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Aquele emprego que eles têm lá em Bruxelas

Em janeiro, passam exatamente trinta anos desde que Portugal é membro da União Europeia. Quem irá comemorar esse aniversário?

Quando Mário Soares assinou o papel no Mosteiro dos Jerónimos, eu tinha onze anos. Por isso, fiz muitos trabalhos de grupo sobre a CEE, cortei muitas fotografias de revistas, colei-as em cartolinas de muitas cores, onde começava sempre a escrever sobre a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e terminava sempre a falar do espírito europeu.

Esse tal "espírito europeu" era um sonho lindo. Os países ricos iriam apoiar os mais pobres (chamavam a isso "políticas de convergência económica") e, juntos, iriam prosperar de forma harmoniosa e democrática.

Mesmo assim, nesse tempo, havia aqueles que, de um lado e de outro, se opunham a essa adesão. Os argumentos dessas duas partes eram diferentes, claro, mas a ambos sobravam razões: se uns falavam de patriotismo e perda de soberania nacional, outros invocavam internacionalismo e solidariedade entre os povos do mundo.

Hoje, parece incrível que alguém estivesse contra a entrada na União Europeia. A partir dos anos noventa, tornou-se difícil explicar às gerações mais jovens que esses indivíduos existiram de facto. Em polos opostos, seguiram caminhos semelhantes: ou foram candidatos ao Parlamento Europeu, ou bateram palmas e agitaram bandeiras. A sua opinião anterior perdeu a atualidade, como um penteado que se encontra nas fotografias antigas, como aqueles que eram maoístas e hoje são turistas ou médicos legistas.

Ao ritmo das presidências europeias, das capitais europeias da cultura e dos campeonatos europeus de atletismo, o tempo foi passando. De cinco em cinco anos, os comentadores das eleições para o Parlamento Europeu indignam-se ligeiramente com a "distância" dos cidadãos em relação às instituições da Europa, ficando essa falta de interesse visível nas percentagens da abstenção (66,2% em 2014). Essa indignação, no entanto, nunca ultrapassa o entusiasmo com que comentam os resultados partidários.

E, realmente, existe uma boa distância entre os cidadãos e essas instituições: ficam a milhares de quilómetros, noutro país, é preciso um avião para chegar lá.

Nas salas de reunião, eles dispõem de intérpretes para todos os idiomas. Se algum deputado falar em letão ou em esloveno, não há problema, basta pôr os auscultadores e alguém traduzirá. A nós, no entanto, falta-nos essa facilidade. Há muito que precisamos de intérpretes, alguém que explique o que estão realmente a dizer, mesmo quando falam a nossa própria língua.

Assim, de desinteresse em desinteresse, chegámos a hoje.

Hoje, a União Europeia é uma enorme instituição económica. Aquela que sempre foi a prioridade, a criação de um mercado europeu, transformou-se no seu interesse exclusivo. Deixou de valer a pena fingir que há outras áreas de relevância. À volta desse espaço, construíram-se muros que condenam à morte milhares de homens, mulheres, crianças, vemo-los na televisão e temos pena até à notícia seguinte.

Esse mercado europeu, esse espaço tão vantajoso para alguns, é como o recreio de uma escola do tempo em que eu tinha onze anos, quando fazia trabalhos de grupo e ainda se desconhecia a palavra bullying: os mais velhos batem nos mais novos, os que têm sapatilhas de marca humilham os que têm sapatilhas da feira.

Por sua vez, a União Europeia, antiga CEE, é comparável às ofertas de férias em time-sharing. Somos abordados na rua por jovens que nos querem fazer um inquérito. Depois de várias questões em que apontam as respostas com uma cruz, perguntam-nos: gosta de férias? Gosta de cocktails junto à piscina? E lá vamos nós para um escritório onde todas as ofertas são vantajosas, incluem seguro de saúde, são transmissíveis aos filhos e não é preciso pagar quase nada. Mal saímos à rua, parece-nos logo que fomos levados a fazer o que não queríamos. As consequências, no entanto, chegam mais tarde, quando as circunstâncias nos obrigam a ler o que assinámos de facto.

Em janeiro, passam exatamente trinta anos desde que Portugal é membro da União Europeia. Quem irá comemorar esse aniversário? Cerimónias oficiais à parte, quem virá espontânea e genuinamente para a rua celebrar esse dia? Apresentem-me essa pessoa, por favor, gostava de conhecê-la.

Se não entrássemos em 1986, se não concordássemos com as cotas de produção, as cotas de pescas, se não mudássemos de moeda, se não aceitássemos tudo, assustavam-nos sempre com o caos. Mas será que o caos era pior do que isto?

José Luís Peixoto, (Crónica publicada na VISÃO 1173, de 27 de agosto) | | Comente

Dívidas

Quanto devemos aos credores internacionais? Definiram juros e emprestaram aquilo de que não precisavam a outros que estavam aqui e que se retiraram na hora de pagar 

Quanto devemos aos bombeiros voluntários? Enquanto estamos aqui, preocupados com os nossos assuntos, a tratarmos daquilo que nos diz respeito, eles estão disponíveis para serem arrancados da sua vida e colocados à frente de chamas, incêndios que não foram ateados por eles, a arrasarem propriedades que não lhes pertencem. É domingo à tarde, por exemplo, e, de repente, estão num carro a alta velocidade, arrastam uma sirene desesperada ao longo do caminho. Encontram aflição quando chegam, desenrolam uma mangueira áspera e respiram golfadas de fumo que lhes mascarra as faces. Passam horas assim e, no final de tudo, a sua recompensa será assistir à desolação de um campo negro e, talvez, beber de um pacote de leite oferecido por alguém.

