quem são os seus pais. Nos sábados de manhã, ouve-se muito menos crianças a brincar do que no meu tempo. No ano passado, na minha terra, morreram mais de cinquenta pessoas e nasceram apenas duas.

As crianças de Galveias são iguais às de antes. Sinto pena que tenham menos do que eu tinha há quase trinta anos. Não se evoluiu. Na formação e na vida, a televisão não substitui a leitura e o cinema.

Ao falar de bibliotecas itinerantes aos meus filhos ou a essas crianças, sinto que sou como o meu pai quando me contava histórias da sua infância. Eu sabia que se tinham passado com ele mas, para mim, esse conhecimento era muito vago, pareciam lendas. No entanto, esse tempo era tão concreto como este. Um dia, este tempo, hoje de manhã, ontem, este preciso momento, será contado pelos meus filhos e por essas crianças com o mesmo tom com que agora falo de bibliotecas itinerantes. Naquele tempo, dirão. E aquele tempo será isto, tão concreto, tão prosaico, tão isento de magia. Estes objetos sem graça serão esse incrível futuro.

Eu, que estou aqui neste instante, também estava lá, a cheirar aqueles livros, a subir para a carrinha, a escutar a voz do doutor Dinis. Por isso, ainda que use as mesmas palavras até à exaustão, hei de continuar a repetir esta história. Sempre. É a minha história.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1099, de 27 de março | | 4 comentários

Os prémios recebem-se na altura devida e têm muitas formas

Havia jornalistas de suplementos literários e de revistas sociais, a uns falava-se de uma maneira, a outros falava-se de outra. Essa ginástica não era difícil porque eles próprios falavam de formas diferentes

Não me lembro da maneira como soube que estava nos finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura. Alguns meses antes, soube por email que o meu romance fazia parte de uma primeira seleção. Fiquei agradado mas não pensei muito nisso, a matemática desaconselhava ilusões. Mas, depois, entre dez finalistas, quando tentei não pensar, falhei.

Essa dificuldade de me abstrair foi alimentada por tudo o que aceitei fazer: compareci no aeroporto à hora do voo que me pagaram para São Paulo, instalei-me no hotel com os outros finalistas e, à hora marcada, estava na receção, lavado, barbeado e penteado, à espera da carrinha que nos havia de levar à cerimónia. Era uma dessas carrinhas de nove lugares. Coubemos todos porque alguns dos finalistas moravam em São Paulo e iam pelos seus meios. A mistura de perfumes era ligeiramente enjoativa. No trânsito, falou-se de qualquer assunto aleatório, que não tocasse em opiniões acerca de quem poderia ganhar o prémio.

Fomos os primeiros a chegar a um lugar com arquitetura e plantas exóticas, onde empregados fardados recebiam instruções sobre como deveriam servir canapés em tabuleiros. As mesas estavam a ser postas. Uma mulher com auscultadores e microfone ficou aliviada por já termos chegado, menos um problema para ela. A estrearmos roupas muito diferentes daquelas que vestimos todos os dias, esperámos uma hora até que chegassem os primeiros convidados.

Os jornalistas não eram poucos e distinguiam-se com facilidade. Havia jornalistas de suplementos literários e de revistas sociais, a uns falava-se de uma maneira, a outros falava-se de outra. Essa ginástica não era difícil porque eles próprios falavam de formas diferentes. Havia os jornalistas da televisão, que nos apontavam um holofote aos olhos e que chamavam todas as atenções, e havia os outros, que nos escondiam num canto, onde sussurrávamos para um gravador.

Além disso, com um cálice na mão, tive conversas que nunca mais recordarei em toda a minha vida. Em rodas de pessoas de simpatia extrema, respondi a perguntas, partilhei risos ralos e agradeci os votos de boa sorte e as palavras daqueles que me agarravam no braço e diziam só para eu ouvir: acredito que você vai ganhar.

Não é fácil contradizer o otimismo dos brasileiros.

Então, senhoras e senhores, chegou o momento de anunciar os premiados. Um altifalante pediu silêncio. Disseram o nome do terceiro premiado e não era eu. Disseram o nome do segundo e não era eu. Disseram o nome do primeiro e não era eu.

