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Joana Craveiro: Teatro vivo de memórias

Teatro e Dança

Estelle Valente

Elas Também Estiveram Lá é a nova criação do Teatro do Vestido, que estreia na sexta-feira, 13, integrado na programação Abril em Lisboa, centrada nos Direitos Humanos e nesta 2ª edição dedicada às mulheres. E são as memórias delas que se resgatam, Quotidianos de Resistência e de Revolução de Mulheres, no espetáculo, um itinerário que começa na Avenida da Liberdade e acaba na antiga ‘Sala da Censura’ do Cinema S. Jorge. Uma reflexão, como adianta ao JL a encenadora e dramaturga Joana Craveiro, sobre a condição feminina nas últimas décadas. Porque “há que falar das histórias de que ninguém fala”

Maria Leonor Nunes

“Escutar diferentes vozes”, mesmo aquelas que não ressoam no espaço público, “escavar” ao lado dos caminhos habituais, “resgatar” as memórias dos protagonistas silenciosos da História, e “contar as histórias por contar”. Dito de outra maneira, a partir desses olhares anónimos e subjetivos, fazer teatro.
Essa é uma das frentes de trabalho do Teatro do Vestido, que tem desenvolvido um “teatro de investigação, de pensamento e de texto”, ancorado em testemunhos recolhidos, como adianta ao JL a dramaturga e encenadora Joana Craveiro, que fundou e dirige a companhia há 17 anos. Um longo percurso por muitos lugares do país, até por não ter um espaço próprio, que afirmou, no entanto, um lugar único na cena teatral portuguesa.
Espetáculos como Labor, ou o premiado Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas marcam esse projeto, a que agora se acrescenta Elas Também Estiveram Lá – Quotidianos de Resistência e de Revolução de Mulheres, que de 13 a 21 vai fazer da Av. da Liberdade um palco que vai desembocar no S. Jorge. Criado no feminino, propõe-se refletir sobre o papel das mulheres na sociedade portuguesa, quer durante o Estado Novo, quer no período a seguir ao 25 de Abril. O texto e encenação são de Joana Craveiro, que interpreta, com Ainhoa Vidal, Inês Rosado, Joana Margarida Lis, Tânia Guerreiro e Vera Bibi.
De 24 a 29, o Teatro do Vestido, que entretanto lançou com os músicos Ana Bento e Bruno Pinto o disco É até não Haver mais Fio, irá até Almada com Um Mini-Museu Vivo de Memórias do Portugal Recente, no Teatro Municipal Joaquim Benite. Em maio, de 24 a 26, no Teatro Viriato, em Viseu, onde a companhia está atualmente residente, apresenta Filhos do Retorno, que depois vai levar ao Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII), de 21 de junho a 1 de julho. Também no TNDMII, no Palácio Sinel de Cordes, de 7 a 10 de junho, repõe Retornos, Exílios e Alguns que Ficaram.

Jornal de Letras: O que a levou à criação de Elas Também Estiveram Lá?
Joana Craveiro: Algumas imagens de um arquivo que adquiri, este verão, de fotografias do 25 de Abril e onde havia poucas mulheres. Mas este espectáculo parte de uma investigação que já ando a fazer há algum tempo.

Sobre as memórias das mulheres do Estado Novo?
Sobre o papel das mulheres na História da resistência à ditadura, mas também na Revolução, nomeadamente no quotidiano revolucionário. Uma História escrita basicamente por homens, apesar de haver muitos testemunhos de resistência de mulheres publicados. Entretanto, fiz duas conferências performativas em Madrid. E surgiu o convite da EGEAC ao Teatro do Vestido para trabalhar a partir de uma sala que existe ao lado do cinema S. Jorge.

Onde funcionou a censura.
Na altura nem conhecia essa sala, onde aliás o Manuel Mozos estreou o filme Censura: Alguns Cortes. Como estava a trabalhar sobre as mulheres, propus construir um espectáculo que não fosse apenas sobre a censura e aquela sala, mas um itinerário, com várias paragens. E é um espectáculo inteiramente interpretado e co-criado por mulheres, no qual procuramos refletir sobre a condição da mulher ao longo dos últimos anos.

A partir de uma recolha de testemunhos?
Sim. Alguns que já tínhamos recolhido e outros que vamos ter durante o processo de criação. E não procurei apenas protagonistas políticas, mais ou menos conhecidas, mas mulheres que nem sequer tiveram militância.

Interessou-lhe também as anónimas que não apareciam nas fotografias?
Falei, por exemplo, com uma mulher de uma classe baixa, que não tinha a quarta classe e para quem continuar a estudar foi a sua forma de resistência, de transformação do seu destino, e de mobilidade social. Porque nem todos tinham livros em casa, uma educação política desde pequenos, muito menos as mulheres, durante o Estado Novo. Há que falar também dessas histórias de que ninguém fala. Apesar de o papel das mulheres ser bastante invisível, algumas tiveram uma amplificação da sua voz no espaço público, e ainda bem. Mas também procuro resgatar, escavar outros exemplos de mulheres que não chegam a ter a sua história inscrita. Para dizer precisamente que elas também estiveram lá, apesar de não aparecerem nas fotografias.