Há bombeiros voluntários que morrem durante esse trabalho. Quanto devemos à sua memória? Quanto devemos às famílias desses bombeiros mortos? Agora, onde estiverem, sentem a sua ausência em todos os dias. São pais, filhos, maridos, mulheres, irmãos que imaginam como seria a vida daqueles que perderam, imaginam-nos com idades que nunca chegarão a ter.

Quanto devemos aos técnicos do INEM? Quanto devemos aos enfermeiros? Quanto devemos às pessoas que recebem os doentes nas urgências dos hospitais? São poucos os que têm paciência de preencher os papéis, mas os papéis precisam de ser preenchidos.

Quanto devemos aos professores? Não sabem onde vão trabalhar para o ano, não sabem se terão trabalho. Quanto devemos aos jovens em cubículos de call-centers? Quanto devemos aos estagiários não remunerados? Quanto devemos aos vendedores com excesso de habilitações? Quanto devemos aos desempregados? Quanto devemos aos músicos? Depois de aprenderem a tocar, passam anos a fazê-lo de borla para nosso divertimento e, garantem-lhes, para mostrar o seu trabalho. Ao fim da noite, entre o público, poucos considerarão trabalho aquilo que eles fizeram.

E quanto devemos aos bailarinos? Quanto devemos às bailarinas? Quanto devemos às atrizes? De repente, colocam-nas no centro de todos os olhares, de todos os julgamentos, a troco de uma oportunidade. Uma oportunidade de quê? Uma oportunidade de uma oportunidade. Serão velhas e terão a mesma maquilhagem. Quanto devemos a todos os que trabalham para que exista teatro e cinema neste país? Quanto devemos aos desportistas das chamadas modalidades amadoras? Levam o equipamento na mochila, vão para o treino depois do trabalho, chegam tarde a casa. Os fins de semana são pequenos, acabam depressa.

E quanto devemos aos atletas paralímpicos? Com muita probabilidade, quando os jogos forem notícia, havemos de contar medalhas de modalidades que desconhecemos e teremos moral para exigir; diremos cinco ou seis, sem nos lembrarmos que, atrás de cada uma, está o esforço contínuo de alguém durante anos.

Já que falamos nisso, quanto devemos àqueles que têm mobilidade reduzida e que não podem sair de casa? Não há rampas, há carros estacionados em cima de passeios com buracos, não há dinheiro para comprar a cadeira de rodas adequada. São prisioneiros sem culpa formada, sem acusação, sem julgamento. Foram condenados a prisão domiciliária. Não há data marcada para o fim da sua pena.

Quanto devemos aos guardas prisionais? Estão agora atrás de muros, rodeados de ameaças. Quanto devemos aos homens do lixo? Queixamo-nos do barulho que fazem quando recolhem o nosso próprio lixo. Não queremos ser incomodados, estamos a repousar. Quanto devemos às mulheres a dias? Havemos de culpá-las se desaparecer alguma coisa. Quanto devemos aos coveiros? E quanto devemos aos credores internacionais? Definiram juros e emprestaram aquilo de que não precisavam a outros que estavam aqui e que se retiraram na hora de pagar.

Ficámos cá nós, não temos para onde ir. A propósito, quanto devemos àqueles que emigraram? Deixaram a família contra a sua vontade. Vimo-los partir. Sentimos a sua falta.

Afinal, quanto devemos aos bancos e às instituições económicas internacionais? Nunca lidámos com elas. Os acordos foram feitos em nosso nome mas, tantas vezes, sem o nosso conhecimento. Enquanto isso acontecia, estávamos a viver, acreditando que contribuíamos para a construção, dignidade e prosperidade do país a que pertencemos.

Quanto devemos a nós próprios? Não se trata de não pagar as nossas dívidas, trata-se de saber a quem devemos.

José Luís Peixoto | | Comente

Dois em mil

Uma rapariga ficou parada ao meu lado. Olhei para ela. Não olhou para mim e foi-se embora. Passados minutos, voltou

Com oito milhões de habitantes, Xian é uma cidade chinesa de dimensão média. Os turistas que dormem nos seus hotéis interessam-se pouco por visitá-la. Chegam cansados de Xangai ou de Pequim. Na manhã seguinte, têm de acordar cedo. Não querem perder o minibus que os levará por dezenas de quilómetros até ao famoso exército de terracota.

Depois de jantar, pedi na receção o inevitável cartão de visita com o nome do hotel em carateres chineses e saí sozinho. Xian estava com ótima temperatura. Entrei num jardim mal iluminado, onde centenas de pessoas de todas as idades faziam ginástica, cantavam à vez longas canções chinesas num pequeno palco ou, como eu, apenas caminhavam. Esse jardim tinha quilómetros, atravessei-o sem pressa. Chegado à saída, uma questão: esquerda ou direita?

Esquerda, seguia a direção do centro da cidade. Após uma rua, uma curva, outra curva, apercebi-me de uma porta rodeada por jovens, de onde saía música. Em meia dúzia de passos estava lá dentro, a subir uma escada alcatifada, a seguir na direção da música. Não passei por nenhum segurança, apenas tive de desviar-me do incrível número de rapazes e raparigas que entravam e saíam. E de repente: milhares de pessoas numa discoteca com um tamanho que não se podia prever desde a rua, uma espécie de pavilhão. O DJ estava lá ao fundo, a centenas de metros de distância.

O discoteca era atravessada por uma rede de balcões. Toda a gente estava sentada ao longo desses balcões. De pé, apenas os empregados e alguns soldados, sentinelas fardados, imperturbáveis perante as luzes, olhos imóveis, estátuas com capacetes de ferro e armas na mão. Só eu olhava, reparava neles, as outras pessoas estavam entretidas com as suas vidas. Quando alguém queria dançar, levantava-se e subia para cima de uns cubos.