Os jornalistas lançaram-se sobre o primeiro, transformaram-no num novelo de gente. Era sempre possível saber onde estava, levava essa confusão para onde ia. E foi como se uma luz se tivesse apagado sobre a cabeça dos que não ganharam. De repente, as pessoas deixaram de querer falar connosco. Se lhes dizíamos alguma coisa, não respondiam; se lhes sorríamos como antes, não sorriam de volta. Aos poucos, como se nos reconhecêssemos entre uma multidão de desconhecidos, os que não ganharam foram-se juntando. Quando pedíamos uma bebida, os empregados viravam-nos as costas. Éramos invisíveis.

Voltei ao hotel na primeira carrinha. As avenidas, o elevador, o corredor alcatifado, cheguei ao quarto, descalcei os sapatos apertados e fui para a varanda. Estava a mais de vinte andares de altura. Então, de repente, as luzes de São Paulo apagaram-se todas. A cidade desapareceu. Esse apagão não é uma conveniência metafórica, foi noticiado por toda a imprensa brasileira no dia seguinte. Para mim, naquela hora, foi um descanso que senti merecer.

Quem sou hoje olha para quem eu era nesse tempo e encontra-lhe enormes defeitos. Achando que tentava sobreviver, cometi muitos erros. Talvez aqueles com que não me voltei a cruzar acreditem que ainda sou o mesmo. Talvez a vida me dê oportunidade de me redimir perante esses olhares. Ou não, talvez a única redenção possível seja aquela que, em consciência, for capaz de dar a mim próprio.

Uma coisa é certa: se tivesse ganho esse prémio, não estava agora aqui. E eu gosto muito de estar aqui. O bom e o mau constroem-me todos os dias. Não se trata de uma desculpa de quem perdeu. A vida não aceita desculpas.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1095, de 27 de fevereiro | | 3 comentários

Uns a imaginarem os outros

Deixo-te os números, esses são concretos: as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta

Na semana passada, li num jornal que as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.

Sei algumas coisas sobre ti. Estás aí, existes e respiras.

Há uns dois ou três anos, o diretor de uma revista portuguesa de informação generalista, contou-me que, em todos os inquéritos aos leitores, a maioria dos homens só tinha críticas negativas a fazer. Os elogios chegavam quase exclusivamente de leitoras.

O cálculo de probabilidades é uma forma discreta de mostrar que não se tem a certeza do que se está a dizer. Ainda assim, esta é uma revista e tu estás a lê-la, por isso, se fores um homem há a possibilidade de que estejas impaciente. Se ainda não desististe de ler, talvez te pareça que estou só a encher papel, que tenho pouco para dizer. Se fores uma mulher, é provável que estejas à espera de ver onde quero chegar, optimista. Mas as probabilidades são muito imperfeitas e tu, apesar delas, continuas a ser tu. É bem possível que sejas um homem e pertenças à minoria. Da mesma maneira, podes facilmente ser uma mulher e sentir a mesma necessidade de afirmação que a maioria dos homens nunca ultrapassa.

Ia agora desculpar-me e dizer que sempre embirrei com teorias à volta das diferenças entre homens e mulheres, o que seria verdadeiro, mas não o vou fazer porque me dá um certo alívio afirmar que a maior parte dos homens nunca ultrapassa uma necessidade de afirmação primária, mesquinha, patética. E irritante, como se nota pela adjetivação que escolhi. Se Freud aqui estivesse, diria que lhes faltou elogios. Um círculo, portanto.

Homem maioritário ou minoritário, mulher maioritária ou minoritária, uma grande parte daquilo que sei sobre ti nasce de mim próprio. Avalio-te por aquilo que me parece possível, parece-me possível aquilo que concebo, concebo aquilo que já fui ou considerei. Ao mesmo tempo, interpreto-te através do filtro da minha insegurança, do meu medo, da minha própria necessidade de afirmação. E acredito que contigo também é assim. Aquilo que sabes de mim nasce de ti, através dos teus filtros. De novo, um círculo.

Estas palavras são pretextos. De mim, estas palavras dizem-te que estou aqui, existo e respiro.

