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Jorge Listopad: a experiência do medo

Teatro e Dança

O autor volta a encenar, com estreia marcada para dia 13, no Teatro Municipal São Luiz. 

Carolina Freitas

Aos 92 anos, Jorge Listopad - poeta, ficcionista, cronista, professor, colaborador de sempre do JL - volta,  à encenação, desta vez com A Instalação do Medo, a partir do romance homónimo de Rui Zink. Estreia na próxima quinta-feira, 13, no sub-palco do Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, com interpretações de Diogo Dória, José Artur Pestana e Joaquina Chicau.    

Jornal de Letras: De que fala A Instalação do Medo?Jorge Listopad: Vivemos num mundo que funciona cada vez mais através do medo. Seja ele natural ou criado. Nesta peça, vem pela 'mão' de dois homens que aparecem na casa de uma mulher para 'instalar' o medo, como quem instala gás ou eletricidade. Ela deixa-os entrar, por medo, e a partir desse momento desencadeia-se uma situação de tensão entre os dois homens e a mulher, que vive sozinha com uma criança.

O que mais o interessou no romance de Rui Zink?O título atraíu-me, desde logo. É extremamente provocatório e atual. O romance mostra o que o medo faz connosco. É uma peça política, poética, tout court dramática. Desenrola-se no subsolo do Teatro São Luiz, portanto, não tem nada do conforto moral e existencial que normalmente se encontra numa ida ao teatro.

Porquê essa opção?A minha intenção não foi 'surpreender' o espectador. Antes mostrar que o teatro de conforto já não me interessa. Normalmente, quando vamos ao teatro, sabemos o que nos espera: temos cadeiras; o nosso lugar marcado; sabemos que vamos lá estar mais ou menos duas horas, etc. Aqui, não. O espectador não sabe exatamente ao que vai e há nisso uma espécie de insegurança que também cria medo. 

Além da sala, o horário também é invulgar. Às 23 e 30, mais tarde que o habitual...  Creio que assim o público vai ver o espetáculo mais 'preparado' para captar esta realidade do medo, precisamente por não ser o horário normal. Foram decisões que me pareceram lógicas, orgânicas e corretas. Não é provocação. É vocação (risos).

Como foi o processo de adaptar o romance à cena?Tentei ao máximo não mudar o estilo do Rui Zink. Quis criar uma peça curta, pegando naquilo que o romance tem de mais pertinente e atual. No fundo, quis transformar um texto dos nossos dias numa peça dos nossos dias. Isto é: pouco conformista. O original tinha já uma componente teatral que me ajudou. Mas é muito diferente: é maior; tem um tempo diferente... Interessava-me concentrar. É uma peça muito concentrada.

Em que é que se focou?É uma peça política, porque todos nós somos políticos. Temos opiniões sobre o que se passa em Portugal e no mundo. Nesse sentido, é um texto que se concentra na opinião do que se passa. Mas não é só. As personagens também têm interesse em mostrar quem são.

E quem são?Há os tais dois homens de uma espécie de empresa de instalação do medo: um é o chefe, o outro operário. Depois, há a senhora, que começa a aperceber-se do medo que sente e... Tudo culmina num final simultaneamente trágico e angelical. Numa morte e numa vida, talvez nova. Talvez.