Um empregado se aproximou de mim. Perguntei-lhe se falava inglês. Chamou três ou quatro que continuaram a tentar falar comigo em chinês. Por fim, chegou um quinto ou sexto que me segurou pelo braço, me levou até um banco vazio e me disse: sit here.

Sentei-me. Trouxe-me uma lista de bebidas. Pude ver então que todas as pessoas tinham grandes quantidades de garrafas fechadas à frente, garrafas de cerveja, de Coca-Cola, garrafas de vodka, de whisky, baldes de gelo. Era como se fosse obrigatório pedir de uma só vez aquilo que se ia consumir durante a noite inteira. Além das bebidas, havia também grandes travessas de fruta descascada. Especialmente, melancia. Havia raparigas que ficavam a olhar para o infinito e a comerem talhadas de melancia.

Pedi uma Corona porque era a única palavra que percebi da lista. Não havia ocidentais. A maioria das pessoas ignorava-me. Eu ia dando beijinhos na Corona e espantando-me com pormenores. Uma rapariga ficou parada ao meu lado. Olhei para ela. Não olhou para mim e foi-se embora. Passados minutos, voltou. Ao sair, passou-me a mão pela perna. Depois, veio outra rapariga. Também olhei para essa, também não olhou para mim e também se foi embora. Também voltou. Dessa vez, trouxe uma garrafa de água. Começou a tentar abri-la, como se fosse muito difícil, como se não tivesse força suficiente.

Não resisti. Sim, eu sei, mas não resisti. Ajudei-a a abrir a garrafa. Em meio minuto, éramos amigos. Perguntei-lhe se falava inglês, respondeu um yes convicto. Exagerava. Comunicando por sorrisos, subimos aos cubos e dançámos música pop chinesa. Ela sabia a letra. De repente, chegou um homem que começou a falar com ela muito ríspido. Pareciam discutir. Voltei para o meu lugar. Quando ela regressou, trazia-me uma cerveja. Dei um par de goles e apercebi-me de que era tarde, estava em Xian a beber uma cerveja que me tinha chegado aberta às mãos. Disse-lhe: toilette. Não entendeu. Fiz o gesto e saí. Contornei multidões e, já na rua, mostrei o cartão do hotel a um taxista. Ao chegar, dormi profundamente.

Sei que ninguém vai acreditar, sei que vão achar que quero arredondar a história mas, no dia seguinte, à tarde, estava eu dentro do minibus, no centro da cidade, quando, numa das mil ruas de Xian, a vi. Atravessava uma rua, era ela. Tenho a certeza de que era ela. Se não quiserem acreditar, tudo bem. Aquilo que aconteceu não vai mudar por causa disso.

José Luís Peixoto, (Crónica publicada na VISÃO 1164, de 25 de junho) | | 1 comentário

O povo

Por baixo do viaduto, o barulho da multidão é mais alto, faz eco. Homens pendurados em copos de vinho tinto e oleoso; mulheres a transpirar diante fogões, botijas de gás, bifanas, entremeadas e couratos

A música da telenovela, numa versão cigana, com vibratos de voz e guitarras varridas por unhas grandes, chega do interior de uma carrinha Ford Transit. As portas de trás, abertas, libertam essa algazarra na força máxima das colunas do auto-rádio e deixam cair meio corpo abatido pelo sol. Daqui, apenas se distinguem as calças e a barriga de um homem deitado de costas no interior da carrinha, talvez em tronco nu. Está muito sol hoje.

Ao lado de tantos, desço a Feira do Relógio. Como um céu remendado, as lonas esticadas protegem-nos desse sol ácido. Desvio-me das cordas que suportam as tendas, desvio-me das estacas de aço e daqueles que já sobem, carregados de sacos ou de olhares receosos, apontados às camisolas penduradas, aos maços de meias a cinco euros, às sapatilhas que uma mulher com buço garante serem de marca.

Qualquer-coisa qualquer-coisa ao Senhor, Ele faz maravilhas, canta um homem que leva uma Bíblia na mão, uma bandeira de Portugal ao ombro e um despertador pendurado ao pescoço. Como nós, passa pelo meio das bancas de perfumes, ferramentas da construção civil, óculos de sol e óculos de ver ao perto que se experimentam logo ali. Um cigano de luto, barbas a cobrirem-lhe o pescoço, cabelo comprido num chapéu já sem forma, grita mais alto, rasga a voz. Tem os tornozelos submersos por um monte de roupas que uma roda de mulheres atira ao ar. Os vendedores de mobílias estão refastelados nos sofás, entre arcas de enxoval, entre quadros de montanhas, cascatas, praias ao pôr do sol.

Já não sei distinguir a idade destas raparigas que passam com grandes argolas nas orelhas, molas de plástico a prenderem os cabelos, maquilhagem, vestidos dourados ou tops com rendas, blusas com a palavra Love, cintos de enormes fivelas, calças desbotadas de propósito. Equilibram-se em sapatos muito altos que pousam no alcatrão, entre latas amassadas, pedaços de caixotes, restos de sacos empurrados pela aragem. Terão quinze ou dezanove anos talvez, levam segredos essas raparigas, levam enredos que lhes fazem cócegas no céu da boca e que discutem enquanto caminham, amparadas umas nas outras, engasgando-se em risinhos, tapando a boca ou não, ignorando o mundo inteiro, com a exceção de alguns rapazes ligeiramente mais velhos, cabelos com gel, brinco de brilhante, corrente de prata ao pescoço, camisola agarrada ao corpo, calças de ganga rasgadas, sapatilhas novas de futebol de salão.

