Jornal de Letras

Siga-nos nas redes

Perfil

Homem do Leme: Quaresma

Homem do Leme

  • 333

O nosso governo embrulhou-nos numa Quaresma prolongada. Impõe-nos sacrifícios sem quaisquer outras perspetivas senão o próprio sacrifício, com a remota intenção de agradar um Deus estrangeiro.





O meu pai dizia que, enquanto a malta gramava peixe cozido, nos dias de abstinência, a minha mãe devia comer um belo naco de carne, porque sempre gostara mais de peixe do que de carne, e chamar sacrifício a uma bela solha ou posta de pescada, no seu caso, seria tomar Deus por parvo. Por isso, o verdadeiro esforço para si seria comer uma chispalhada, orelha de porco, sopa de rabo de boi ou talvez umas papas de sarrabulho. Eu, por mim, hoje em dia, comeria de bom grado um robalo assado no forno todas as sextas-feiras da Quaresma, e até mesmo às quintas, caso o robalo fresco não estivesse ao preço do bife do lombo. Um sacrifício para a carteira.

Esta peculiar ideia de jejum, reforçada pelos padres na missa, era corrente na minha infância. A Quaresma era um Ramadão em versão soft. Funcionava apenas às sextas. E podíamos comer durante o dia, mas não tudo o que quiséssemos. Além da carne, eram vedados os bolos, as guloseimas, os Sugus de fruta, as pastilhas Gorila, as bolas de neve, o pudim Boca Doce.  Era pecado porque era pecado. E a questão lá em casa era levada muito a sério (Ouvi dizer que, noutros tempos, em Salamanca, a coisa era de tal forma, que na Quarta-feira de Cinzas os estudantes levavam as prostitutas para o lado de lá do rio e só as iam buscar depois da Páscoa).

Um dia alguém descobriu que estes estranhos hábitos da Quaresma não eram bons para o crescimento económico e - Glória, Aleluia! - tratou de acabar com eles. Ou não terá sido bem assim. Foi antes e apenas porque aquilo era demasiado estúpido. Esses sacrifícios não tinham nenhum propósito para além do sacrifício em si. Em nada nos melhoravam, apenas nos deixavam com mais fome.

Pensava eu ter-me livrado desta mentalidade quando me apercebi, ao aproximar-me da quadra, que o nosso governo embrulhou-nos numa Quaresma prolongada. Impõe-nos sacrifícios sem quaisquer outras perspetivas senão o próprio sacrifício, com a remota intenção de agradar um Deus estrangeiro. E, nós, talvez por este hábito enraizado de outras gerações, vamos acatando, protestando menos do que devíamos. Há quem os defenda. Também já li quem enaltecesse o tempo em que se comia pão duro e que aquilo não fazia mal a ninguém. Por mim, cada um pode comer o pão com a consistência que preferir, desde que seja por opção e não por necessidade. Práticas masoquistas sempre houve em todas as épocas, não vamos por isso defender a autoflagelação como forma de nos preparar para a vida.

A Quaresma já vai longa e não há fé que resista. Para ressuscitar, dizem, é preciso morrer primeiro. Eu cá por mim não arrisco. Mais vale mudar de pastor.