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José Martins: Encenar a memória

Teatro e Dança

"Interessa-me trabalhar o monólogo interior no teatro", diz José Martins. Passados 10 anos desde a criação de textos de Jean-Luc Lagarce, o encenador regressa à dramaturgia francesa contemporânea com uma peça que aborda a mesma questão: o monólogo interior. Marzïa, de Karin Serres, teve estreia mundial a 11 de Janeiro, no Teatro Municipal de Almada, onde fica patente até dia 23.

Carolina Freitas

Escrita e inspirada no cais de Cacilhas, a peça parte de impressões ligadas ao rio, ao vento ou ao sol, para refletir sobre o tema da memória. Com interpretação de Ana Borges, Alberto Quaresma, Daniel Fialho e João Farraio, e cenografia da autora.

 

JL: Como surgiu a ideia de encenar esta peça?

José Martins: Durante muitos anos, a Alexandra Moreira de Silva, professora da Faculdade de Letras do Porto e especialista em Literatura Francesa Contemporânea, colaborou comigo na área da dramaturgia, e, desde então, continuamos a manter contacto. Foi assim que, em 1998, fui o primeiro encenador português a criar textos de Jean-Luc Lagarce. Em 2007, a Alexandra mostrou-me esta peça de Karin Serres, dizendo-me que tinha resultado de uma residência artística em Lisboa. Ao lê-la, pareceu-me que a fonte de inspiração teria sido a zona do cais do Ginjal e de Cacilhas, o que vim a confirmar com a autora. Achei o texto muito interessante e propus ao Teatro Municipal de Almada estrear aí esta peça inspirada em Cacilhas.

O que o atraiu no texto?

A peça consiste num discurso fragmentado de quatro personagens, Márcia, Nuno, Álvaro e Luís, que vivem num universo com passado, mas sem futuro. Foi essa série de monólogos interiores que me interessou. Além disso, é extremamente curioso o facto de uma história que decorre num espaço aberto, o cais, e com um horizonte ilimitado, a margem do rio Tejo, dar origem a um universo tão fechado e aprisionador de vivências e memórias.

Quais foram os principais desafios da encenação?

Desde logo, criar, com os atores, uma representação correspondente a um discurso que se constitui por uma sucessão de monólogos interiores, e que raras vezes se transformam em diálogo. A contracena praticamente não existe, ou existe de forma mitigada. Mas o mais difícil, e fascinante, foi descobrir o espaço cénico justo para representar este universo, simultaneamente, aberto e fechado da peça. Aqui, foi muito importante e enriquecedor ter trabalhado com a própria Karin Serres, que criou os cenários e os figurinos.

Que solução cénica encontraram?

Resolvemos que toda a peça iria decorrer no interior de uma piscina desativada. As personagens estão aprisionadas nessa piscina e confrontam-se com a grande cidade em frente, Lisboa, representada pelos espetadores. O público é o nosso ponto de referência, como se estivesse na outra margem do rio, no horizonte. Depois, há uma série de objetos que, ao longo dos anos, foram 'dar à costa'. Esses objetos, escolhidos de forma criteriosa, vão sendo sucessivamente utilizados para evocar as memórias e a dinâmica da relação das quatro personagens.  

Qual a importância deste diálogo artístico 'internacional'?

É com esta confrontação de visões e experiências que se enriquece o teatro. O diálogo que, ao longo de cerca de um ano e meio, mantive com a Karin Serres para a preparação deste espetáculo, foi extremamente frutífero, por exemplo, para a construção do espaço cénico. Ela veio às duas últimas edições do Festival de Almada, e tivemos oportunidade de conversar bastante, nomeadamente, no cais de Cacilhas, onde a Karin escreveu a maior parte das páginas da peça.