Por baixo do viaduto, o barulho da multidão é mais alto, faz eco, as vozes partem-se ainda mais e misturam-se ainda mais. Homens pendurados em copos de vinho tinto e oleoso, copos de plástico cheios pela bica de pacotes; mulheres a transpirar diante fogões, botijas de gás, bifanas, entremeadas e couratos; mulheres com sacos pousados aos pés, malas presas no ângulo do braço, a beberem cerveja pela garrafa e a fumarem; homens a beberem cerveja pela garrafa e a fumarem; crianças a beberem latas de sumol por uma palhinha, rapazes de seis ou sete anos com crista à punk. E um cego a passar, virando-se para um lado e para outro, como perdido, como aflito, a repetir uma lamúria e a chocalhar moedas num copo alto e sujo do McDonalds, olhos brancos, grandes bolas brancas e húmidas no lugar dos olhos.

Há uma laranja de cor muito viva que escapa das mãos de uma vendedora, rola pelo alcatrão, entre pés, imparável, passa diante de uma criança só de fraldas e sandálias, a segurar um iogurte e a tentar acertar com a colher na boca. De cabelo oxigenado e voz sem hesitações, a vendedora tem um avental pesado de trocos à volta da cintura e uma blusa que lhe deixa os ombros à mostra, num tem tatuado Thug, no outro tem tatuado Life.

Enquanto estou a escolher nêsperas, um velhote, pele de napa enxovalhada, começa a falar para mim em crioulo cabo-verdiano, badio. Sorrio e respondo-lhe também em crioulo. Digo-lhe qualquer coisa que tem a ver com preços e fruta mas, para lá das palavras, aquilo que lhe quero dizer é que estou feliz, muito feliz, por estar de volta e, finalmente, poder encher o peito de ar entre os meus, entre aqueles a que pertenço.

José Luís Peixoto, (Crónica publicada na VISÃO 1160, de 28 de maio) | | Comente

Causa própria

Vejo no telejornal o rosto de alguns dos prejudicados pelos bancos. As poupanças de uma vida, dizem eles. Mesmo através do ecrã, dá para perceber que perderam muito mais do que isso. Gritam contra portas fechadas, contra muros de pedra
Vejo no telejornal o rosto de alguns dos prejudicados pelos bancos. As poupanças de uma vida, dizem eles quando falam do que perderam. No entanto, mesmo através do ecrã, dá para perceber que perderam muito mais do que isso. Gritam contra portas fechadas, contra muros de pedra. O desespero desses rostos alimenta angústia transparente em quem os vê sem mudar de canal. Até o pivot do noticiário está incomodado quando acaba a reportagem.

Mas, logo a seguir, vem outro assunto. E essa angústia, cada vez mais remota, vai-se dissolvendo até desaparecer, até ser menos do que uma memória. Sempre soubemos que não podíamos fazer nada ou, pelo menos, nunca permitimos outra possibilidade. Nós não temos depósitos ou investimentos nesses bancos. Nós temos os nossos próprios problemas. Estas são as desculpas imediatas que encontramos para não nos envolver. Como se sentirão os prejudicados pelos bancos perante esse silêncio coletivo, esse abandono? E já que estamos em maré de perguntas: o que fariam esses mesmos indivíduos se não fossem eles os prejudicados?

Sou o próprio, afirmam certos anúncios de jornal em que o dono tenta vender algo sem intermediários.

Ouve-se dizer muitas vezes que os médicos, os guardas prisionais, os socorristas do INEM têm de cultivar uma certa insensibilidade. De outra maneira, não poderiam levar uma vida normal. Suponho que exista alguma lógica nessa ideia. Parece-me até que, de certa forma, todos estamos nessa posição. Não faltam temas que seriam insuportáveis se os considerássemos realmente, em todas as dimensões da vida concreta.

No mesmo telejornal das manifestações contra os bancos, faz-nos uma certa impressão o caso do homem que, não me lembro onde, não me lembro quando, matou a mulher e se suicidou. E, logo a seguir, culpamos o jornalismo populista pela ofensa que sentimos ao saber da criança violada, falamos alto para não se ouvir o que está a ser dito na televisão. Mas essa criança existe. Uma voz, em ameaça, repetiu-lhe muitas vezes: não contes a ninguém.

Neste preciso momento, desde este exato lugar, qual a distância, em metros, até pessoa mais próxima presa num inferno privado? Essa é uma resposta que não queremos saber. É demasiado terrível. Exigimos que alguém trate do assunto, mas nós não, nós temos muito que fazer nesta semana, precisamos de levar o carro à revisão.

Todos conhecemos exemplos de milionários que sofrem de uma doença e que, de repente, se tornam nos lutadores mais abnegados contra essa mesma doença, criam fundações, promovem a investigação. Nós somos esses milionários antes de ficarem doentes.

Na sala de espera do dentista, aquele que veio fazer uma consulta de rotina, e que está a ler estas palavras, não sente as dores daquele que tem a cara inchada, os olhos fechados, e espera que o doutor o atenda depois de todos porque não tem marcação. E, no entanto, estão sentados lado a lado.

Há uma distância enorme entre ter conhecimento e saber.

Pimenta no cu dos outros é refresco. Não sei se esta expressão já pode ser considerada provérbio popular. Não sei se a origem brasileira faz com que as múmias das universidades portuguesas a enjeitem. Talvez um desses leitores que escrevem cartas de protesto para os jornais saiba responder. Pouco importa. Aquilo que me parece evidente é a verdade absoluta e literal a que dá expressão. Louvo a escolha criteriosa de substantivos: pimenta, cu, outros, refresco.

Na gramática, talvez o problema sejam os advérbios. Enquanto estamos aqui, os outros estão ali ou, uma boa parte deles, está lá, demasiado longe. Dirigimo-nos para ali e, mal chegamos, percebemos que, afinal, ainda estamos aqui. Então, decidimos ir para lá, aventuramo-nos nesse longo caminho e, claro, mal chegamos, percebemos que, depois de tanto, ainda estamos aqui e os outros ainda estão ali ou, uma parte deles, ainda está lá, demasiado longe. 

