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Par ou Ímpar - O arco

Par ou ímpar

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O Arco da Rua Augusta abriu ao público, 138 anos depois da sua construção. 

Francisca Cunha Rego

Ele sempre esteve ali. Desde que me lembro de ser gente que me lembro dele. Enquanto ia à Baixa "ver as montras", essa expressão tão cheia de memórias, ele estava ali. Enquanto a minha mão pequena segurava a mão enorme (parecia-me então) da minha mãe, quando íamos descobrir 'aquele' livro de exercícios de Matemática que me faltava para o início de setembro e que só havia 'naquela' livraria da Baixa, ele oferecia-nos sombra. Ele estava ali quando, já adolescente, eu me deliciava com os mil e um artigos da feira de artesanato que, às vezes, nascia aos seus pés. Continuou sempre ali enquanto eu o atravessava para chegar à praça grande em dia de manifestação. Estava ali a tocar nas nuvens, a dizer as horas, a segurar dois prédios, a olhar a cidade lá do alto. As figuras tão grandes quanto distantes. Ele tão distante. Tão longínquo. E agora, de repente, tão perto.

O Arco da Rua Augusta abriu ao público, 138 anos depois da sua construção. Há um elevador, depois umas escadinhas estreitas que nos levam até ao Salão de Abóbadas onde está a maquinaria do relógio. Atravessa-se o espaço para chegar a mais 40 degraus, em caracol, onde se cruzam os que sobem e os que descem e os seus sorrisos amáveis. Lá em cima Lisboa em 360.º. O azul imenso do rio, a Praça do Comércio com um D. José a brilhar, a Sé, o Castelo, o casario e um olhar novo sobre os desenhos geométricos da calçada. Do alto, com o sol a bater-nos na cara, tenho a mão segura por uma mão pequenina. Fazemos cócegas nos pés enormes da estátua maior. E sei que estou a criar novas memórias da Baixa.