Jornal de Letras

Siga-nos nas redes

Perfil

Homem do Leme: Virtualmente eternos

Homem do Leme

  • 333

Tal como todas as religiões e seitas, a Companhia da Eletricidade, as autarquias e o Ministério das Finanças acreditam na vida para além da morte.



Tal como todas as religiões e seitas, a Companhia da Eletricidade, as autarquias e o Ministério das Finanças acreditam na vida para além da morte. Apenas têm aproximações diferentes à crença. Enquanto as religiões idealizam um novo mundo onde os mortos ressuscitam, estas outras entidades prolongam a vida, seguindo a ideia de que "enquanto não souberem que morremos é como se ainda estivéssemos vivos". Espalhados pelo país, há milhares de defuntos que, misteriosamente, continuam a pagar as suas contas do gás e da eletricidade, têm consultas médicas marcadas, recebem pagamentos por conta das finanças e são convidados a votar. As pessoas só morrem quando faltam a uma prova de vida. E a morte burocrática, chamemos-lhe assim, por vezes não dá mesmo jeito nenhum aos herdeiros. Por exemplo, a mudança de titular na Companhia do Gás envolve uma reinspeção e respetivos custos. Mais vale deixar os mortos vivos.

Aparentemente é um mero problema burocrático ou tecnológico. Mas a verdade é que os meios tecnológicos não o sabem resolver. A Internet é um cemitério ambulante (de emails, blogues, páginas, contas varriadas...). Absorve mais dúvidas existenciais do que qualquer manual de filosofia. No mundo real, a coisa até é relativamente simples. Enterram-se os cadáver e declara-se que aquela pessoa já não existe. No mundo virtual tudo é mais complicado, não estão previstas as certidões de óbito. Não há forma de distinguir um morto de um utente que perdeu a palavra passe.

No Facebook somos confrontados com a imprevisibilidade da morte, uma crueldade que nos inquieta: "Ainda ontem postou um vídeo dos Monty Python e hoje já não está cá".

Para a equipa do Facebook é um problema sério. Dos murais de quem morre constroem-se, espontaneamente, livros de condolências, em formato quase catártico. Virtualmente, a morte é mais abrangente em espaço e em número. Não é necessário conhecer pessoalmente para lamentar o óbito. Por vezes, mais em caso de figuras públicas ou semipúblicas, familiares ou amigos aproveitam o mural para criar um espaço de homenagem. E assim acontece, por tétrico que possa parecer, que alguns mortos continuam em intensa atividade. O Facebook não gosta nada disto. A existência de mortos vivos é incompatível com a sua filosofia positiva, por vezes enervante, em que não há um botão de "não gosto". O Facebook não nos quer confrontar com a morte. A morte é um bug no sistema para o qual, tal como nós, não tem uma solução. Até porque, sendo os perfis privados, é sempre possível que a password do falecido permaneça desconhecida. O Google engenhosamente tentou contornar a questão, permitindo deixar o seu email como "herança" a duas pessoas. E assim poderão posteriormente desativar a conta. Mas o melhor mesmo é avisar que vamos morrer pelo menos com uma semana de antecedência. Ou não morrermos nunca.