Um reflexo nunca pode ser visto a partir de dentro.

Assim continuaremos até ao momento em que já não pudermos fugir, até ao momento em que se tratar das nossas próprias poupanças, da nossa própria vida. Até lá dizemos nós, dizemos eles, porque custa muito dizer eu.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1155, de 23 de abril | | 5 comentários

O último a esquecer

Ao contrário de todas as outras provas, em que se premiava os mais rápidos, nesta corrida de bicicletas ganhava o último a chegar à meta
Creio que já te falei do atletismo. Nas corridas de Carnaval, a meta era traçada com uma trincha no chão do terreiro. Para além de nós, que vínhamos de casa a pé, havia rapazes e raparigas que chegavam em carrinhas cedidas por juntas ou câmaras de lugares como Montargil, Elvas ou Figueira e Barros. Os da minha idade eram infantis, iniciados ou juniores. Prendiam os números na camisola com alfinetes e faziam exercícios de aquecimento em frente à igreja da Misericórdia. Desembrulhavam guardanapos para encontrar papo-secos com qualquer conduto ou analisavam moedas na palma da mão, que trocavam no café do ti João de Oliveira por pacotes pequenos de bolachas de baunilha, batatas fritas ou amendoins. Ao entrarem no café, passavam pela mesa dos prémios, estava na rua, encostada à vitrina. Havia medalhas, taças, enchidos, botas caneleiras, latas de tinta e outros produtos oferecidos pelos comerciantes.

Mas gostava de falar-te de uma memória bastante específica. Talvez me engane, mas acredito que poucos se lembrarão. Em alguns desses domingos dos anos oitenta, por ser Carnaval, a organização apresentou novas modalidades. A corrida dos mascarados, por exemplo, a que chamávamos "ensaiados", juntava na linha de partida uma pequena multidão de gente desigual, usavam caraças de plástico e roupas velhas que não combinavam umas com as outras, deixavam cair todo o tipo de peças nos poucos metros de percurso. Havia também uma corrida de sacos, claro, era ganha por alguém que, atravessando um túnel de vozes, gritos de um lado e de outro, conseguia dar saltos longos e rijos. Entre estas modalidades de Carnaval, durante um par de anos talvez, houve uma corrida de bicicletas, era desta que te queria falar.

Ao contrário de todas as outras provas, em que se premiava os mais rápidos, nesta corrida de bicicletas ganhava o último a chegar à meta. Eram desclassificados aqueles que pousassem os pés no chão ou que andassem para trás. Durante cerca de cem metros, os inscritos tentavam andar o mais devagar que conseguissem. O vencedor era sempre um rapaz da rua de São João, o irmão mais velho do meu amigo Belarmino, que, nessa altura, conseguia equilibrar-se durante muito tempo, quase sem sair do lugar. Após a partida, rapazes em bicicletas de vários feitios, pasteleiras, bmx, levantavam o rabo do selim e davam meias pedaladas. Os mais novos eram os primeiros a pousarem os pés no chão. Às vezes, fingiam que não tinha acontecido nada e continuavam como se, debaixo de todos aqueles olhares, fosse possível que ninguém tivesse visto. Eu era um desses pequenos a que faltava paciência. Tinha uma bicicleta Órbita trazida de Águeda pelo meu pai, diretamente da fábrica, era a melhor bicicleta do mundo.

Mas gostava que reparasses nisto: uma corrida ganha pelo último a chegar à meta. A metáfora é evidente.

Os velhos acreditam que têm mais passado do que futuro. Por isso, prestam mais atenção a memórias do que a previsões. Interessa menos o futuro em que não se imaginam do que o passado ainda disponível para esmiuçar infinitamente, não faltam reflexões possíveis sobre o que sabem que existiu, o que testemunharam e sentiram com a força e a verdade dos sentidos. Sim, existe uma verdade nos sentidos, é inegável para quem a viveu. É ela que dá substância às metáforas, mesmo que seja preciso anos para reconhecê-la.

Os velhos não têm dúvidas de que o passado ainda não passou, como escreveu Faulkner. Aquilo que só hoje soubemos acerca do que já passou é presente e, como um gancho, puxa esse episódio para o tempo em que estamos. Se achávamos que o passado era uma coisa e, depois, percebemos que era outra, então o passado ainda está em evolução, ainda não passou.

Nas corridas de Carnaval, nessas bicicletas em que tentávamos andar tão lentamente como se não andássemos sequer, subtraíamos tempo ao tempo, resistíamos. Onde estarão agora esses segundos ou minutos? Procuro-os à minha volta. Velho, distingo restos dessas manhãs entre o que sou capaz de pensar. O que vivemos ainda está aqui, só quem fomos desapareceu para sempre.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1151, de 26 de março | | Comente

Boné

Não faltam opções e regalias aos escritores. São artistas e, se quiserem, podem pentear-se raramente
Na loja, julguei que estava perante uma oportunidade. Com esse entusiasmo, levei-o à caixa e paguei-o. Diante de todas as vantagens que propunha, pareceu-me barato.

É raro colocar um chapéu na cabeça sem me sentir ridículo, mas não foi essa a impressão que tive com aquele boné. Achei-o confortável e, sem exagerar, acreditei que eu era aquela pessoa ou, pelo menos, aquela era a pessoa que eu queria ser. Quando cheguei a casa, no entanto, comecei a duvidar.

Nunca vi um escritor com um boné como aquele. Depois de muita reflexão, inclino-me a concluir que nunca houve um escritor que usasse um boné como aquele. Quem sou eu para achar que posso fazer o que nenhum outro fez? Se eles, tantos e tantos, durante séculos, tomaram a decisão unânime de não usar um boné como aquele, algum motivo sólido os terá apoiado. Quem sou eu para contrariar essa sabedoria acumulada?