Com boa ou má vontade, tens razão nos dois casos. É certo que tenho pouco para dizer, mas também é certo que, se quiseres mesmo, podes tentar perceber onde quero chegar. Não sei se leste o mesmo jornal que eu, na semana passada, mas quero dizer-te, ou repetir-te, que as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.

Não se trata de um cálculo de probabilidades, são números concretos. Eu sou uma pessoa. Tu és uma pessoa. Uns são oitenta e cinco pessoas. Outros são três mil e quinhentos milhões de pessoas, mais ou menos. Como eu, já estiveste em lugares com oitenta e cinco pessoas, oitenta e quatro se contarmos contigo. Custa mais imaginar três mil e quinhentos milhões de pessoas.

O que sabemos dessas pessoas? Existem? Respiram? Onde estão? Será que podemos compará-las connosco? Será que podemos compará-las umas com as outras? Umas são piores do que as outras? São melhores? Umas merecem mais do que as outras? Merecem menos?

Tu e eu não pertencemos nem aos oitenta e cinco, nem aos três mil e quinhentos milhões. Convenientemente, essa verdade pode ilibar-nos de procurar resposta para estas perguntas. Já temos tanto com que nos preocupar. Uma das coisas que sabes de ti é que não podes resolver todos os problemas do mundo. Ou será que, abusivamente, te estou a imaginar a partir do que me parece possível, do que concebo, do que já fui ou considerei?

De novo, as dúvidas. É-me difícil evitá-las. Também há as probabilidades, mas já te disse aquilo que penso acerca delas. Deixo-te os números, esses são concretos: as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.

Li num jornal da semana passada. Ainda não se desatualizou. É deste tempo, deste mundo. Está a acontecer com tanta realidade como aqui, aí, como aquilo que iremos encontrar no momento em que deixarmos estas palavras e olharmos em volta.

 

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1091, de 30 de janeiro | | 19 comentários

Rouba-se

Aquilo que mais me choca é, neste país, uma agência imobiliária tão conhecida, ter ladrões deste nível. Saber que em todas as atividades há maus profissionais não desculpa tudo

Decidi comprar um apartamento neste país. Tenho quase 40 anos, não devo nada a ninguém, achei que podia. Não me refiro a extravagâncias, falo de um T2 pequeno mas pago a pronto. Escrevo num tempo em que há milhares de casas à venda. Chega-se a uma rua portuguesa, olha-se para a fachada de um prédio de habitação e, quase sempre, em qualquer andar, há um ou mais letreiros, vende-se, há números de telefone a pedirem que se lhes ligue.

No meu quotidiano, lido com diversos imateriais, palavras e outros mistérios intangíveis. Nesse aspeto, é como se trabalhasse no contrário da construção civil. Talvez por isso, um apartamento é algo que me impressiona. Durante a minha adolescência, duvidei muitas vezes que algum dia chegasse a ser tão adulto ao ponto de comprar uma casa. Não me imaginava nesse papel, acreditava que a idade era um vício pequeno-burguês.

Debaixo dos restos dessa ilusão, comecei a visitar apartamentos que pareciam sempre mais tristes ao vivo do que nas descrições ao telefone, nas frases de abreviaturas do jornal ou nas fotografias da internet. O cheiro dessas casas era triste, frio, cinzento. Assim, criei a rotina de encontrar um homem sozinho à frente da porta de um prédio, cumprimentá-lo com a falta de investimento das relações entre desconhecidos, entrar com ele para uma casa vazia e trocar lugares-comuns com que ambos concordávamos sobre casas de banho, cozinhas, marquises, a área, a vista, a humidade.

Por fim, quando achei uma casa que merecia uma oferta, tive de ganhar coragem. Sabia que poderia ser aceite. Ainda assim, como me ensinaram, comecei abaixo do que estava disposto a dar, esperando uma normal contraproposta. Esse era um apartamento que me tinha sido mostrado por um agente imobiliário, de gravata. Como se esperasse que os dados parassem de rolar, a resposta chegou logo no dia seguinte. A proprietária tinha aceite, sem regatear um euro. Cansado de casas, cansado de pesar vantagens e desvantagens, entusiasmei-me. O indivíduo da agência imobiliária também parecia entusiasmado, tanto que estava cheio de pressa para fazer o contrato de promessa de compra e venda. Ficou marcado para daí a dois dias. Estou naquela idade em que a maioria dos agentes imobiliários são mais novos do que eu e, por isso, não estranhei.