Histórias por contar
E é ‘uma arqueologia’ social que procura fazer no seu teatro?
Há sobretudo a ideia de escutar algumas vozes e contar histórias por contar. E para isso é necessário escavar, sair dos caminhos mais direitos. Digo isso mesmo na minha palestra sobre as mulheres, que preciso ir a outros arquivos, livrarias, procurar outras pessoas.
Por que começaram a fazer esse trabalho?
Porque nos interessou olhar para a realidade do país, para o percurso político dos últimos anos. Tornou-se urgente e pertinente refletir para compreender onde as coisas tinham começado a correr mal na promessa da construção de uma democracia mais igualitária, mais justa. Começámos então a olhar nos olhos essas questões sobre as quais já refletíamos internamente. E criámos o Museu Vivo, que depois levantou uma série de outras questões.

Elas Também Estiveram Lá vem na continuidade desse trabalho?
Inscreve-se nessa linha, mas procura novas coisas. Desde logo, vai estar muita gente em cena e não eu sozinha durante quatro horas e meia... E eu própria também entro nessa aventura. Vai ser também na rua e não apenas numa sala. Para nós, é muito importante também a exploração dos lugares.

Em que fazem os espetáculos?
Sim. Somos pessoas de mapas afetivos, de cartografias e sempre fizemos espectáculos site-specific, em condições de produção particulares, e em muitos sítios. A ideia do lugar, do percurso, da cidade, de poder caminhar a contar histórias, está mais uma vez presente neste projeto.

O que fazem é um teatro documental, um teatro ensaio ou simplesmente um Teatro do Vestido?
Não me identifico com a ideia do documental. Estou mais interessada na forma como as pessoas se lembram dos acontecimentos do que naquilo que realmente aconteceu.

No trabalho da própria memória?
Sim. Não sou historiadora, nem jornalista, mas uma criadora apaixonada pela História oral, em que a memória é um manancial de informação. Não trabalhamos sobre o que aconteceu, mas sobre a perceção que as pessoas têm hoje do que se passou há 40 anos. São os processos de rememoração e o modo como a memória é transmitida que me interessam. Não quero repor qualquer verdade, até porque não acredito nela, mas na apropriação subjetiva por parte dos sujeitos da História de que fizeram parte. Essa condição de subjetividade apaixona-me.
Porquê?
Porque cada pessoa tem uma história para contar. E não preciso de uma grande amostra. Basta-me uma pessoa só. Há algum tempo, fiz uma entrevista de quatro horas a uma mulher incrível e pensei que o espectáculo podia ser só a sua história. Por tudo isto, é difícil definir o que somos. Sem dúvida, um teatro de investigação, de pensamento e de texto.

Escrever para fazer
A importância, até poética, das palavras é outra característica do teatro que faz e escreve?
A minha paixão é a dramaturgia, no sentido do trabalho de dramaturga. Ou seja, como agarro em toda a investigação e a transformo em matéria teatral. O texto que estou a criar para o Elas Também Estiveram Lá, por exemplo, tem uma qualidade mais poética do que aquele que escrevi para o Museu Vivo, tentei ser menos factual. Até porque não se trata de uma conferência performativa. Quero dizer certas palavras em cena, que as atrizes as digam e daquela maneira que pensei.

Escreve para a cena, a pensar nos atores que vão dizer o texto?
Sim. E não me limito a papaguear o que me disseram, embora possa usar excertos claramente identificados. Tal como acontecia em Labor ou nos Retornos. Diferente foi o texto que escrevi para Margem, de Victor Hugo Pontes. E estou sempre a inventar formas de tratar o material que tenho para o pôr em cena. Essa é a minha paixão. E é um texto que pede para ser feito.

Em que sentido?
Preciso de ver dizê-lo para ver se funciona. Neste espetáculo, saímos logo com figurinos, objetos e o texto na mão, para a rua, que é o nosso palco, no primeiro dia de ensaios. Gustavo Vicente, que tem trabalhado connosco, tem uma expressão que considero feliz, o ator do Vestido é o ator investido… É a nossa linguagem, o nosso processo de trabalho. Outras companhias terão outros métodos e dinâmicas, nós adoramos fazer.

Além do teatro, também acabam de fazer e lançar um disco sobre o trabalho do linho. Que projeto é esse?
Foi uma ideia de dois músicos de Viseu, a Ana Bento e o Bruno Pinto, que é o compositor e intérprete da música do nosso espectáculo dos camionistas, Viajantes Solitários. Foi um desafio, percorremos várias aldeias da região para fazer recolhas sobre o ciclo do linho, desde o cultivo até à tecelagem. É uma longa história, com várias camadas sociais, económicas, culturais, um ofício de mulheres. E foi muito interessante. Eu escrevi os textos para a música e uns são cantados e outros falados, numa espécie de dramaturgia que criei. Fizemos um concerto de lançamento no Museu Etnográfico da Várzea de Calde. E gostávamos de fazer mais.

E estão a preparar novas criações?
Sim. Teremos um novo espectáculo, Mapa-Mundi, em setembro, com a Companhia Maior, e estamos já a pensar um outro, Viagem a Portugal, para 2019. Será uma reflexão que não terá a ver apenas com as memórias políticas que temos vindo a trabalhar, mas também com as marcas que perduram, de um certo tempo passado. Queremos fazer essa radiografia do país, para culminar este projeto. J