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Carlos Azevedo: Uma ópera vimaranense

Teatro e Dança

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Dez anos depois de uma primeira experiência na ópera, com A Demolição, composta a meias com Fernando Lapa e Carlos Guedes e apresentada nas infraestruturas da Casa da Música, Carlos Azevedo, compositor com formação erudita e um dos diretores artísticos da Orquestra Jazz de Matosinhos, escreveu, por encomenda de Guimarães 2012, a ópera Mumadona. A estreia é  sexta e sábado, dias 14 e 15 próximos, às 22, no Centro Cultural Vila Flor.

Manuela Paraíso

Dez anos depois de uma primeira experiência na ópera, com A Demolição, composta a meias com Fernando Lapa e Carlos Guedes e apresentada nas infraestruturas da Casa da Música, Carlos Azevedo, compositor com formação erudita e um dos diretores artísticos da Orquestra Jazz de Matosinhos, escreveu, por encomenda de Guimarães 2012, a ópera Mumadona. A estreia é  sexta e sábado, dias 14 e 15 próximos, às 22, no Centro Cultural Vila Flor, com encenação de Marcos Barbosa, direção musical de António Saiote à frente da Fundação Orquestra Estúdio, de um coro e um naipe de excelentes cantores líricos. Um empreendimento que ocupou um ano do compositor e o fez trabalhar pela primeira vez com Carlos Tê, a quem foi pedido um libreto com o tipo de narrativa da ópera clássica, mas que contivesse elementos ligados à Cidade Berço.

Jornal de Letras: O libreto contém elementos dramáticos e cómicos. Como o definiria?

Carlos Azevedo:
É mais dramático do que cómico. O mais interessante no libreto é a sua mensagem, que chega a toda a gente. Mas existe também uma segunda leitura, mais profunda, e uma terceira, mais erudita. Há uma história de amor impossível em tempos de crise económica, do poderio chinês (o Carlos Tê antecipa no libreto factos que viriam a acontecer depois, como a compra dum estúdio em Hollywood por parte de chineses). Há também muitas referências históricas de tendência recorrente (por exemplo, a "Noite de Cristal") e há uma personagem interessante que fala do neo-maoísmo e da vingança do povo chinês contra a opressão - referindo-se a construção da linha férrea entre Nova Iorque e São Francisco, feita pelos chineses. É um libreto muito rico mas ao mesmo tempo simples, capaz de chegar a vários tipos de público.

Há quanto tempo anda a trabalhar nesta ópera?

Há um ano, e estou sempre a descobrir coisas novas. Por exemplo, há outro elemento maravilhoso, que é a recuperação do conceito do coro grego, mostrado como uma personagem que representa a consciência. A ópera tem um discurso muito corrido, tem poucas árias, alguns recitativos, mas é muito falada, como uma peça de teatro, com intervenções curtas e sucessivas, o que é difícil para os cantores. Foi complicado trabalhar isso musicalmente. O Tê, sendo muito culto e conhecendo muitas óperas, conseguiu fazer algo de diferente, em especial ao nível da forma. Acho que, daqui a 20 anos, este libreto será um documento histórico.

Sendo um compositor de música erudita, mas ligado também ao jazz, que discurso e recursos musicais utilizou para esta ópera?

Costumo dizer que nesta ópera dei tudo o que sei... 99,9% dela é influenciada pela minha formação clássica e evidencia o meu tipo de escrita, que transporta sempre um pouco dos dois mundos. Há no entanto um momento inevitavelmente jazzístico, que poderia ter sido escrito para uma big band, quando o coro fala de Hollywood e de Cole Porter - embora sejam apenas seis compassos no meio dos cem minutos que a ópera dura.

No início do primeiro ato há uma cena nas tradicionais Festas Gualterianas com a cartomante Mumadona. Que tipo de música compôs para essa cena?

Criei dois momentos musicais completamente diferentes, quer ao nível harmónico quer ao da métrica. A música da Mumadona é muito pausada, é quase um recitativo que depois se transforma numa enorme ária; e as festas têm uma música festiva, uma adaptação dum ritmo mais popular, porém num contexto clássico que serve a ópera. São momentos completamente contrastantes. A música tem tudo: linguagem modal, poli-modal, neo-tonal, neo-modal, quase atonal... e aspetos minimalistas. Tentei, no entanto, integrar todos esses elementos num estilo único, que não se ouça como uma amálgama de fusões - o que foi difícil mas era necessário porque desde o início percebi que seria impossível, com este libreto, usar uma linguagem única, sob pena de não servir o texto.