É permitida a publicidade. O poeta Alexandre O'Neill fez alguns slogans muito conhecidos, que não estou a conseguir lembrar agora, e o Fernando Pessoa também teve qualquer coisa a ver com essa área. O álcool é permitido: Faulkner, Carver, Hemingway, Capote, Scott Fitzgerald, citando apenas alguns exemplos americanos.

O boné não é extravagante. A questão não é essa. A extravagância é permitida. Dentro de certos parâmetros, a extravagância é uma qualidade apreciada, necessária mesmo, faltariam páginas aqui para citar todos os grandes exemplos.

Agora, culpo a música da loja, a baralhar-me o discernimento, culpo a fraca iluminação, certamente propositada, e culpo o pequeno espelho em que me pude ver. O boné está ali, sobre a mesa, e não consigo saber como cheguei a achar que um escritor poderia usá-lo. Camilo, Eça, Torga ou Saramago com um boné como aquele seriam uma caricatura de si próprios. Peço humildes desculpas por sequer sugerir essa imagem.

Ainda assim, realmente grave seria a ofensa aos leitores.  Com toda a probabilidade, se me vissem com esse boné teriam a leitura dos meus livros arruinada. Como poderiam aceitar conhecimento ou lirismo vindos de um indivíduo com um boné como aquele? Não podiam. Seria uma incongruência flagrante que, com toda a certeza, destruiria qualquer relevância que pudesse existir nas obras que escrevi e escreverei, seria como uma praga de térmitas.

Os leitores não têm culpa das más escolhas dos escritores e, como tal, não devem pagar por elas. Possuem todo o direito de esperar que os escritores se comportem dentro daquilo que é legítimo e, se decidirem surpreendê-los, o que também é permitido, que o façam de modo aceitável.

Fumar cachimbo, por exemplo. Repare-?-se que não há qualquer voz de oposição contra escritores que fumem cachimbo, pelo contrário. No caso de estarem em lugares onde seja interdito fumar, podem mesmo raspar aquela cinza preta, sem que ninguém lhes dirija qualquer repreensão. Cada escritor que não fuma cachimbo é um ingrato perante as expectativas que o rodeiam. E o blazer? Que mal tem o blazer? Tomara outras pessoas, noutras áreas de atividade, contarem com essa aceitação para com uma peça que ninguém se preocupa em verificar se está lavada ou não. Aliás, é mesmo desejável que o blazer não esteja lavado. Os leitores têm todo o direito de não imaginar os seus escritores preferidos a fazerem máquinas de roupa, a escolherem o detergente, o amaciador ou a determinarem a temperatura da água. Não faltam opções e regalias ao escritores. São artistas e, se quiserem, podem pentear-se raramente. Dispõem de uma variedade de penteados que, na sua maioria, não estão ao alcance de empregados de escritório ou de funcionários que lidem com o público. Além disso, se forem adeptos do rigor, podem até usar os penteados dos ditos funcionários.

Os escritores não têm razões de queixa. Não faltam roupas e possibilidades ao seu alcance. Com a exceção, claro, daquele boné.

Boné? Eu disse boné? Peço desculpa, enganei-me. Quando disse boné, queria dizer: piercings, tatuagens, responder a questionários de verão, ir a programas televisivos da manhã, folhear revistas cor-de-rosa na bomba de gasolina, ir a festivais de música e cantar em voz alta, ter página no facebook, comer cachorros quentes na roulotte.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1147, de26 de fevereiro | | Comente

As palavras invisíveis

Os segredos retiram lógica ao mundo. Aquilo que se omite priva os outros de compreenderem as razões dos episódios a que assistem
Procuro o meu bloco de notas em lugares onde já procurei. Tenho a esperança que, desta vez, por qualquer milagre, possa estar lá. Não é um bloco extravagante, é preto e simples, vejo-o na memória enquanto procuro. Há aquilo para que olho, está à minha frente com todas as suas formas, e há este bloco de capa preta que quero encontrar e que é concreto na minha lembrança, como uma imagem projetada sobre aquilo que existe, como um slide antigo, e não adianta estender a mão para agarrá-lo, não está lá, os dedos atravessariam a luz dessa projeção colorida e imaterial.

Tento recordar a última vez que segurei o bloco de notas, ontem. Sei que estava em casa, isso é certo, mas apenas lembro a sensação viva de ter descoberto um bom lugar para o guardar. Talvez dentro de uma gaveta, talvez debaixo de alguma coisa, talvez entre dois livros que, naquele instante, me pareceram especialmente simbólicos. Escondi-o tão bem que, agora, nem eu próprio o consigo encontrar.

Conheço blocos de notas de grandes escritores, edições fac-similadas, póstumas. Os meus cadernos não são assim. Encho-me de pudor com a simples referência mental às anotações que faço: frases muito distantes de chegarem a verso, listas de tarefas, ideias sem forma, fragmentos meus, nus, inocentes, a exporem aquilo que não quero mostrar. Não são restos de mistério, não têm aquela imperfeição cuidadosa, perfeita. Aquelas páginas sou eu em cuecas, acabado de acordar, zombie; sou eu despenteado, camisola com nódoas, meias sem elástico; sou eu adormecido no sofá, diante da televisão acesa, a babar-me.

Na semana passada, estacionei o carro num lugar diferente. Entrei em casa, enchi a cabeça com as coisas de casa, dormi essa noite e, no dia seguinte, quando saí à rua, sobressaltei-me por não o encontrar no posto de todos os dias. Comecei a procurá-lo. A possibilidade mais insistente era: roubaram-me o carro. Apressei o passo e, quando já tinha o telefone na mão, lembrei-?-me daquele instante na véspera em que decidi estacionar num lugar diferente.

