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Homem do leme: Realismo hardcore

Homem do Leme

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Conta-se que, em determinada cena, o herói disparou uma só bala e... todos morreram. O realizador esquecera-se de dar a indicação de quem deveria cair. 

Manuel Halpern

Quando John Ford realizou os seus primeiros filmes em Hollywood, os figurantes eram pagos consoante a qualidade da sua participação. Os que tombavam no chão após um tiro ganhavam um bónus. Conta-se que, em determinada cena, o herói disparou uma só bala e... todos morreram. O realizador esquecera-se de dar a indicação de quem deveria cair. O cinema é uma arte de ilusões combinadas meticulosamente. Um imenso complô tecnológico montado para enganar o público. Isso está logo na sua origem técnica: a sequência rápida de imagens dá-nos a sensação de movimento. No início, essa ideia de movimento era de tal forma surpreendente que, como se sabe, as pessoas gritaram de medo quando viram o comboio dos Irmãos Lumiére aproximar-se na sua direção. Mas também há uma complacência de engano comum à ficção. Entramos no faz de conta. Pouco nos importa se o herói, na verdade, não estava pendurado, só por um braço, no parapeito do terraço de um arranha-céus. Que afinal tudo é feito num cenário, com andaimes e coletes de segurança e a sensação de altitude é provocada pela habilidade do editor de imagem. Fingimos não saber que os tiros são estalidos, que o sangue é ketchup, que o monstro é um homem mascarado de lagarto. E também que o Indiana Jones é na verdade um ator chamado Harrison Ford e que nem sequer é arqueólogo quanto mais aventureiro. No cinema, acreditamos em muito do que não vemos. Que as personagens têm um passado e um futuro, toda uma vida a que nós não temos acesso, porque o realizador só quis mostrar as partes relevantes para contar a sua história. Acreditamos que quando um casal entra num quarto e fecha a porta, algo de íntimo se vai passar, a que nós não vemos apenas porque, por bom gosto, o realizador nos quis poupar dessa invasão da privacidade. No cinema pornográfico nada se passa assim. É um cinema do real. O espectador não pode ter dúvidas. Quer ter a certeza absoluta de que realmente se está ali a desenrolar o ato sexual e não se tratam de dois atores manhosos a fingir a coisa. Façam lá o close up para que não restem dúvidas. É um cinema que vai atrás das provas, contra qualquer sombra de ilusão. Disto já se sabia. O que eu nunca pensei é que essa literalidade pudesse ainda mais longe, ao ponto de se desnudar de todos os níveis de figuração. Imaginava eu que, para satisfazer qualquer fetiche que alguém tenha por mulheres polícias, uma atriz pornográfica vestiria e despiria a farda (ou pelo menos o boné) de polícia e não que a produção fosse à esquadra procurar uma polícia verdadeira que se dispusesse a tais preparos. Contudo, o ultrarrealista da pornografia ultrapassou-nos numa recente caso de extrema sinceridade e hombridade. Uma professora de Mértola alegadamente terá gravado um filme pornográfico da sala de aula em que faz de professora de Mértola a gravar um filme pornográfico na sala de aula. Brilhante. Com modéstia, em vez de assumir o hiper-realismo da cena, fala em montagem de mau gosto, refugiando-se no historial ilusório do cinema. Ninguém acredita. Levantou-se um coro de protestos perante a indecência, exigindo o desp(ed)imento da docente. E uma escola do norte, talvez em jeito de resposta, apressou-se a proibir os decotes das alunas do secundário, não vá a moda pegar. O problema da professora foi mesmo o excesso de transparência cinematográfica: se tivesse gravado o filme da sala de aula a fingir que estava num lagar de azeite nada disto acontecia... Quem abusa do realismo acaba por cair no real.