Ele tinha insistido bastante para que pagasse a entrada com dois cheques. Segundo ele, dava muito jeito à senhora. Um dos cheques representava exatamente 10% do valor do negócio. Foi só no banco, enquanto esperava, que comecei a pensar nisso. Tinha o nome da proprietária escrito num papelinho e decidi fazer uma busca na internet com meu telemóvel. Os únicos resultados foram documentos do tribunal que diziam respeito ao filho, a darem conhecimento de que este tinha faltado à presença do juiz em processos relativos a falsificação de documentos, burla, tráfico de estupefacientes e posse ilegal de armas. Uma das suas últimas moradas conhecidas era aquele apartamento que me preparava para comprar.

Foi como se o próprio tempo abrandasse e mudasse de cor. Até aí, tinha imaginado o melhor. A partir daí, imaginei o pior. Liguei ao advogado que me ajudou com o livro da Coreia do Norte e em tantas outras ocasiões. Conclusão resumida do drama judicial: o apartamento era propriedade da senhora e do seu falecido marido, o que significava que o filho, mesmo que em paradeiro desconhecido, também era dono de uma parte. Sem ele, o contrato poderia ter sido feito, a casa poderia mesmo ter sido escriturada mas não a teria conseguido registar e acabaria sem o dinheiro e sem o apartamento. O filho estava tão desaparecido que se preparavam para nunca o mencionar.

Mesmo com o advogado em campo, o agente imobiliário não desistiu em nenhum momento de tentar que o negócio ou, pelo menos, o contrato fosse avante. Em qualquer um dos casos, receberia a sua comissão.

O dinheiro que amealhei durante anos não chegou a sair da minha conta. Muito obrigado, Google. Aquilo que mais me choca é, neste país, uma agência imobiliária tão conhecida, ter ladrões deste nível. Saber que em todas as atividades há maus profissionais não desculpa tudo. Neste preciso país e neste preciso momento, o apartamento continua lá, com um letreiro da agência imobiliária na janela, vende-se, à espera de outro.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1080, de 14 de novembro | | 11 comentários

Guiné-Bissau

Numa rua de terra, senti agarrarem-me na mão e levarem-me o telemóvel. Corri alguns passos atrás desse vulto, mas vieram mais por trás. Agarrei a carteira e puxaram-me de todos os lados. Um deles deu-me um murro no nariz e na boca para me fazer largá-la. Não conseguiu

Antes de chegar ao mercado de Bandim, no centro de Bissau, já tinha reparado nas nuvens. Enormes, grossas, esculpidas em branco puro, a contrastarem com todas as cores do chão: a terra vermelha, rasgada por faixas de lama brilhante, e o lixo de cores desmaiadas, apodrecidas, castanhos tristes. Sobre isto passavam mulheres a levarem todo o tipo de volumes à cabeça: caixas, latas, baldes. As cores dos tecidos que usavam eram vivas como se ardessem, azul a arder, verde a arder, amarelo a arder. Às vezes, quando vistas de frente, essas mulheres tinham um par de pezinhos espetados sobre as ancas. Quando vistas por trás, lá estava o rosto da criança, de face espalmada sobre as costas da mãe, a escutar-lhe a respiração, com o corpo moldado pela faixa que as unia.

Bandim anoitecia e, talvez por isso, notava-se uma pressa, uma febre. Muitas mãos escolhiam de montes de sapatos usados, todos diferentes. Nesse mesmo passeio, os corpos caminhavam desencontrados, tentavam desviar-se uns dos outros à última hora e, com frequência, não conseguiam. Esbarravam com os cotovelos, com os ombros, com os joelhos. Seguíamos à distância de nos cheirarmos. Pelo meio, homens com carrinhos de mão cheios de qualquer peso. Às vezes, durante minutos contados, algum desses encostava-se e ficava a ver o movimento, orgulhoso do seu carrinho de mão. Na estrada, um pouco abaixo do passeio, pessoas em cadeiras de rodas passavam a pedalar com as mãos à frente do peito. Logo atrás, entre táxis amolgados a apitarem sem descanso, os toca-toca, pintados de amarelo e azul, paravam onde calhava. A porta de trás abria-se de repente, como se tivesse levado um pontapé desde o interior, talvez tivesse. Saía um e entravam meia dúzia ou todos os que quisessem, havia sempre lugar. Esses toca-toca iam para o Aeroporto, para São Paulo, para o Bairro Militar ou para o Enterramento.

