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Homem do Leme: Refundemo-nos

Homem do Leme

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Se estivesse a dirigir-se a marceneiros talvez dissesse: "É preciso aparafusar o memorando da Troika". Mas como era um recado para o Partido Socialista usou o verbo 'refundar', criando grande alvoroço e debate entre a comunidade linguística



O primeiro-ministro lembrou-se que era de seu pelouro a pasta da cultura e, para calar vozes hostis, que o acusavam de pouco fazer pelas artes, incluindo ir a concertos de Paulo de Carvalho, lembrou-se de usar uma palavra difícil para se referir ao que pretendia fazer com a Troika. Se estivesse a dirigir-se a marceneiros talvez dissesse: "É preciso aparafusar o memorando da Troika". Mas como era um recado para o Partido Socialista usou o verbo 'refundar', criando grande alvoroço e debate entre a comunidade linguística. E para dar uma pista sobre o significado do verbo, acrescentou ainda: "Digo refundação e não renegociação", dando a ideia de que sabia perfeitamente do que estava a falar, entalando, subtilmente, os intelectuais de esquerda do PS, que se julgam donos de grande vocabulário. Ele, que nos tinha habituado a expressões bastante mais coloquiais, como "às pinguinhas", encontrou a palavra exata para humilhar a oposição socialista. E António José Seguro, cujo verbo preferido é 'chocar', caiu na esparrela e pediu desde logo um esclarecimento a Passos de Coelho: "O senhor primeiro-ministro importa-se de explicar o que quer dizer com isso?" Ao não responder, Passos Coelho mostrou-se um professor austero, daqueles que dizem: "Sublinhem as palavras que não sabem e vão ver ao dicionário".

O resto dos portugueses ficou a pensar: Preferia o outro que falava de pin..., não era educado, mas pelo menos sabíamos a que se estava a referir". Os céticos terão pensado: "Não nos bastavam as fundações, ainda querem fazer refundações. Este país não vai longe". Nesta última parte têm toda a razão. E o gabinete de Angela Merkel teve um ligeiro acesso de pânico, e ainda agora está a vasculhar prontuários, dicionários e gramáticas para tentar perceber o que Passos Coelho queria exatamente dizer, é que aparentemente a palavra refundação não tem tradução direta em alemão, nem sequer em inglês. Já perguntaram ao Durão Barroso, mas ele não prestou declarações.

Enfim, só ficarão devidamente esclarecidos no final deste artigo. E é por isso que eu  resolvi refundar a questão. Atenção, eu falo em refundar e não em recolocar nem em centrifugar a questão (pronto, já dei mais umas pistas). A minha estratégia para resolver a charada foi preguiçosa. Primeiro cliquei com o botão direito do rato sobre a palavra em busca de sinónimos, deu-me "afundar". Depois fui ao dicionário on-line da Porto Editora e deu-me "Aprofundar". Cheguei à seguinte conclusão: este governo refunda o memorando da Troika e quem se refunde somos nós.