Escondido de mim, o meu bloco de notas, imóvel, discreto, abriga aquele pequeno mundo. Bastará folheá-lo para que essas palavras se soltem; estão lá, à espera, são como um segredo com corpo. O meu bloco de notas é como o corpo desse segredo.

Ainda assim, há diferenças fundamentais: esconder para sempre é tentar que algo nunca tivesse existido. Em coerência, a única forma de levar esse raciocínio até ao fim é morrer. Comparado com essas decisões, o meu bloco de notas, feito de papel barato, não é realmente o corpo de um segredo, é apenas o biombo que cobre esse corpo e, mesmo assim, é um biombo que permite transparências. Por sua vez, morrer com segredos, carregá-los no peito a vida inteira e morrer, nunca os partilhando com irmãos ou filhos, é um ato que questiona a própria morte. Conseguirá a morte ser suficientemente opaca para esconder esses segredos para sempre?

Um bilhete achado no interior de um livro antigo pode mudar tudo o que pensávamos sobre o nosso avô. Uma grande parte do passado ainda está para acontecer.

Além disso, os segredos retiram lógica ao mundo. Aquilo que se omite priva os outros de compreenderem as razões dos episódios a que assistem. Porque é que estás maldisposto? Por nada. Passa-se alguma coisa? Não, não se passa nada. Há algum problema? Não, não é nada.

Talvez encontre o bloco de notas quando já não estiver à espera. Então, quase de certeza, irá iluminar-se o instante em que decidi guardá-lo e as razões que me levaram a escolher esse lugar que, agora, me parece insuspeito. Será como quando não consigo recordar um nome ou uma data, faço um grande esforço de memória, mas nada. Depois, quando já não estou a pensar nisso, de repente, como um objeto que regressa à superfície, aparece-me na cabeça. Até posso acordar de noite com a força dessa lembrança.

Conformo-me, estou cansado de procurar, mas tenho pena. Nesse bloco, tinha anotado a ideia que ia desenvolver neste texto. Não consigo lembrar como era, só recordo que me entusiasmou, pareceu-me boa ideia, fiquei contente quando a tive.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1143, de 29 de janeiro | | 1 comentário

Senhoras e rapazes

Assim, é certo que, na Bangla Road, em Patong,Tailândia, não existe uma ladyboy chamada Khem. Não sou capaz de recordar o perfume açucarado do seu pescoço porque ela não se sentou no meu colo
Em Patong, na ilha de Phuket, no Sul da Tailândia, está calor em todas as horas do dia e da noite. É um calor húmido, colado à pele e que, no entanto, parece nascer do seu interior, é calor grosso que escorre pelos poros. Lá, numa rua a que os estrangeiros chamam Bangla Road, com bares de um lado e de outro, com discotecas seguidas, há colunas de som mais altas do que eu a explodirem música diferente de todas as direções. Encontrando caminho entre a multidão, aproximam-se vozes a gritar ofertas em inglês nasalado, sotaque tailandês, poucas palavras; há vultos garridos que caminham direitos a mim, como se fossem agarrar-me, e que me colocam letreiros à frente: cerveja barata. Essa é uma pausa nas luzes apontadas aos olhos: luzes cor-de-rosa, vermelhas, roxas ou cor de laranja, como o fogo.

Ainda assim, posso afirmar que a Bangla Road não tem ladyboys. Depois de subir e descer a rua várias vezes, não encontrei qualquer ladyboy. As transsexuais tailandesas são conhecidas pela sua beleza, por quase não se distinguirem de mulheres que nasceram mulheres, mas não foi por isso que não encontrei ladyboys na Bangla Road, foi porque não estava lá nenhuma, tenho a certeza.

Nesses bares imensos, há centenas de metros de balcão, onde as ladyboys não sobem com sapatos dourados, saltos enormes, e não dançam em biquíni, abrindo às vezes o soutien e exibindo seios demasiado redondos, mamilos distorcidos. Também não dançam de calções muito apertados, minissaias, vestidos agarrados ao corpo que, em certos momentos, levantam para mostrar detalhes pós-operatórios. Nesses bares, as conversas não têm de ser feitas em voz bastante alta ou ao ouvido, com os lábios a tocarem-me na orelha, o calor do hálito a tocar-me na orelha. Também não há os dedos de quem passa, unhas de gel nas costas das minhas mãos. Da mesma maneira, também não há, garanto, uma certa forma de silêncio que sobrevive, imperturbável, inacessível, debaixo dessa música que as ladyboys não dançam, exatamente como não existe uma luz vermelha, inferno a fingir, que harmoniza as cores vivas dos biquínis, minissaias, calções curtos, vestidos agarrados ao corpo, que as ladyboys não vestem, porque não há ladyboys na Bangla Road.

Assim, é certo que, na Bangla Road, em Patong, na ilha de Phuket, no Sul da Tailândia, não existe uma ladyboy chamada Khem, diminutivo de um nome bastante mais longo. Não tem feições delicadas, alisadas por cosmética e cirurgias; não tem pestanas postiças que, como pétalas, se enrolam à volta dos olhos, lentes de contacto de qualquer cor clara. Não sou capaz de recordar o perfume açucarado do seu pescoço ou a espessura dos seus cabelos esticados porque ela não se sentou no meu colo. Não chegou e, sem pedir licença, se sentou no meu colo. Por isso, também não cheguei a sentir-lhe as pernas, músculos firmes, e ela não me agarrou o pulso e me assentou a mão na mama, dura. Como é evidente, ela não me sussurrou frases inconfessáveis ao ouvido, inglês de sotaque obsceno. Não, é claro que não recordo os lábios de silicone a passarem-me pela barba. Não tenho essa lembrança, porque, na Bangla Road de Patong, não existe uma ladyboy chamada Khem. Não existe qualquer ladyboy ao longo de toda a Bangla Road, Patong, Phuket, Tailândia.