E, de repente, a noite. Num canto, uma sombra zangada com o telemóvel, a gritar em crioulo. Noutro canto, outra sombra a gritar sem que se percebesse para quem, para ninguém quase de certeza. E os contornos da multidão desenhados pelos faróis dos carros. Gente a conversar comigo no meio, através de mim. Às vezes, eu a desviar-me de algum jato de cuspo que tivesse sido lançado para o lado, entre os dentes. A pouca luz era ainda suficiente para ver os pequenos montes de vegetais sobre tabuleiros de lata. Algumas vendas com os balcões cobertos por uma rede de ferro, iluminadas desde o interior por candeeiros a gás, a venderem latas pobres e caixas de fósforos, saquinhos de óleo de palma e de molho picante, com letreiros toscos a dizerem "há cana bordão", sumo de caju fermentado, alcoólico. E a pressa de toda a gente era cada vez maior. Alguém me despejou um alguidar de água negra sobre os pés. Saído do meio da multidão, um homem com uma perna encolhida e torta avançava com desenvoltura impressionante, apoiando-se num pau grosso, a remar no chão.

E foi como se o céu rebentasse. Os trovões pareciam chegar desde o fundo da terra. A chuva caia como de fosse disparada, atirada com maldade, descarregada. As gotas davam chapadas onde batiam. Apagaram-se os fogareiros de assar espetadas de carne seca e maçarocas de milho. Encostei-me a uma parede, com as goteiras a escorrerem diante de mim e de outros que ainda tinham apanhado lugar, com camisolas de algodão grosso, atravessadas por suor e terra. Os carros apitavam desesperados. A chuva parecia querer lavar tudo, purificar tudo. Quando os relâmpagos riscavam o céu, era como se, por instantes, fosse dia pálido e cinzento. Nessa trégua, podia ver-se uma multidão de rostos abrigados nos destroços de Bandim.

Quando acalmou, a noite era opaca. Poucas luzes, exceto os relâmpagos, a afastarem-se, a desenharem altas copas de árvores de encontro ao horizonte. Tranquilo, talvez a sorrir, eu regressava cheio de imagens. Então, numa rua de terra, senti agarrarem-me na mão e levarem-me o telemóvel. Corri alguns passos atrás desse vulto, mas vieram mais por trás. Agarrei a carteira e puxaram-me de todos os lados. Um deles deu-me um murro no nariz e na boca para me fazer largá-la. Não conseguiu. Eram uns cinco ou seis e desapareceram na escuridão.

Quando cheguei à luz, tinha a camisola e as mãos cheias de sangue. A ferida no nariz não doía muito, estava meio dormente, só começou a doer mais tarde. Está a doer agora. Sei bem que os finais costumam encerrar uma conclusão mas, neste momento, não sei o que pensar. Só sei que foi assim que aconteceu.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1075, de 10 de outubro | | 3 comentários

Na despedida de um amigo

Não me lembro de melhor lugar para nos despedirmos. Nesse dia, o Urbano sorriu muito e fadigou-se de tanto entusiasmo. Foi um dia bom

Estava demasiado calor naquele hotel sem ar condicionado. Numa cidade pequena do interior da Rondónia, num extremo do vasto Brasil, depois de milhares de quilómetros, depois de estradas intermináveis, depois de paisagens intermináveis, arrumado à fronteira com a Bolívia, eu mantinha um sono ligeiro, destapado, agitado, desconfortável. Quando o telefone tocou, eu não sabia que horas eram.

Eram cinco e meia da manhã. No auscultador, a milhares de quilómetros, uma voz deu-me a notícia que o meu amigo tinha morrido.

