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Viagem ao rádio-teatro

Teatro e Dança

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Foi sobretudo o som. O "fascínio" pela técnica de contar uma história através do som, a forma de dizer o texto, a criação de ambientes sonoros, que levou Mirró Pereira a escrever Simplesmente Maria, um espetáculo inspirado no rádio-teatro, em cena até 24 de fevereiro, n'A Barraca.

Carolina Freitas

Foi sobretudo o som. O "fascínio" pela técnica de contar uma história através do som, a forma de dizer o texto, a criação de ambientes sonoros, que levou Mirró Pereira a escrever Simplesmente Maria, um espetáculo inspirado no rádio-teatro. A peça, em cena até 24 de fevereiro, n'A Barraca, em Lisboa, não é, no entanto, a história do célebre folhetim da Rádio Renascença da década de 1970, nem a reprodução de um dos seus episódios. "O título surge como símbolo desse universo radiofónico, e de uma época, concretamente os anos de 1973-74", sublinha a autora e encenadora, ao JL.

É uma viagem no tempo. O tempo do teatro radiofónico, do iê-iê, da lambreta, do Parque Mayer, do Estado Novo, da Guerra Colonial. Em Simplesmente Maria, vivêmo-lo a partir de um estúdio de rádio, algures em Lisboa, onde cinco atores - Ana Lopes Gomes, Carolina Parreira, Daniel Moutinho, Joana Barros e Pedro Luzindro - se encontram todos os dias para gravar um folhetim. A história dessa novela, inventada por Mirró Pereira, cruza-se com as vidas de cada um: "É como se roubassemos um fragmento da existência daqueles atores, pessoas que têm um quotidiano normal - amam-se, enganam-se, choram, riem, trabalham -, alheias ao facto de estar para acontecer uma revolução", refere.

Para a encenadora, este espetáculo reflete a sua vontade de "preservar a memória coletiva". Sem saudosismos. "Uma das coisas que sempre me fez confusão nas redações é a facilidade com que se descartam os jornalistas mais antigos. Não podemos pôr as pessoas que têm memória na gaveta da terceira idade, como se não fossem importantes para nos lembrarmos de onde viemos", diz Mirró Pereira, que foi jornalista durante muitos anos, nomeadamente na RTP, Diário Económico e Notícias Magazine, antes de se dedicar exclusivamente ao teatro.

Simplesmente Maria é, por isso, para "lembrar as pessoas de um pedaço da sua História". Mas também nos fala no presente: "A necessidade de mudança está, de alguma forma, no espetáculo: estes atores têm de levar as suas vidas para a frente, acordar, trabalhar, comprar pão, etc., mas a necessidade está lá. O mesmo se passa hoje em dia", assevera. É também um apelo para que não se deixe de criar? "É um apelo para que não se pare, que, apesar dos cortes nos subsídios, nenhum cidadão pare de lutar por algo melhor, de se manifestar. Essa manifestação pode ser nas ruas ou artística".

Reflexo disso é a própria produção da peça. Uma produção independente, sem quaisquer subsídios, feita com "dinheiro e tempo" de toda a equipa, que além da encenadora e dos atores, inclui Sofia Ramos (participação especial), Anabela, Bernardo Gavina e José Neves (vozes), Gisela Duque Pereira (consultoria), Feliciano Branco (desenho de luz), Pedro Costa (espaço sonoro), Patrícia Guimarães (design de comunicação), Carolina Parreira, Joana Barros e Mariana Vilela (produção e secretariado).