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Nuno Costa Santos e Mª Velho da Costa: Retratos de um país

Teatro e Dança

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Carolina Freitas

O pano sobe. Ouvem-se vozes em sobressalto: um homem sonha que está em plena Guerra Colonial, outro grita que é Deus, e que está ali para nos salvar. Se nada soubéssemos sobre o espetáculo, bastaria a primeira cena para percebermos onde estamos. No Condomínio da rua. A peça de Nuno Costa Santos, em cena na sala principal do Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII), em Lisboa, até 10 de fevereiro, confronta-nos com personagens no fio da navalha. Seis sem-abrigo - um traumatizado de guerra, um esquizofrénico, um prostituto, uma toxicodependente, uma alcoólica e uma intelectual, que decidiu trocar a sua vida confortável mas "cheia de ruído" pela rua -, que a pouco e pouco vão revelando os seus segredos, traumas e dilemas.

"Quando entrei nesta jornada sabia que teria de começar por descer as escadas. Já olhava para os sem-abrigo mas sabia que seria necessário olhá-los mais de perto. Foi preciso sair de casa", conta o escritor, jornalista e argumentista Nuno Costa Santos, que com esta peça se estreia na sala lisboeta. Contactou com associações, acompanhou equipas de voluntários, falou com muitos homens e mulheres a viver na rua. E o mesmo trabalho de campo fizeram os atores - os seis do elenco do TNDMII: João Grosso, José Neves, Lúcia Maria, Manuel Coelho, Maria Amélia Matta e Paula Mora -, e o encenador João Mota, com o apoio do psiquiatra Daniel Sampaio, em consultoria e análise comportamental.

"O teatro é sempre investigação", sublinha, ao JL, o diretor artístico do TNDMII, que partiu para esta encenação com dois 'compromissos' em mente. "Pôr os atores residentes do TNDMII a trabalhar em conjunto, o que não acontecia há muitos anos, e incutir-lhes uma dinâmica de grupo", avança. Depois, o tema: "Gostava que esta peça falasse do Portugal de hoje". É o que encontramos? "Duas questões fundamentais dos dias de hoje: primeiro, ninguém está a salvo; segundo, é preciso entreajuda e solidariedade, sermos mais sujeitos e menos objetos".

Também no Teatro Municipal São Luiz se ergue um retrato do país, desta feita no final dos anos 60, em pleno regime salazarista. A adaptação do romance de Maria Velho da Costa, Casas Pardas, por Luísa Costa Gomes, com encenação de Nuno Carinhas, chega amanhã, 24, a Lisboa, depois de ter estreado, em dezembro, no Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto. "Faz todo o sentido, neste momento, revisitar um passado que nos parece longínquo, mas não é", diz, ao JL, o diretor artístico do TNSJ. E acrescenta: "Esse retrato é uma das qualidades que o teatro deve ter: confrontar-nos com o nosso passado recente e com personagens que têm a ver connosco, escritas de raíz". Além do tema da crise política e social, Nuno Carinhas realça a "perceção muito aguda" da escritora: "Maria Velho da Costa absorve de forma extraordinária a língua portuguesa, o falar de várias classes sociais e, dentro delas, de várias faixas etárias". Diz mesmo que é "tão fascinante trabalhar este texto quanto os clássicos", referindo ainda o "raríssimo" prazer de encenar uma peça com mais mulheres do que homens. No elenco estão Anabela Teixeira, Carmen Santos, Catarina Lacerda, Emília Silvestre, João Castro, Joana Carvalho, Jorge Mota, Leonor Salgueiro, Paulo Freixinho, Paulo Moura Lopes e Rute Miranda.