Só despertei realmente depois de entender essas palavras. Foi como se faltasse um segundo ao tempo.

Vesti umas calças e saí do quarto. Descalço e em tronco nu, dei passos no corredor sem saber para onde ia. Levantava-se um amarelo muito grosso sobre os telhados da cidade, a manhã começava a nascer devagar. Eu tinha um bom posto para assistir a essa vaga de claridade porque, no fim do corredor, cheguei a uma varanda aberta sobre as casas baixas, as ruas paralelas, perpendiculares, de terra vermelha, varridas, com árvores enormes, folhas e pássaros, pés centenários de manga.

O céu era grande e existia por cima de tudo isso.

Foi nesse silêncio que consegui pensar no que tinha acontecido. Então, telefonei à Ana, mulher do meu amigo, viúva, minha amiga também. O telefone a chamar: uma nota sustentada, repetida, estridente. Não foi a Ana que atendeu, foi uma voz séria. Pronunciei o meu nome, perguntei se podia falar com ela e passaram-ma. Estava a chorar. Disse-lhe aquilo que consegui.

Quando desliguei, as lágrimas eram quentes e desacertadas de tudo o que tinha diante de mim. Sem pressa, avançavam bicicletas ao longo das ruas da cidade. Ao ritmo de pedaladas demoradas, escutava-se o rolar das rodas de borracha na terra lisa, às vezes a resvalarem muito ligeiramente. Sentados no selim dessas bicicletas iam rapazes e raparigas de uniforme. Dirigiam-se para mais um dia de liceu. Com frequência, passavam aos pares, duas bicicletas lado a lado, rapazes de calças passadas a ferro, raparigas de saia, meias brancas, cabelos presos com um laço, a rirem-se despreocupadas.

A Ana estava no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, rodeada pela falta de sentido da morte. Eu era ainda capaz de distinguir o eco do choro, o peso das palavras que tinha usado. Mas, mais do que essa impressão, eu era capaz de imaginá-la com toda a nitidez, naquele preciso momento, no hospital, rodeada.

Das primeiras vezes que fui a casa do Urbano, lembro-me de um armário enorme, de madeira maciça, trabalhada, que estava na sala. No interior, guardava pilhas de livros seus sem organização. Quando se estendia a mão, tanto se podia agarrar um volume português, com décadas, como podia tratar-se de um tradução búlgara, húngara, romena de um livro seu que nem ele próprio conseguia identificar.

Ao longo dos anos, subi muitas vezes as escadas de madeira desse prédio. Cruzava-me curioso com os casais que saiam da pensão e, quando tocava à campainha, escutava os passos cada vez mais lentos do Urbano a atravessar o longo corredor e, depois, a sua voz através da porta, antes de abrir.

Quando morre um amigo, sente-se o fim de uma época. Nesse momento, a pele irreversível do passado ganha uma realidade objetiva, absoluta. Como uma pedra atirada às águas da barragem, a afundar-se no líquido, no fresco e na escuridão. E, de repente, o tempo, a idade, o tamanho de uma vida: assuntos que o Urbano conhecia bem.

A última vez que estivemos juntos foi há alguns meses, na livraria Barata, na Avenida de Roma. Tive sorte. Ao apresentar-lhe o seu último livro, pude sentir a ilusão de devolver-lhe um pequeno grão da infinita generosidade que sempre colocou nas centenas de livros que apresentou. Além disso, foi numa livraria. Não me lembro de melhor lugar para nos despedirmos. Nesse dia, o Urbano sorriu muito e fadigou-se de tanto entusiasmo. Foi um dia bom.

Tivemos esse dia. Tivemos as nossas conversas, eu a conduzir, ele a falar-me de outros mundos e de outros tempos, tivemos os nossos filhos pequenos a brincarem diante de nós, tivemos os livros, as aulas na universidade, algumas viagens, Paris, Madrid, e os abraços. Tivemos os abraços.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1071, de 12 de setembro | | 3 comentários

O meu lugar

Nenhum continente é demasiado grande ou demasiado estéril para me impedir de atravessá-lo

Quando era pequeno, rodava sobre mim próprio com as pontas dos pés. Rodar-rodar-rodar: as formas a saírem dos contornos, as cores a misturarem-se demasiado rápidas e, depois, ao parar de repente, o chão como um barco debaixo da tempestade, a paisagem inteira a oscilar desgovernada, eu a tentar equilibrar-me e, ao mesmo tempo, criança, a apreciar esse caos. A seguir, a pouco e pouco, o horizonte abrandava e voltava a fixar-se.

