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Um estilo de cantar - Amílcar Vasques-Dias

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Após a ascensão a Património Imaterial da Humanidade, o cante alentejano tem sido elogiado por vários músicos. Amílcar Vasques-Dias, professor, pianista, compositor de música erudita e autor do projeto Cante Piano, define estas canções tradicionais do Alentejo como um "estilo ou modo de cantar" e como "uma forma de respeito".

Amílcar Vasques-Dias

Considero o Cante alentejano é um "estilo ou modo de cantar" as canções do cancioneiro tradicional do Alentejo com intervenção de 2 solistas (o ponto e o alto) e um coro em uníssono (masculino, feminino, ou misto, sem acompanhamento instrumental.

Há ainda um elemento importante na criação do estilo cante: a polifonia a duas vozes entre o coro em uníssono ao qual se sobrepõe a voz do alto em movimento de terceiras paralelas, a relação intervalar mais comum na prática do cante alentejano. Porém, a ornamentação de um cantador alto inspirado, criativo, enriquece a relação intervalar da sua linha melódica com a melodia da canção original cantada pelo coro. Esta relação pode abranger intervalos de 2ª (dissonante de passagem!), de 4ª e 5ª perfeitas. Digo enriquece, porque torna o cante mais variado, mais expressivo e, por isso, mais conseguido no objectivo poético-musical: a emoção de quem canta e de quem escuta!

Chamo-lhe estilo de cantar, porque tem características próprias para além dos elementos especificamente tonais, como escalas, funções, intervalos e movimentos por grau conjunto. São o timbre e o registo/tessitura das vozes, o tempo (relativamente lento) rubato, a "flutuação métrica" (usando a expressão de Lopes-Graça) resultante de retardos de expressão, cortes abruptos de palavras-melodia, respiração mais ou menos longa, portamentos da voz, ornamentação mais ou menos variada do alto, "tonalidade, ou modo" sempre no modo Maior...

Note que, também na música erudita, há características próprias de diferentes estilos de interpretação: a música barroca (séc. XVIII) tem regras próprias de interpretação. Até mesmo mais que um estilo...!  A música "clássica" e a música "romântica" do séc. XIX têm estilos diferentes.  E a música "romântica" do séc. XX tem estilo próprio. E que dizer da música de Stravinsky e de Debussy, nos princípios do séc. XX? São "estilos" diferentes...!

E, tal como na música erudita, a qualidade (ou o nível) dos intérpretes é fundamental na interpretação de um trecho musical. De facto, a 'qualidade' do ponto, do alto ou do coro podem ser variáveis... A emoção que um ouvinte pode e deve sentir depende da capacidade expressiva do intérprete...!

A estrutura musical das canções é baseada nas funções tonais da música erudita dos finais do séc. XVII, princípios do séc. XVIII e XIX: fundamental, subdominante, dominante, tónica (I-IV/II-V-I).

O Cante Alentejano é ritual. Quase liturgia. Liturgia de ritual. É espiritual. Religioso. Panteísta. Onde quer que aconteça,  impõe respeito e silêncio, porque é "culto". Se acontece na tasca, então a tasca torna-se Catedral. O cante alentejano é pensado e é sentido.  Invoca a azeitona para cantar que bom alimento nos dás. Mas também se recorda a descida da ladeira do monte para justificar a saudade da namorada...! E descreve o "limoeiro junto ao canteiro da hortelã" ou canta a erva cidreira e a folha da oliveira...

O Cante Alentejano autêntico, "de dentro e para dentro", é uma forma de respeito, de carinho e intimidade com a Natureza, com os outros seres, com as plantas, flores, animais, pedras e "pedrinhas"... (Quem pede uma gotinha de água entre pedras e pedrinhas...!?) O Cante Alentejano apela aos seres, às coisas que rodeiam os homens e as mulheres e a tudo o que é Natureza.

Tanto a realidade da Natureza, como a realidade interior, a intimidade dos pensamentos e das emoções. Pássaros, calor e frio, árvores, sensações físicas fortes (como a fome e a sede). Solidão, terra, saudade, mãe, águia, colo, aconchego, namorada, uma "quase" veneração pelo Alentejo como grandeza de espaço ("É tão grande o Alentejo")... Em suma, canta a Vida (Ó águia...leva-me ao céu onde eu tenho a mãe que me trouxe ao colo / que me está fazendo falta) e a Morte (A terra paga-me em vida / Eu pago à terra em morrendo).



ENTRE CANTE E  PIANO - UMA MÚSICA DO ALENTEJO

O cante alentejano, se for cantado em carinhoso respeito e em "quase" religiosa intimidade com os sentimentos humanos, é expressivo e autêntico na procura da emoção poético-musical.

Porque se trata de uma forma musical cantada, sem acompanhamento instrumental, e dado que a estrutura melódico-harmónica das modas do cancioneiro tradicional alentejano é relativamente simples, isto é, a melodia desenvolve-se normalmente a partir das funções essenciais do sistema tonal (fundamental-subdominante-dominante), não se justifica musicalmente a presença do instrumento harmónico por excelência, o piano, que teria como função apoiar harmonicamente os cantadores na afinação da tonalidade.

No caso de Entre cante e piano, projecto invulgar no âmbito da música de câmara contemporânea, que interpreta modas do cancioneiro tradicional alentejano e canções originais ao estilo do cante pelas vozes de Joaquim Soares, ponto, e Pedro Calado, alto, cantadores do Grupo Cantares de Évora, o "piano" não é instrumento de acompanhamento. Tem antes a função de uma terceira voz, um berço de ambientes harmónicos e tímbricos, de gestos musicais e ornamentos melódicos, enlaçando o devir das duas vozes no caminho da expressividade e da autenticidade.

É também a enorme riqueza e diversidade de sentimentos subjacentes nos textos poéticos - impregnados de íntima espiritualidade - que nos exige delicada atenção na ornamentação da palavra-melodia, talvez a essência da arte do cante alentejano.