E, mesmo que existisse, eu não a teria agarrado pela cintura, não a teria encostado ao meu peito, eu não teria sido capaz de apreciar essa proximidade porque eu sou um homem do país dos homens e do planeta dos homens. Sou daquele lugar em que ninguém tem qualquer dúvida e ofereço porrada a quem puser isso em causa. Não admito qualquer espécie de insinuação. Não há ladyboys na Bangla Road, ou em Patong, ou em Phuket e, tanto quanto eu sei, é mesmo possível que não haja ladyboys em toda a Tailândia. Estou pronto para andar à porrada com quem duvidar de mim, ou com quem me passar à frente no trânsito, ou com quem fizer demasiados likes no facebook da minha mulher. Estamos conversados? Se for preciso, para que se entenda melhor, faço voz grossa.

José Luís Peixoto, (crónica publicada na VISÃO 1134, de 27 de novembro) | | 8 comentários

Todo o silêncio

Conto o tempo que me falta para ter a idade que tinhas quando te perdi. Faço contas às idades que os meus filhos terão

De nome inteiro, o escritor está sentado à mesa. Quem terá tratado do arranjo de flores que tem à sua frente? O microfone funciona.

Enquanto apresento o meu livro em bibliotecas e livrarias, acabo quase sempre por te referir. Nesses momentos, és personagem de episódios, autor de frases, portador de lições que ainda fazem sentido. Muito raramente, como se me espreitasses através de uma frincha, o teu olhar pode atravessar essas palavras que escolho para te mencionar. Eras chuva de muitos dias seguidos, essas palavras são uma gota.

Não é possível saber o que entendem as pessoas que me olham. Posso imaginar o que quiser a partir da sua atenção, escolho a melhor possibilidade, a mais benévola. Leio algumas páginas do livro em voz alta, exactamente como se estivesse a descobri-las.

O escritor está disponível para autografar os seus livros. Por favor, formem a fila nesta direção. A minha caligrafia, embaraçosa como a minha voz gravada em vídeos antigos de festas de anos. De cada vez que escrevo o meu nome, o teu nome vai sobreposto ao meu. Da mesma maneira, lá no cemitério, no mármore, o meu nome está sobreposto ao teu.

Um homem de quarenta anos deitado sobre uma cama de hotel, iluminado pela televisão ligada. Com esta idade, mais do que nunca, distingo-te em mim. Entrava no teu quarto à noite, vias qualquer coisa na pequena televisão a preto e branco, e deitava-me ao teu lado. A minha pele tem a mesma cor da tua. Sou capaz de comparar as minhas mãos com as tuas. Conto o tempo que me falta para ter a idade que tinhas quando te perdi. Faço contas às idades que os meus filhos terão. Tento rejeitar esses pensamentos. Não quero, esse tempo é demasiado cedo para morrer, mas, como também sabes, importa pouco aquilo que queremos.

Amanhã, o André faz dez anos, mas tu não chegaste a conhecer o André. Às vezes, distingo-lhe traços teus, maneiras. Se for real e possível, se os meus olhos não estiverem deturpados pelo que quero ver, fui eu que transportei esses pequenos gestos. Levei-os talvez naquilo que faço todos os dias, nas minhas próprias maneiras. Como serias tu com dez anos? O André já ouviu falar muito de ti. Contei-lhe histórias que não chegam para que te conheça.

Aquele gajo que aparece na televisão sentou-se no restaurante e escolheu o prato do dia. Não vai querer as entradas, pois não? Juntos, pousámos os cotovelos em toalhas de papel como esta. Essas eram horas boas. O passado ficou com todas as conversas que tivemos à espera que chegasse a comida ou, depois, diante de nódoas de gordura e migalhas de pão. Agora, consigo recordar-nos em restaurantes como este, mas não temos som, não consigo reconstruir nenhuma das conversas que tivemos. Talvez falássemos de temas muito ligados à véspera desses dias distantes, ou talvez a minha memória tenha deixado de guardar essa informação, precisou do espaço para qualquer outro assunto.

Já depois da conta, o senhor do restaurante deseja-me sorte para os livros, e aponta para a televisão onde me viu, presa à parede. Agradeço e, nesse momento, entendo  de repente a simpatia pouco habitual, o sorriso a despropósito.

Sim, pai, às vezes, vou à televisão falar dos meus livros.

É difícil explicar. Haveria de surpreender-se bastante com aquilo que aconteceu. Nunca apareci na pequena televisão a preto e branco que tinha no quarto e, com toda a sua capacidade de idealizar o futuro, haveria de ficar incrédulo se alguém lhe contasse. ?O meu pai não tinha forma de imaginar que, um dia, com este caminho feito, eu seria um escritor a dar autógrafos.

Para o meu pai, serei sempre um rapaz de futuro incerto, com a carta de condução acabada de tirar, a estudar para ser professor. Quando pousava as pálpebras sobre os olhos, o sofrimento, sei que uma das suas preocupações era: o que irá ser deste rapaz? Ele próprio, muitas vezes, dizia esta frase. Dentro de mim, sou capaz de ouvir a sua voz a dizê-la.

Agora, nada pode mudar esse facto. Mesmo que passe o resto da minha vida a escrever livros, mesmo que sejam lidos por milhares e milhares de rostos atentos, mesmo que o meu nome seja repetido todos os dias em bibliotecas e livrarias. Para o meu pai, nunca serei escritor.

(crónica publicada na VISÃO 1129, de 23 de outubro) | | 3 comentários
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