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

Posso estar a falar com a minha mãe, como há dois dias atrás, e ela diz-me: aquele sobreiro que fica entre o campo da bola e o Monte da Torre. E, entre tantos, eu sei exactamente qual o sobreiro a que se refere. Essa é a precisão com que sei o meu lugar. As ruas, calcetadas com paralelos, suportam o meu pensamento desde que nasci. Em gestos largos, os muros são caiados anualmente porque o branco precisa de renovação, a pureza é uma tarefa permanente.

Esses foram os anos em que viajou pelo mundo inteiro. Não sei que voz irá dizer esta frase sobre a minha vida neste tempo.

O mais provável será ser eu próprio a dizêla: Esses foram os anos em que viajei pelo mundo inteiro. Em qualquer dos casos, essa frase será dita quando já não aguentar o ritmo deste tempo, desta idade em que atravesso oceanos como se rodasse sobre mim próprio. Com os olhos cheios, quando paro de repente, o chão balança, a paisagem ondula. É então que o meu lugar, paz/certeza, me nivela.

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

Com tantas viagens, como é que consegue escrever? Ouço esta questão de muitas vozes, em muitas línguas, vinda de pessoas que nunca se conhecerão umas às outras.

Dou qualquer resposta que me pareça satisfazê-las rapidamente. Às vezes, nem preciso usar palavras, basta sorrir. Quem faz perguntas não está sempre interessado em saber as respostas.

No tom prosaico dessas conversas, seria difícil explicar que eu tenho um lugar, está sempre comigo. É visível e invisível. Há oliveiras centenárias agarradas a essa terra. Há uma forma de respirar que só é possível sob essa aragem. Há fontes de bicas fartas, onde jorra tudo o que amo e me ama.

Quando era pequeno, os campos eram enormes. Cresci mais do que podia imaginar e, no entanto, os campos continuam enormes. Entre o que me puxa de um lado e de outro, há o meu lugar a manter-me firme, a fornecer-me equilíbrio infinito.

A diferença de forças é incomparável. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

Levo comigo uma origem e um destino.

Levo comigo um sentido. Irreversível como um mergulho, não me perturbo. Eu tenho um lugar. Sinto que lhe conheço cada detalhe e, no entanto, todos os dias o exploro e lhe encontro novidade. No meu lugar, os sinos do adro dão as horas.

É difícil vermo-nos a nós próprios, sei bem. Falta a perspectiva da distância, os espelhos distorcem, o rosto com que nos olham está sempre tingido pela cor que trazem por dentro. É também por isso que me faz tanta falta o meu lugar. Sem ele, talvez acreditasse no primeiro reflexo que me apresentassem. Sem ele, talvez dependesse desses humores para imaginar quem sou.

Assim, estou preparado para atravessar o mundo inteiro. E, se mais mundo houver, mais mundo será tocado pela minha pele.

Mi-nha pe-le, palavras pronunciadas sílaba a sílaba. E nenhum continente é demasiado grande ou demasiado estéril para me impedir de atravessá-lo. E nenhum detetor de metais conseguirá identificar o tamanho e os ângulos do lugar que levo comigo: amor. Repito: amor.

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

Ainda rodo sobre mim próprio e, depois do mundo fosco, preciso de acreditar na nitidez que transporto, esse lugar meu, onde descanso e onde não sou um postal de tiragens sem fim, sempre deturpado um pouco mais, um pouco mais, milímetro a milímetro. Agradeço todo o contraste que consigo trazer para o caminho que construo. Não coloco limites nas temperaturas a que quero sujeitar os meus sentidos e nas lições que quero aprender.

Mas felizmente, tenho o meu lugar. Acompanha-me como um deus.

José Luís Peixoto | | 15 comentários
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